Psicanálise Contextualizada 28/09/2026 17:41:57
Hoje, o atendimento de crianças dentro da Psicologia Clínica se mostra um grande desafio, mesmo com o aumento na demanda a partir do crescimento vertiginoso de laudos no Espectro Autista e outros transtornos comportamentais como, por exemplo, TDAH. Com os diagnósticos já traçados, o profissional de Psicologia se vê quase intimado a seguir uma conduta terapêutica que vem induzida por muitos neurologistas e psiquiatras, salvo poucas exceções. Quando recebemos uma prescrição do profissional médico que cita, por exemplo, a TCC (Terapia Cognitiva Comportamental), e ainda orienta a família que é a única forma de se desenvolver terapeuticamente a criança com algum transtorno, quadro de síndrome ou espectro autista. Aí fica a pergunta: E a psicoterapia de base psicanalítica, não responde às necessidades das crianças com estes diagnósticos?
No dia 19 de setembro de 2026, fui assistir à conferência de uma das pesquisadoras mais importantes no campo do atendimento a crianças do espectro autista e, para mim, maior referência da Psicologia Educacional no Brasil, Prof Dra Maria Cristina Kupfer ( Departamento de Psicologia da USP-SP), numa palestra esta proferida dentro de um seminário da Escola Lacaniana de Vitória (ES). Por incrível que pareça, uma pequena plateia para um grande nome. Pensando melhor no motivo para o esvaziamento desta palestra, concluí que era quase que um boicote dos grupos e instituições que trabalham com crianças autistas no estado do Espírito Santo, os quais, quase em sua totalidade, se utilizam das teorias comportamentais. Conversamente, a maioria dos que estavam lá lidam com a Psicanálise.
Entre a TCC e a Psicanálise: diferentes perspectivas sobre a criança
Até aqui, parece que ainda não cheguei no âmago da questão, sobre a teoria e técnica no processo de psicoterapia com crianças. Neste dilema de qual método buscar, posso dizer que, se bem aplicado dentro de uma boa interação teórica e técnica, as diferentes abordagens de psicoterapia com crianças podem, sim, colaborar. Sempre indico às famílias procurarem por um profissional de psicologia devidamente registrado no Conselho Regional de Psicologia e que tenha experiência no atendimento com crianças.
Porém, pensando na teoria especificamente, observo que, pela TCC, a criança será tratada para se adaptar à Sociedade. Já na Psicanálise, a Sociedade é que precisa aprender a lidar com a criança. Aparentemente, pode parecer estranho o campo da Psicanálise quando contrastado com o da TCC, visto que esta se mostra mais atraente. Muitos vão dizer “...Nossa, lógico que as crianças precisam se adaptar à Sociedade...”, ou “...por isso que a Psicanálise não resolve...”.
Mas vamos lá: Quando digo que a Psicanálise leva a Sociedade a entender a criança, é um elemento primordial para entendermos como a criança se estrutura desde o nascimento e suas diferentes etapas até chegar ao final definitivo da infância, aos 12 anos. É justamente para, a partir dela e da lembrança de que não há um padrão definitivo e único do ser criança, que a Sociedade possa educar, cuidar e conduzir para caminhos saudáveis de interação com a criança. Diferentemente, as teorias e técnicas comportamentais conduzem a criança a se moldar para se enquadrar nas normativas da Sociedade.
Subjetividade, inconsciente e técnica na clínica infantil
No campo teórico comportamental, a técnica de intervenção terapêutica neutraliza o sujeito na sua subjetividade e individualidade. O inconsciente não fala. Já na teoria e técnica psicanalítica, haverá um adentrar no mundo da criança em que a leitura do inconsciente falará para a criança que escuta a si mesma e para o analista. Na comportamental, a técnica é doutrinária, baseada em estímulo e resposta, com o processo movido por repetições e mais repetições. Já a técnica psicanalítica se dá pelo processo da transferência analítica da criança com o analista dentro da escuta do inconsciente. E aqui adentro no específico da teoria e técnica da Psicanálise com crianças, mesmo sabendo que não conseguirei avançar em detalhes. Porém, deixarei apenas a perspectiva de que, pela Psicanálise, cabem todas as crianças nas suas mais diferentes síndromes, espectros e ou transtornos.
