O bebê e a brincadeira de esconde-esconde

Publicado em 25/04/2016

Quem nunca brincou com um bebê no colo de sua mãe de esconder o rosto para ele? Geralmente quando estamos perto de mulheres com filhos no colo, começamos a observar o bebê e temos a tendência de interagir com ele. Quando estamos cansados, ao vermos um bebê sorridente, parece que é como se recebêssemos um balsamo de rosas em nossa alma. Aquela ingenuidade angelical do bebê, um ser desprovido de malícias e totalmente afetivo, com seu sorriso convidativo nos chama para brincar. Na sua brincadeira a conversa do bebê para conosco. Um ato que nos remete ao estado regressivo. Viajamos na nossa própria ingenuidade de criança. Por isto mesmo a sensação de estarmos aliviados.


Na verdade, a brincadeira de esconde-esconde, em que o bebê esconde-se do rosto do adulto e logo em seguida reaparece, ou quando nós adultos tiramos nosso rosto do campo visual da criança e em seguida fazemos aparecer rapidamente com algum barulho revelando surpresa, “achou!”, trás a certeza de que o bebê está entrando na descoberta do terceiro. Revela que ele está conseguindo deixar sua mãe para descobrir outras pessoas. Agora ele já não é mais um com a mãe, apresenta sinais de separação. Já a partir dos três meses o bebê começa a ensaiar esta separação, mas é aos seis meses que esta procura vai se solidificando.


Neste desprendimento do bebê, algumas mães começam apresentar sintomas de apego simbiótico (da relação de dependência mútua, como a plantinha que se fixa no tronco de uma árvore e necessita dela). Não é a toa que quando vamos brincar com bebês no colo de suas mães, corremos o risco de sermos mal interpretados, como se a mãe estivesse imaginando que fosse perder seu filho. Pior ainda é quando o bebê estende os braços para nós, num gesto de querer intensificar a brincadeira. Já me dei muito mal com isto, a ponto de ser estupidamente agredido por algumas mães. Mas sabedor deste movimento de apego e separação mãe/bebê, desculpava-me expressando a frase: “É que eu tenho cheiro de bebê”, por isso ele quer brincar comigo.


Freud conseguiu observar em uma criança, filho de um paciente seu, ao brincar com um carretel, no momento em que soltava a linha o carretel corria para debaixo do sofá, e depois ao puxar a linha o carretel aparecia novamente, despertando na criança uma agradável sensação. Estava ali uma representação do movimento de separação da figura materna: Mãe – carretel/ linha - cordão umbilical. Quando o carretel desaparecia por debaixo do sofá, a sensação de perda e ao reaparecer, a sensação do reencontro com a mãe. Nesta observação transcrita no texto “O pequeno Hans”, Freud deixa um fio para tecer o processo de análise infantil. Que posteriormente a psicanalista inglesa Melanie Klein vai partir desta cena para construir um dos principais processos de análise infantil. É neste movimento de esconde-esconde, tão praticado pelas crianças desde o estágio de bebê até a primeira infância, por volta dos sete anos, que temos a representação de que o processo de separação e crescimento é contínuo e vivenciado intensamente entre mãe e filho. Neste brincar a criança vai elaborando seus processos de separação. O ato de brincar para a criança é assim um meio dela ir entendendo seu mundo e o mundo ao seu redor.



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