Simbologias da Oração do “Pai nosso”

Publicado em 06/04/2015

Temos uma oração universal para os adeptos do Cristianismo nas suas mais diversas denominações religiosas, que é a oração do “Pai nosso”. Esta oração é muito utilizada em eventos ecumênicos e podemos encontrar nas edições de diferentes traduções da Bíblia, conforme a doutrina de cada religião.

De fato, esta oração é a única ensinada por Jesus Cristo e narrada nos evangelhos. Sendo apresentada como um roteiro para nos colocarmos diante de Deus de forma ampla e irrestrita, onde estar com Deus, falar com Deus, contemplar a Deus e pedir a Deus, estão contidos em breves palavras, que sistematizadas nos colocam diante de sete orações subdivididas em três etapas: primeira etapa, orações de reconhecimento da Magnitude de Deus e percepção de seu Reino e agradecimento – orações de 1 e 2; segunda etapa, de comprometimento e posicionamento de assumir a missão – oração 3; terceira etapa de pedidos diante do reconhecimento de nossos limites – orações de 4 a 7 .

Sabemos que na dimensão teológica o número sete representa o infinito, a plenitude. E o número três contêm o mistério da Santíssima Trindade ( Pai, Filho e Espírito Santo). Vamos refletir as orações:

1 – Pai nosso que estai nos Céus – Temos um Pai que é para todos, e não apenas para mim ou um grupo de pessoas ou religião específica. Jesus lembra que ao nos colocarmos em sintonia com Deus façamos com a certeza de que Ele é de todos. Assim não tomamos posse sobre Deus tentando manipulá-lo para nós mesmos. Em todo lugar onde existe vida, morte, desavenças, perseguições, guerras, medos, ódios, alegrias, felicidade. Um Deus que se encontra em todo lugar e assim, um Deus que podemos recorrer em qualquer instância e situação. Jesus nos ensina que mesmo em momentos onde Deus parece não estar, é só aclamá-lo que Ele ali está. Podemos pensar que se Deus estivesse em uma situação de conflito, destruição ou morte poderia evitar que aquela situação acontecesse. Uma tentação do fiel que acredita que pode manipular Deus conforme suas necessidades: “- Como pode Deus permitir que tal fato desastroso acontecesse...” vai lamuriar o fiel que deseja um Pai milagroso. Mas Jesus nos mostra o Deus que “Está nos céus”, para entendermos que em todo lugar Ele pode ser solicitado, encontrado. E assim podemos ter consolo e superações com a certeza que Deus está nos acolhendo. Uma fé que não elimina os conflitos e desafios, mas que se fortalece no Senhor para enfrentar os desafios do cotidiano.

2 - Santificado seja o Vosso Nome – O reconhecimento da Santidade de Deus e a lembrança de estarmos colocando em prática o primeiro mandamento “Amar a Deus sobre todas as coisas". É o agradecimento e louvor. Como filhos que reconhecem a soberania de Deus e com isso agradecem e louvam ao Senhor.Jesus lembra a todos que a relação com Deus não está apena no pedir e lamuriar, mas principalmente no agradecer e louvar. Aqui temos o reconhecimento de nossa pequenez e grandeza de Deus, de nossos limites e gratidão pela soberania Dele em nossas vidas.

3 – Venha a nós o Vosso Reino, seja feita a Vossa vontade assim na terra como no céu – Aqui Jesus nos ensina a nos colocar diante do Pai desejando que a vontade Dele para a humanidade prevaleça. É uma missão do fiel, de fazer vir a nós o Reino do Pai. Um Reino de Amor e justiça, onde o maior projeto de Deus traçado à humanidade citado em Gênesis 1 - “Crescei, Multiplicai, Dominai a terra...”; “...e viu que tudo era muito bom...” Nascemos com o legado de cuidar. Sendo imagem e semelhança de um Deus Criador, nos tornamos criativos, capazes de fazer multiplicar. Multiplicar para a solidariedade e o amor mútuo, a grande busca da humanidade. Uma humanidade que viva a civilização do amor. Um projeto que ao orarmos “ ...venha a nós o Vosso Reino”, estamos assumindo o compromisso de darmos continuidade à Sua criação. Orar diariamente esta verdade é vivermos a cada dia em busca da construção deste Reino de Deus. Um Reino que é preciso ser vivido, e não simplesmente ser uma solicitação para depois da morte no desejo de estar no “céu”. No “Pai Nosso”, o céu é todo lugar e o Reino está aqui e agora.

