O sábio e o sabido

Publicado em 11/05/2016

      O sabedor – sabido - sabe pela capacidade de mensurar, conhecer, testar. Para estes sabidos damos o nome de cientistas, que tudo sabem desde que seja medido, provado. Para o sabido que tudo sabe, nenhum valor tem o conhecimento do sábio, vão dizer que o que o sábio sabe não é possível de se quantificar. O sábio, por sua vez, se coloca cada vez mais sábio quando deixa de querer saber. Para ele, conhecer é degustar, sentir. Sábio vem do latim sapio que significa “eu degusto”. Para  ser sábio, é necessário ter em si o sentido aguçado.

      Já o sabido, ou o cientificamente correto, a quantidade de conhecimento é o que importa. Sua existência está no quanto sabe. É pelo poder de mais saber que caracterizará o potencial de um sabido. Já o sábio, quanto menos carregado de saberes, melhor. Ele é sábio pelo encontro do conhecimento com o outro. O sabido, por sua vez, pouco escutará o outro, só se a escuta lhe trouxer mais conhecimento e consequentemente mais saber.

      Os congressos científicos estão lotados. Pessoas procurando conhecimento. Só trilham congressos que forem compostos por conferencistas Phds, com muito conhecimento. Descartam congressos de conferencistas que não tenham publicado nenhum tratado científico. Os sábios estão fugindo dos congressos, mas já começam a ser bem pagos para proferirem conferências sem conteúdos eminentemente científicos, mas sabedoria pura. E por incrível que pareça são as conferências que mais lotam, mesmo o motivo da busca do sabido ser por congressos de famosos cientistas.

       A ciência produz muita teoria que são engavetadas. Veja quantas teses de mestrado ou doutorado nas Universidades, que nunca foram utilizadas. Coisa chata em congresso científico são as sessões de apresentação de trabalho, ninguém ouve ninguém, muitos só querem certificado para provarem nos seus departamentos de pesquisa que estão produzindo algo. São vistos academicamente pelo quantitativo de trabalhos publicados. Já peguei painéis que o sujeito só muda o título do trabalho, mas o conteúdo é o mesmo. Depois disto, comecei a duvidar dos congressos científicos.

      Mas um sábio pode ser um sabido? Acredito que esta é uma junção é como uma missão quase impossível, mas que não deixa de ser possível. Vejamos, pode ser que um sábio seja um cientista, aquele que busca o conhecimento sem se ostentar dele, mas transforma o conhecimento em realidade, faz a práxis. Já conheci alguns destes sábios cientistas, como é o caso de meu supervisor clínico Maurício Knobel, Professor emérito da UNICAMP, que ao ouvi-lo falar da ciência conseguimos entender e colocar na prática. Como é o caso também do filósofo Rubem Alves, também professor emérito da UNICAMP, que consegue trazer muito conhecimento com cenas do cotidiano, sem, no entanto temer falar de Deus. Lembro-me de Raquel Soifer, psicanalista argentina, que em um congresso científico de psiquiatria na cidade de São Paulo, pouco antes de sua morte, pediu para a plateia de mais de 2000 cientistas do comportamento emocional  não anotarem nada, pois tudo que iria falar não poderia provar. Neste congresso, nos motivou através de suas experiências  com seus pacientes, através dos estudos de casos. Ela chegou na velhice dizendo: “...na velhice, e depois da fama, a vida profissional fica melhor, pois paramos de querer estudar tudo e medir tudo, passamos a desconfiar da ciência e passamos a confiar no resultado de nossas relações.”

      Lembrando destes sábios cientistas, constantemente observo meu caminhar profissional para detectar se estou sabido ou se sigo sábio.
 
      Neste sentido, a sabedoria das parábolas de Jesus, tem me ajudado e muito. Mas vão dizer: “também, você quer comparar com as parábolas de Jesus?” Outros vão questionar: “ sabedoria religiosa não conta”. Que eu saiba, sabedoria é sabedoria, e geralmente quem a pratica, aprendeu com algum mestre sábio também. Geralmente a sabedoria dos nossos pais. E olha que na minha geração, muitos dos nossos pais eram analfabetos. É que sabedoria não tem relação direta com formação acadêmica, mas sim com vivência prática e degustada, sentida. De fato, vamos encontrar muitos sábios na vida mística, de pessoas que se entregaram a uma prática religiosa e conseguiram evoluir em ideias e pensamentos para o bem viver. Mas também vamos encontrar sábios que não possuem nenhum vínculo religioso ou prática mística, que desenvolveram suas ideias com muita sabedoria e com ciência, como é o caso do Freud, pai da psicanálise. Ele conseguiu deixar sua marca para a sociedade contemporânea, em que mesmo as teorias psicológicas que dizem não seguir Freud não conseguem negar o conceito do inconsciente tão bem sistematizado por ele .

      O certo é: um cientista pode ser sábio, e um sábio pode ser cientista. Para a sociedade atual, transitar com as duas possibilidades na forma de trabalhar, viver e conviver, pode representar uma grande evolução e contribuição para a humanidade, tão carente de sabedoria e com conhecimento transbordando nos centros de pesquisas. Precisamos de uma ciência com a sabedoria, para transformarmos todo nosso conhecimento em qualidade de vida igualitária e justa à todos os viventes deste planeta.


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