O adulto fala e, pela sua fala, vai entendendo e elaborando sua estrutura inconsciente por processos de transferência com o analista, o qual atua como se fosse um “paredão de tênis” em que a bola bate e volta para si mesmo. A palavra que ressoa no ouvido do analista retorna na forma de apontamentos e interpretações (estas que são do analisando). Já no caso da criança, o processo é o mesmo, pois o princípio teórico segue os mesmos objetivos. E, quando este inconsciente emerge e é identificado e elaborado pelo analisando, teremos a evolução para um sujeito analisado. Aqui, a teoria psicanalítica traz a grande revolução no atendimento de crianças e adultos, de vê-los na mesma perspectiva de igualdade. O que muda é a fala e a escuta. No adulto, escuta-se a fala falada, enquanto na criança, escuta-se a fala brincada.
O brincar como linguagem da criança
Com crianças, é pelo brincar que se escuta. Nós, psicólogos que atuamos com a teoria e técnica psicanalítica, precisamos interagir com a criança no espaço clínico para fazer emergir sua estrutura psíquica. É como se escutássemos de forma indireta, na qual a criança brinca e precisamos decodificar numa tradução de linguagem. Por isso que o espaço de psicoterapia para crianças neste enfoque teórico e técnico da Psicanálise precisa ser constituído de muitos brinquedos, materiais de papelaria, jogos e elementos que permitam interatividade. E, após 38 anos atendendo crianças desde o primeiro ano de vida, posso traçar aqui elementos poderosos que a psicoterapia potencializa nelas, como a criatividade (fator leva um bom tempo para destravar em criança já hipnotizadas por telas e com baixa capacidade de criar), a autopercepção enquanto criança (dissolvendo o adulto em miniatura na qual foi moldada pelos adultos que a rodeiam) e a saída da introspecção que permite que a criança se perceba altiva e dona de seus pensamentos, apenas para citar alguns.
Outro elemento que trago aqui é a interação dos pais no processo da análise da criança, os quais passarão por um contínuo processo de escuta e orientação durante a psicoterapia da criança, colaborando para que os mesmos comecem a respeitar a criança como ela é e ajudem a estabelecer este limite para terceiros. Assim, a família inteira vai se integrando ao processo e derrubando as barreiras que o mundo adulto tenta estabelecer para cercear as crianças com o objetivo de moldá-las às suas expectativas. E a Psicanálise focada em criança se mostra revolucionária ao quebrar os paradigmas de controle social que tenta enquadrar as crianças como pequenos adultos, não as vendo como seres domesticáveis, mas como seres pensantes.
Autismo, diagnóstico e os desafios da clínica psicanalítica
Atendia muitas crianças autistas na clínica, mas com o enquadre do DSM V na perspectiva do Espectro Autista e a indução aos métodos comportamentais como solução, houve uma acentuada diminuição na busca por psicoterapia. Agora, estas crianças que foram sujeitas ao enquadramento comportamental e não trabalhadas na sua identidade e subjetividade, alcançaram um nível de estresse enorme e as famílias começam a retornar à Psicanálise para reorganizar o processo terapêutico e libertar as crianças de amarras comportamentais.
É sempre bom lembrar que todas as crianças podem buscar a psicoterapia, mesmo que não haja laudos indicativos. Há familiares que buscam colocar seus filhos em análise como processo de fortalecimento da estrutura psíquica e prevenção. Quando o enfoque de busca de apoio psicológico fica apenas em torno de crianças tidas “problemáticas”, esquecemos da maioria que não apresenta necessariamente um transtorno a ser tratado. Para mais informações sobre o tema, você pode acessar o instagram @Psicanálisecontextualizada, no qual temos um grupo de estudos específico para a Psicanálise da Criança.