E qual é a vontade do Pai? Para sabermos é necessário conhecermos a trajetória do povo de Deus que está contida na Sagrada Escritura, a Bíblia. Ela que é a carta magna, a constituição do povo que escolhe caminhar com Deus. Nela vamos observar que Deus investiu primeiramente em um casal, Adão e Eva, para cumprirem o Seu mandato da construção de Seu Reino. Mas na necessidade de se fazer deus e tomar posse do conhecimento, o ser humano deseja a sua própria divindade, “...se existe um Deus, não posso eu ser deus?...”. Vendo a sede do poder deste povo, Deus reconstrói seu projeto na história da humanidade através de Moisés e dos profetas, como também dos povos que Nele creram, até culminar com a história cristã de salvação na pessoa de um outro casal, Maria e José. Fazendo-se “Carne” na pessoa de Jesus Cristo. Renasce a esperança pela humanidade, numa nova ética e perspectiva: “...Amar ao próximo como a si mesmo...” . Assim, a vontade do Pai a ser feita está na nova lei a partir de Jesus Cristo, que é a lei do AMOR, do Amar e ser Amado, “...pois é dando que se recebe...” ( São Francisco de Assis – aquele que viveu a vontade do Pai)
Em todos as situações e lugares. Onde há ambiente favorável para a prática desta verdade e onde parece que Deus nunca estaria ali. No ontem, no hoje e no amanhã. Assim na terra como no Céu.

4 – O pão nosso de cada dia nos daí hoje – Aqui Jesus nos ensina que podemos pedir, sem receio. Assim como já havia ensinado “pedi e vos será dado...”. A nossa existência corporal e a nossa sobrevivência. Necessitamos de alimento e de recursos para viver e sobreviver, sobretudo para construir o Reino de Deus. Aqui corremos o risco de cairmos na teologia da prosperidade que vai acentuar a idéia desfocada de quanto mais ganhamos financeiramente mais próximos de Deus estaremos. Porém, quando pedimos o “pão nosso”, estamos pedindo na perspectiva do nosso, e não do meu. Novamente o Reino da partilha e da justiça, o Vosso Reino. Ao chegarmos na etapa do pedido à Deus, Jesus ressalta que este pedido é para a pessoa que pede e para todos. Nesta perspectiva o Cristão se incomoda com a possibilidade de estar se satisfazendo financeiramente e ao mesmo tempo ver que milhares e milhões de pessoas passam fome. Este primeiro pedido parte de uma necessidade individual mas também coletiva, para que não caiamos na tentação de acreditar que se tenho mais é porque estou mais próximo de Deus e aquele que nada tem é porque está distante de Deus. As riquezas e pobrezas são conjugadas no coletivo. Se existem enriquecidos é por que de alguma forma cresceram financeiramente dentro de uma perspectiva coletiva que desencadeou o empobrecimento de muitos. O Reino de Deus prescinde a igualdade, a equidade da distribuição dos bens desta Terra, “... assim na Terra...”, para atingirmos a plenitude de uma sociedade igualitária, “...como no céu...” .

