Com muita fé, mas suicida

Publicado em 16/05/2016

      O suicídio é um problema que deixa muitas famílias apavoradas. Antigamente tinha-se a ideia de que as pessoas que se suicidavam iriam direto para o inferno, como se fosse um pecado mortal. Hoje, com o avanço dos estudos da Psicologia e Psiquiatria, esta visão de associar suicídio com pecado está ultrapassada. Pois sabemos que para uma pessoa cometer suicídio  é preciso estar com grande perda de sua condição para raciocinar e agir no cotidiano. Geralmente os que  chegaram ao suicídio não estavam com clareza da ação realizada. Mesmo assim esta questão é um mistério, pois não podemos saber o que de fato aconteceu na cabeça de uma pessoa que se suicidou, pois ele não voltará para contar. Podemos deduzir a partir dos pacientes com tendência suicida e que se encontram em tratamento, principalmente quando entram em crise. De fato, perdem o contato com a realidade e entram nesta viagem fantasiosa da morte.

      Hoje mesmo, deparei-me com um jovem que vive, mas apresenta vários tipos de condutas com seu próprio corpo que caracteriza um ato suicida. Este jovem escreveu com uma gilete em sua perna a frase: “eu sou um idiota” e encheu seu corpo de piercing  e brincos de alargamento nas orelhas. Não fez estas intervenções por ideologia ou porque faz parte de um grupo que possui este tipo de tendência, fez para maltratar a si mesmo.

      Há casos de pessoas suicidas (com tendência suicida) que apresentam sintomas de transtorno comportamental. Lembro-me de uma paciente que era uma “jovem santa”, isto é, vivia profundamente o desejo de santidade. Atuava na Igreja e em sua comunidade de vida cristã de forma intensa. Mas ela tinha um forte impulso para o suicídio, e foi na crise  suicida que ela chegou até meu consultório. Na primeira entrevista de seu tratamento, perguntei o motivo que a levava a procurar minha ajuda e ela dizia que é por que seus familiares e membros de comunidade a trouxeram, pois por ela mesma já estaria morta. Mas no decorrer da conversa ela revelou que sofria muito com aqueles impulsos e que no fundo amava a vida e desejava viver. Perguntei a ela se eu seria um profissional que pudesse ajudá-la e ela confirmou que sim. Tive a agilidade de dizer-lhe que não havia me especializado em atender mortos, mas sim vivos, e que se quisesse receber a minha ajuda precisaria estar viva. Ela riu muito e estabelecemos um acordo, de quando ela tivesse impulso de morte, ligasse para mim; também que ela deveria manter a psicoterapia e o uso de medicação psiquiátrica.  
   
      Muitos episódios de intervenção desta jovem em crises suicida aconteceram durante o tratamento, mas ela acabava cumprindo o acordo e eu  solicitava a família que fosse ao encontro dela nos locais onde planejava realizar o suicídio. Fizemos um longo tratamento e aprendi muito com os conhecimentos religiosos desta jovem, o que levou-me a questionar se realmente eu tinha fé, diante de tamanha fé dela.

       Hoje sei que esta jovem tornou-se mulher, esposa e tem filhos, vive a sua profissão e com certeza, de vez em quando deve ter suas crises suicidas. Mas no processo psicoterapêutico ela aprendeu a dominar seus impulsos e entender os motivos que a levavam ao desejo de morte. Por isto, não podemos associar este tipo de transtorno comportamental com ausência de fé. Ao contrário, além do tratamento que esta jovem realizou,  somado a sua fé e prática religiosa, sua profissão e suporte familiar, conduziram-na para a vida.

      Assim, o suicídio pode também habitar mentes com muita fé. A ideia de quem está com um sofrimento emocional é resultado da ausência de Deus é um grande equívoco. Os transtornos emocionais não estão necessariamente relacionados com a fé. Sabemos que muitos transtornos deslocam para os símbolos religiosos apegos emocionais, principalmente quando a pessoa vem de uma estrutura educacional com muita repressão religiosa. Mas dizer que estar em sofrimento emocional é estar sem Deus, é um exagero fundamentalista que não contribui para a melhora do paciente.


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