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Psicanálise Contextualizada 28/09/2026 17:41:57 126
Hoje,o atendimento de crianças dentro da Psicologia Clínica se mostra um grandedesafio, mesmo com o aumento na demanda a partir do crescimento vertiginoso de laudos no EspectroAutista e outros transtornos comportamentais como, por exemplo, TDAH. Com os diagnósticosjá traçados, o profissional de Psicologia se vê quaseintimado a seguiruma conduta terapêutica que vem induzida por muitosneurologistas ...
Psicanálise Contextualizada 24/09/2026 08:35:43
Nomeio aqui “autoimagem” o excesso de preocupação consigo mesmo que paira na nossa atual realidade. Com a emergência das redes sociais, surge a possibilidade de se ver não apenas pelo espelho, pois a própria imagem pode ser acionada na palma da mão, facilitando, inclusive, para acertar os cabelos, verificar sujeira nos dentes, retocar a maquiagem, etc. Nos tornamos fotógrafos de tudo de maneiras que às vezes nem percebemos e, falando particularmente, sou fã de fazer uma imagem de onde estou e do que estou vivenciando.
No entanto, este culto narcísico, tanto de autopromoção quanto de autodestruição, nos faz construir uma forte tendência de ficarmos absorvidos com nossas próprias necessidades. A partir desta noção, trago esta reflexão para o campo da adoção de crianças: Adotar com que objetivo? Correr riscos?
Vemos as instituições de acolhida de crianças órfãs ou desintegradas das famílias a reboque do crescimento de abrigos de passagem para crianças que, muitas vezes, a justiça precisa retirar do ambiente familiar porque há riscos de vida a estas, principalmente com o avanço do uso de drogas pelos pais, principalmente das mães. Sabemos que demandas sociais não justificam perda de pátrio poder pelos pais ou familiares, mas, se associado ao risco de vida eminente, geralmente a Justiça determina a separação do ambiente de risco.
Há mais casais ou pessoas querendo adotar do que crianças na espera para serem adotadas. Dados apontam que mais de 42 mil pessoas desejam adotar para uma fila de espera de quase 5 mil menores a serem adotados. Porém, o grande dilema é que mais daqueles 86% que desejam adotar, querem crianças menores de 6 anos, sendo que mais de 90% das crianças na fila para serem adotadas estão acima desta faixa etária. Somado ao fator do racismo estrutural (que prefiro chamar de racismo escancarado), 92% dos que desejam adotar preferem crianças brancas, até convivendo com a possibilidade de escolherem crianças pardas por serem as opções mais disponíveis. Para piorar, ainda há a predileção por prospectos sem complicações graves de saúde.
Diante deste cenário e da necessidade dos que desejam adotar em saciar necessidades pessoais (sejam elas massagem do ego e/ou preenchimento de vazios existenciais), a adoção passa a ser um dilema. Isso se deve ao fato de que, quando ela acontece sem transparência de busca, a adoção se torna um desastre para a criança adotada pois, além de perder o vínculos com sua origem (incluindo o ventre que a gerou) e ser vista socialmente como um problema, tal criança se encontrará com um ambiente de “autoimagem” na qual terá que suprir as necessidades do adotante. A adoção requer um olhar pleno para a criança que chega de modo a ser suprida emocionalmente nas suas perdas estruturantes.
Sendo assim, surge a pergunta: Quais seriam os princípios básicos para uma adoção bem-sucedida?