5 – Perdoai as nossa ofensas, assim como nós perdoamos a quem nos tenha ofendido – Deus perdoa, mas com uma condição, de que perdoemos também. Jesus nos mostra que seremos perdoados na medida que perdoarmos. Tudo bem que para os Católicos existe o sacramento da Confissão, mas não significa que o simples ato de se colocar diante do padre reconhecendo-se pecador Deus estará perdoando. O confessionário em si não vai dar a garantia do perdão de Deus. O que nos garante o perdão de Deus é perdoarmos àquele que nos ofendem. Um princípio contido na concepção do Reino de Deus que é a prática do amor. Assim como Jesus já havia mostrado aos fariseus da sua época, quando estes apedrejavam uma prostituta em praça pública e Jesus diz: “- Quem não tem pecado que atire a primeira pedra...”, e um por um ia largando as pedras das mãos. Ou mesmo quando Jesus condenava os fariseus por que criavam leis para os outros na qual eles mesmos não conseguiam cumprir, e chamava esta atividade de hipocrisia.

6 – E não nos deixeis cair em tentação – aqui Jesus quer nos lembrar deste pedido ao Pai, por saber que somos humanos e cheios de contradições. A vida em Deus pela ética Cristã é um exercício que contradiz em muitas necessidades humanas, tanto no aspecto emocional como corporal. Como humanos vivemos a inveja nos nossos sentimentos, desejando ser e ter o que o outro é e tem e na qual não podemos ser e ter, mas nos deparamos com o mandamento do não desejar as coisas alheias para dominar as fantasias de consumo e de ordem sexual dentro de uma dinâmica da sexualidade humana que nos potencializa de desejos imediatos. Tendo como lema o não pecar contra a castidade e não cobiçar a mulher do próximo além de não cometer adultério.

Um humano dotado da necessidade de colocar o dedo na “árvore da ciência do bem e do mal...” que em Gêneses narra a primeira quebra de fidelidade da humanidade com Deus, tendo na prática cristã a defesa da vida e da promoção do bem quando Jesus nos ensina “Eu vim para que todos tenham vida e a tenham em abundância” (João 10,10). Um poder de conhecimento que potencialize a defesa da vida e não sua destruição. Pedir para que todas as tentações humanas não nos pegue de surpresa, mas sabendo que o próprio Jesus nos orientava para a ascese cristã do “...vigiai e orai para não cairdes em tentação...”, pois só pedir sem disciplinar-se nesta escolha, de nada adiantará.

7 – Livrai-nos do mal – Um pedido de proteção, pois o mal é a negação do bem. O mal está inerente na existência humana. Hoje já podemos constatar com estudos da psicologia que o ser humano se constitui na sua evolução das diferentes etapas de sua existência em impulso de vida e morte, de amor e ódio. O ódio é inerente ao amor e vice versa, onde há o amor poderá acontecer a manifestação do ódio. No amor somos impulsionados na prática do bem, do desejar o bem daqueles que amamos, e no ódio somos impulsionados a destruir aqueles na qual odiamos. E tudo isso pode acontecer entre diferentes pessoas e ao mesmo tempo numa mesma pessoa. Céus e terras, luz e trevas, sol e chuva, bem e mal. Viver a fé em Deus vendo a vida apenas pelo bem é desconectar-se da realidade. Deus não vai nos impedir de que o mal nos aconteça ou nos ameace, ele nos coloca em alertas para percebermos o mal que está à nossa volta ou o mal que de alguma forma cometemos ou promovemos. O pedir para livrar-nos do mal, é um pedido e ao mesmo tempo um alerta. O mal existe e temos que saber conviver com ele sem nos contaminarmos por ele. Mas livra-nos também Senhor, do mal que possamos cometer. Muitas vezes na prática religiosa, somos protagonistas do mal quando excluímos pessoas e nos julgamos melhores do que os outros que não professam nossa religião. Livrai-nos senhor do mal de acreditarmos que ao praticarmos a religião somos santos ou melhores do que os outros que não praticam. Livrai-nos Senhor do mal de esquecermos as orientações de Jesus que disse: “... Eu vim para os pecadores e os doentes...”





Compartilhe:

 

Avaliação:



Comentário de hicarocastro em 05/06/2015
Muito bonito o artigo!!!





Visitas: 3730

Entre em contato