A menina que virou mulher | sobre a primeira menstruação

Publicado em 07/04/2016

Quando chega a primeira menstruação de uma menina, a sociedade a promove no status de mulher. Independentemente da idade, se aos nove anos, de forma precoce, ou se aos dezesseis. Bem cedo ou um pouco mais tarde, vira mulher por uma simples manifestação fisiológica.

Um status de gente adulta para um corpo de criança ou adolescente. Consequentemente uma pressão social na qual a menina na sua primeira menstruação não está estruturada para assumir.

Ela, que até ontem  brincava, pensava sem muita malícia, levava as broncas dos pais por ter um corpo desenvolvido e uma mente proporcional à sua idade. Passa a ser alvo do assédio sexual, do jogo publicitário que transformou a referência de beleza corpórea feminina, “com tudo em cima”, sem estrias, sem flacidez. Sonho de consumo sexual masculino são corpos em desenvolvimento, de meninas na flor em forma de botão.

Cultura recontada e perpassada, as meninas bem cedo tendem a se preocupar demasiadamente com questões e pensamentos que estão fora das suas necessidades psicoafetivas da faixa etária. Buscam se identificar rapidamente com a identidade das mulheres impecáveis, tipo atrizes, modelos de sucesso e profissionais bem sucedidas. Mas no cotidiano vão se deparando com as mulheres normais, aquelas Marias que precisam a cada dia conquistar espaço, superar o machismo e preconceitos, driblar a violência do masculino como fez Maria da Penha cuja sua ação transformou seu nome em lei de proteção às mulheres. As mulheres mães, professoras, empregadas domésticas, vendedoras, trabalhadoras no geral, e esposas também; são estas as verdadeiras mulheres que as meninas que viraram mulheres pela primeira menstruação vão encontrar.

O choque de realidade, entre a fantasia perpassada pelo marketing nas bonecas de criança  e na imagem projetada das mulheres bem sucedidas das novelas, com àquelas que estão no seu convívio natural gera a  frustração.

 No passado os traumas da primeira menstruação estava na repressão educacional do que não era  dito pelos pais, pegando de surpresa as meninas quando acontecia a primeira menstruação, como são as muitas histórias traumáticas em que a cena do “sangramento” era associado a um ferimento.

 Agora o trauma do confronto com a realidade. O tão esperado momento que falsamente as projetam para o status de mulher. Um castelo de areia construído pela publicidade infantil contaminada pela mídia comercial.

 Mesmo menstruando elas continuarão sonhando com príncipes, pois ainda estão na idade de projetarem estes sonhos, pois na verdade ainda não se tornaram mulheres de fato. Associar menstruação com identidade de mulher, é um golpe machista. Pois uma mente infantil ou de adolescente, ainda é uma mente em processo de construção de uma identidade. A principal  identidade do mundo feminino é a de se tornar mulher. Um caminho a ser construído no processo de maturidade e que só pode vingar na vida adulta, muito depois da primeira menstruação.


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