Tia ou Professora ?

Publicado em 22/12/2015


Alguns conceitos são incorporados na sociedade e tornam habitualmente utilizados sem que tenhamos clareza do significado. Assim como a palavra liga os olhos liga o aceno e liga a luz, toda verbalização escrita ou falada esconde em si um significado. Ai está nossa grande diferença com os animais irracionais. Pois a palavra é nossa simbolização e é por ela que somos diferentes e “superiores”, pelo menos não descobriram outro ser mais “evoluído”. Tudo entre aspas, pois superior e evoluído são qualificações subjetivas e às vezes duvidosas na atual conjuntura da humanidade.

Quando ouço a palavra tia, lembro das irmãs de meus pais, e também da professora. E não tem como fugir disto, pois é tia mesmo. Às vezes quando deparo com alunos de educação infantil ou fundamental, onde é mais comum chamar a professora de tia, faço uma crueldade com os alunos, insisto em perguntar se a tia que eles estão citando, é irmã de seus pais. Faço isto repetidamente para um mesmo aluno, até ele reelaborar o conceito – “não, é minha professora”, e depois, papo vai papo vem – “mas é a tia mesmo, tá !”.

Até as professoras na sua maioria se intitulam tias. E se despertamos a atenção delas, a maioria fica irritada e acabam questionando que esta questão não altera em nada a educação –“porque no fundo somos professoras”.

Mas qual é o problema de continuar chamando as professoras de tias? São muitos. Primeiro, é que colocamos atribuição às palavras conforme o seu significado. Como uma cadeira foi feita para sentar e uma carteira para escrever, ficaria muito estranho ver o aluno sentado na carteira e escrevendo na cadeira. Assim, por detrás da tia, há um sobrinho, um parente. Nesta relação de tia e sobrinho, há sentimentos de vínculos de trocas afetivas que na maioria das vezes passa pelo caminho de compensação, ou de troca indiscriminada de papéis. Uma professora que é tia, terá alunos que constantemente querem colo ou muleta; que constantemente tenta driblar os limites, como geralmente os sobrinhos fazem nos casos das tias consanguíneos,  e geralmente haverá uma quebra de papel profissional de educador e educando, prevalecendo o vínculo doméstico, onde o que vale são as trocas de cumplicidade afetiva e descomprometida de um saber sistematizado. Assim como a mãe fica horrível quando tenta ser professora, por que ela perde o encanto relacional maternal, assim também fica horrível quando uma professora fica tia, pois deixa de estabelecer regras de um vínculo de aprendizado educacional.

Sei que tanto faz como fez na cabeça de muitos professores, mas depois não reclamem que o salário é pouco. Que eu saiba, tia não ganha um salário para cuidar dos sobrinhos. Tem muitos pais que acham que professores até ganham muito pelos serviços que fazem. Esses pais também as vê como  tias e não professoras, onde levam os filhos à escola para serem cuidados.

Evoluir de tia para professora, é um caminho que requer maturidade, pois só com ela que pode-se estabelecer 4 passos essenciais para uma identidade de professor: primeiro, saber qual é o papel que está assumindo, não adianta querer abraçar todos os papéis para com o aluno: ser Médico, Pais, Assistente Social, Psicólogo, Tia - basta ser professor; segundo, é importante  ao professor saber qual é a marca que está deixando nas crianças que passam por sua carreira profissional. Quando as crianças tornarem adultas, poderão lembrar das professoras como aquelas que foram presença positiva e vital para o saber e o desejo de conhecimento; terceiro, ter na sua atividade a capacidade de amar e para isto desenvolver suas relações com os alunos, de forma muito afetiva, pois o afeto é a aliança que liga o amor do professor ao amor do aluno. E quando o professor é afetivo, a criança tende a aprender com suavidade e agilidade; quarto, ter potencialidade criativa, além das teorias que deve estudar no exercício profissional, para transformar seu contexto em formas concretas de aprendizado. Fazer com que a criança sinta que aprender é algo prazeroso, despertando nos alunos a vontade de ir à escola. Rubem Alves nos alerta que a Escola faz a história de Pinóquio ao contrário, onde o menino entra de carne e osso e o processo educacional transforma-no em boneco de pau.
Mas esta potencialidade criativa, também  seria um grande aliado de quem constrói uma profissão  e uma categoria, para fazer valer o direito a um salário justo e digno, tão reivindicado por todo profissional que se valoriza. Para isto abandonar a tia é o melhor caminho para a construção da Profissão Professor, respeitado pela sociedade e valorizado pelos seus serviços.


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