Falar em criar filhos dentro de uma lógica que possa ser qualificada como bem-sucedida já é, no mínimo, um desejo de autoimagem, pois nada é garantido neste processo. É uma visão utilitarista, como se estivéssemos diante de um investimento que visa um retorno específico. Idealmente, bem-sucedida seria uma dinâmica parental que acarreta no mínimo de intercorrências emocionais para aqueles que são adotados, pois imagine uma criança que, já tendo perdido seu primeiro vínculo com sua mãe biológica, ainda tem que se encontrar com uma pessoa que a adota e não a acolhe afetiva e efetivamente. Porém, vou me arriscar citar aqui alguns critérios:
Enfim, este tema é um desafio a cada dia maior, pois o abandono em uma Sociedade com tamanho disparate social entre enriquecidos e empobrecidos somado ao advento do culto a si mesmo leva a adoção a entrar também num radar de esquecimento, de processos bizarros e com evolução de complicadores ao longo da educação de um filho adotado. Por outro lado, tenho clareza que as adoções desenvolvidas por pessoas maduras que identificam o desejo de adotar por escolha livre é um caminho formidável, tanto socialmente quanto no estabelecimento de vínculo.
Nas comunidades periféricas, a adoção não é um problema, pois há um coletivo de suporte familiar entre as famílias em que a criança é parte de um coletivo, salvo algumas exceções. A adoção passa a ser problema na classe média com melhor estrutura financeira, visto que muitas vezes está mergulhada num processo mercantilista de educação, salvo também algumas exceções.
Quando uma pessoa me pergunta se adotar não é um risco, já estou identificando nesta pergunta um perfil equivocado para ser a pessoa que adota.
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Psicanálise Contextualizada 24/09/2026 08:35:43 114
Nomeioaqui “autoimagem” o excesso de preocupação consigo mesmo que paira na nossaatual realidade. Com a emergência das redes sociais, surge a possibilidade de se ver não apenaspelo espelho, pois a própria imagem pode ser acionada na palma da mão,facilitando, inclusive, para acertar os cabelos, verificar sujeira nos dentes, retocar a maquiagem, etc. Nos tornamosfotógrafos de tudo de maneiras que às...
Psicanálise Contextualizada 27/08/2026 13:16:37
A construção da dependência digital em tempos de tecnologia da informação e ascensão das IAs (Inteligências Artificiais), marca a era da Guerra Cultural. João Cezar de Castro Rocha, em seu livro “A Era de Ricardo III – Guerra Cultural Como Método” (Editora Autêntica, 2026), elabora sobre a utilização dos algoritmos como uma forma de alienar e induzir pessoas ( e até nações inteiras) a pensar de forma unânime e dentro de um discurso do ódio, das intransigências e do espetáculo: “...A guerra cultural como método e a desfaçatez como espelho...” (Rocha, 2026).
Da lei do mínimo esforço à acomodação intelectual
A evolução da espécie humana (Homus Sapiens) vem com algumas características que podemos perceber ao adentrarmos na História da Humanidade. Desde a tendência destrutiva, que o processo de colonização europeia evidencia com a dizimação de povos e nações pela América Latina e Continente Africano até a busca para eliminar esforços físicos e mentais, a física diretamente pela industrialização e a intelectual pela TI. E, a partir da TI e dos algorítmos impulsionadores de ideias, a base estruturante de nossa espécie em produzir fofocas, que hoje denominamos fake news (notícias falsas), que estão inundando nossas mãos pelos aplicativos de redes sociais. A era digital nos coloca na lei do mínimo esforço que antes nos favoreceu para a diminuição do esforço físico, mas agora também no mínimo esforço mental.
Pelas IAs, não precisamos mais pensar, basta perguntar que já teremos a resposta. Assim, para que pensar? Vamos nos configurando com um perfil de acomodação e baixa autonomia para a busca pelo conhecimento. Daí, nos tornamos servos dos algoritmos e, consequentemente, evoluímos para a perda do potencial cognitivo e do potencial de memória. Entra aqui o elemento estruturante para o controle de ideias, o “fazer a cabeça” da coletividade, como já nos ensinou o músico Zé Ramalho : “Eh, oh, oh, vida de gado ; Povo marcado, eh ; Povo feliz.”
