“On-line boy”

Publicado em 03/11/2015


“On-line boy” é a nova cara dos meninos e meninas adolescentes de hoje. Lógico que toda regra tem suas poucas exceções quando a questão é a dependência eletrônica .
Concebi este termo “on-line boy” quando deparei com a seguinte cena: Em determinada rua onde há um ano muitos jovens se encontravam para vivenciar  vários tipos de brincadeiras ou sentavam na sarjeta para conversar longamente sobre tudo e todos, observei com o mesmo espaço e local  sem aquela galera de sempre. Nesta rua, de muitos amigos a visitar, a cada casa que adentrava encontrava com os filhos dos casais compenetrados no computador, e a ladainha das mães: “-... Estes meninos só querem ficar neste computador, eu não sei mais o que fazer”. Outra mãe reclamou-me que depois que todas as casas da rua colocaram computador e internet, até para eles passarem recados ou marcarem encontros, fazem pela “net”, mesmo morando na mesma rua.

Intrigado com a cena e a cruel realidade da perda de vitalidade daquela rua, que antes era encantada pela alegria da meninada a brincar, resolvi ficar junto com três adolescentes de uma das casas observando o que os atraiam para o computador. Observei que os jogos que conseguem rastrear via internet são altamente estimulantes, dinâmicos e estabelecem trocas contínuas com pessoas de toda a parte do mundo, como é o caso do jogo Manicreft. Outro fator de atração que pude observar é que muitos  jogos possuem um fundo escuro e “macabro” (meio fúnebre), com alto grau de violência. Interroguei um “on-line boy” sobre o grau de violência daquele jogo e o garoto retrucou-me: -“mas não estamos matando gente, só destruindo objetos”. – É como se estivessem destruindo patrimônios públicos e privados, retruquei -. - “Mas isto aqui é só virtual”, rebate  o “on-line boy”. Incrível mesmo era observar a quantidade de tiques nervosos que ao manusear o jogo a garotada vai adquirindo, como estivessem incorporando o virtual na realidade.

Pensei bem e procurei adentrar em outra residência daquela rua e da mesma forma encontrei meninas que há um ano  tornavam aquela rua especial, pois brincavam e jogavam com os meninos, o que fazia com que muitos meninos de outras ruas por ali chegassem. Elas não estavam na rua, mas diante do computador ligadas no  face e WhatsApp, batendo o maior papo cabeça. Ao chegar elas me abordaram de forma muito aberta e convidaram-me a ficar por lá. Conversas iam e vinham e muitas risadas. Transcrevo aqui um breve trecho:

    “- Oi td bm? - Td bm, e vcs aí? - Comu q tá a galera? - Vai indo véi. - Fiquei onti cm um cara só  - Pena q ñ foi cumigu (vem um coração), (elas retornaram com uma  cara dando risada). Todas soltam aquela gargalhada.

O cara de lá, parece-me que era do Rio Grande do Sul, todo bonitão sem camisa e só de cueca – graças a  webcam, isso podia ser observado - .Eu vendo aquela cena de repente: "- Olha o cara está só de cueca ...";  “- Nossa, se meu pai ver ...”, comenta uma das meninas. Depois elas gritam e saem correndo, fico para ver o que aconteceu. O carinha de lá mostra o pênis e escreve: “- Fika com este véi grosso aqui ó - !”

Questionei o pai da menina que residia nesta  se ele acompanhava o que as meninas estavam vendo no computador, ele disse-me que já estava cansado de dizer para desligar o computador, ele já tinha perdido o controle.
Ao sair daquela casa, encontro-me com um jovem  caminhando cabisbaixo pela rua e pergunto o porquê ele estava sozinho naquele momento, o garoto disse: “- É por que em casa o computador é controlado e meus pais não deixam eu ficar na casa da galera porque está todo mundo ligado no computador”. - Mas como seus pais vão saber? Ele retruca dizendo: “- os véio lá em casa são duro na queda, eles vão atrás para ver o que eu estou fazendo”. Você acha legal isto? Pergunto. – “Até entendo que eles estão certos, mas o que vou fazer da minha vida neste tempo que estou de férias? Tentei ir num outro bairro mais simples onde imaginava que havia alguns amigos jogando uma “pelada”, mas a  galera tinha ido na Lan House, onde meus pais nem deixam eu passar perto”. – Responde o jovem.

Despedi-me do garoto, triste, pois a sua tristeza despertou a minha. A dele pela solidão e a minha por estar diante de uma real situação - a dos “on-line boys”, onde os  que estão dentro não querem sair e os que estão fora não sabem como ficar sem. Triste continuei ao perceber que a solidão parece estar batendo a porta de todos os jovens que abandonaram a rua para se escravizar na telinha do computador.

A minha geração, dos anos 60, 70, foi às ruas fazer pirraça contra o regime militar. Crescemos e geramos filhos. Aprendemos as “pirraças”, mas não aprendemos como conduzir nossos filhos. Faltavam recursos e aprendemos a conquistá-los, mas os filhos que geramos super abundamos de recursos. Esta geração que educamos hoje sabe muito de internet e pouco do manuseio da realidade cotidiana. O que vai acontecer com o futuro da geração “on-line boy” parece incerto. Só espero que não financiemos as dívidas  que eles venham adquirir no futuro por não  saberem como quitá-las.


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