Sonhos e o inconsciente

Publicado em 23/03/2016

Com o desenvolvimento da Neurociência, tentou-se desqualificar o significado dos sonhos na vida humana. Todo mecanismo psíquico passa a ser visto como mero resultado de produções químicas cerebrais. Até o amor tentaram associa-lo a uma produção química que dura até quatro anos na vida adulta.
Passado às racionalidades da ciência tecnocrática, de laboratórios, volta-se à cena o pensar mais que humano. Os filósofos continuam pensando a existência humana, os Psicólogos continuam a interpretar o inconsciente. E os sonhos continuam a perturbar-nos com suas múltiplas simbologias.
Freud deu luz aos sonhos em “A interpretação dos sonhos”, 1900, texto que marca o início da Psicanálise como método de estudo do comportamento humano. Nele, Freud, um pensador para além de sua época, nos projeta para um olhar diferenciado das imagens oníricas. Confusas, pois se assim não fosse, não suportaríamos ver nosso inconsciente como ele é. De forma subjetiva, como uma produção artística, os sonhos remetem-nos ao debruçar cuidadosamente para encontrarmos significados. Nos sonhos, boa parte do desconhecido de cada um de nós é revelada.
Com o avanço dos estudos dos sonhos na dinâmica do funcionamento cerebral, hoje podemos constatar que chegamos a sonhar de quatro a cinco sonhos por noites dormidas, dentro de um período de 8 horas. Podemos entender que geralmente lembramos do primeiro e último sonho, sendo que geralmente aquele sonho que parece durar muito tempo, é o sonhado primeiro, e o que nos faz acordar é o último. Os sonhos podem ser restos das experiências vividas no dia ou  materiais do inconsciente. Alguns estudiosos trazem a figura dos sonhos   proféticos, geralmente  os que estudam fenômenos paranormais ou teologais. Mas todos têm em Freud o protagonista da elaboração do estudo dos sonhos. É a partir de Freud que de fato os sonhos passam a ser valorizados dentro de um processo de analise e tratamento emocional.
No livro “Sementes da vitória”, Nuno Cobra nos lembra do motivo de termos que dormir por oito horas durante a noite, é para que as enzimas responsáveis pela limpeza de nosso organismo funcionem. Elas funcionam com o corpo descansando na horizontal. Com as contribuições de Freud, temos um maior valor para o sono noturno, que além de limpar nosso organismo, faz emergir sinais de nosso eu mais desconhecido, o inconsciente.
Uma das qualidades que melhor desenvolvi como Psicoterapeuta, nestes  anos de análise diária e ininterrupta, foi a articulação com os sonhos dos pacientes no processo analítico. Sempre incentivei muito as pessoas a falarem de seus sonhos, e quando a pessoa tem dificuldade para lembrar, oriento que anote o sonho logo que acorde. Anote da forma exata que lembra. Depois, em análise, vamos construir um processo interpretativo, associado com os conteúdos depositados ao longo da psicoterapia pelo paciente. Não me coloco na condição de ser o portador da verdade sobre  o sonho que a pessoa está  dizendo, pois não há um manual para isto, e se houver, é pura fantasia. Levo os pacientes a aprenderem a buscar sentido no sonho e entenderem qual conteúdo inconsciente manifesto fez emergir no sonho. Uma psicoterapia de caráter interpretativo, jamais deixará de dar luz aos sonhos. Por mais estranho que seja um sonho, ele é conteúdo interno de extrema importância na existência humana.
Quando as pessoas me falam que dormem assistindo T.V., como se estivessem diante de uma babá eletrônica, fico muito preocupado com elas, pois estão criando um limbo entre o inconsciente e o consciente, que impedirá de levar a pessoa ao conhecimento do seu eu mais profundo. Isto por que as imagens e conteúdos da T.V. passam a ser as imagens que permanecem durante a noite, impedindo que a mente se mostre, se transborde. Assim como o corpo necessita de ser purificado pelas enzimas, nossa mente precisa ser revisitada pelas cenas dos sonhos que fazem emergir durante o sono. Sono tocado a conteúdo de T.V. é semelhante a noite acordada, onde as enzimas ficaram impossibilitadas de atuar. Impedir o sonho de se manifestar é o mesmo que tapar o escapamento de um carro com o motor ligado.
Desta forma, para se ter bons sonhos, é necessário se ter uma boa noite de sono. Assim, o quarto  de dormir, na hora de dormir, é melhor que não haja nenhuma interferência eletrônica. Do contrário, estresse, ansiedade, depressão e pensamentos difusos começam a inundar o existir humano, e conseqüentemente a insanidade mental.
Mas podemos pensar: “Para que vou ter que sonhar se não estou em análise com um especialista para ajudar-me a entender meus sonhos?”. Mesmo que os sonhos não são trabalhados, eles ficam durante o dia nos questionando,  nos faz sair de nossa comodidade existencial. Contamos nossos sonhos para as pessoas, rimos deles. Todo este movimento é inconsciente que sai, não fica criando crosta de repressão.
Criei um habito com meus filhos quando eles eram pequenos, de logo pela manhã pedir para que falassem de seus sonhos. O papo ficava divertido, por que cada um falava coisas mirabolantes e causava muita risada. Na condição de pai procurava não ser psicólogo, também falava dos meus sonhos. Esta brincadeira trouxe neles uma melhor relação e valorização de seus sonhos.
Por tudo isto, bom sono, e bons sonhos!


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