O Mal-Estar contemporâneo e a dominação ideológica
A Guerra Cultural entra neste contexto, pois, se antes o domínio estava pela força bélica e pelo poder econômico das nações, hoje a construção de uma identidade ideológica se dá pela TI, que faz a imposição da cultura do mais forte sobre os mais fracos dentro do espectro das ideias. Em tempos de campanhas políticas planeta afora, são as retóricas ideológicas que dominam os debates em vez das propostas e da defesa democrática. Ditaduras são impetradas sem a necessidade de canhões e soldados pelas ruas, mas sim pelas fake news com viés odioso, neutralizando e/ou apagando a cultura dos mais fracos. Vejam como se dá as eleições atuais no Brasil, com debates medíocres, ataque com conotações morais, racistas e homofóbicas. Freud já analisava como a estrutura das religiões e o controle do Estado pelas forças armadas moldavam culturas quando escreveu seus textos “Mal-Estar na Cultura” (1930) e “Psicologia das Massas e Análise do Eu” (1921). Trazendo Freud para a atualidade, podemos observar que a produção do mal-estar está sob o poder e o domínio da TI.
Diante disso, como então construir uma forma de viver sem se deixar levar por esta avalanche da Guerra Cultural? Uma pergunta que já não faz sentido para a grande maioria, que já está contaminada, uma vez que a TI passa a ser o colo afetivo de um ambiente de proteção tanto para bebês, crianças, adolescentes e adultos. Winnicott, em seu livro “O Brincar e a Realidade” (Editora UBU ,2019), nos aponta que “...onde há confiança e constância, existe um espaço potencial que se transforma em uma infinita área de separação, que o bebê, a criança, o adolescente ou o adulto podem preencher criativamente (...) transformando ao longo do tempo na fruição do patrimônio cultural.” (Winnicott, 2019, pág. 174). Winnicott faz esta análise atribuindo o ambiente de vínculo afetivo na constituição da estrutura psíquica na primeira infância, dentro do processo de separação da relação mãe/filho e o processo de brincar como elemento de criatividade para elaboração desta separação, que não é possível ao ser humano ser realizada plenamente, mas que evolui ao criar e vai configurar o patrimônio cultural que se dá em laços no coletivo.
Mas, diante do que aqui exponho, a TI que é desprovida de laços afetivos (pois é constituída de maneira robotizada), vai gerar uma desconexão de vínculos que, ao longo do desenvolvimento, se estabelece no coletivo cultural, desencadeando a Guerra Cultural. E a destruição do outro passa pelo potencial de isolá-lo do coletivo que o sustenta, permitindo sua dominação. Assim, até para buscarmos caminhos de como nos protegermos desse processo de alienação e destruição cultural, teremos dificuldades, pois a cultura que está imposta é a anti-cultura e a destruição do sujeito como força no coletivo. O que vale é a autoimagem (face).
Resistência cotidiana: A busca pelo pertencimento e autonomia
Estou tentando driblar este cenário, interagindo com grupos de estudos e desconectando da internet nos momentos fora do trabalho, como almoçar e jantar sem o celular por perto. Também escrevo sem o auxílio da IA, estruturando ideias que vou desenvolvendo entre meus atendimentos clínicos, grupos de estudos e tempos de leituras de livros de diversas áreas, tanto literários como da psicanálise e outras ciências. Escolho filmes e programas que possam somar na minha construção cultural, participo de eventos culturais, visito museus e galerias de arte, pratico esporte e lazer coletivo, descubro territórios e suas populações na sua cultura de raiz, aprendo a fazer produção artesanal, artes manuais, etc. Enfim, toda uma gama de fazeres que possam me defender desta Guerra Cultural, sabendo que, de forma isolada, não vou chegar a lugar algum. Por isso, sempre procuro trazer e me aproximar de pessoas que também vivem a partir desta perspectiva.
E você, como está conseguindo driblar esta emergente Guerra Cultural que surfa na evolução da TI?
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Psicanálise Contextualizada 27/08/2026 13:16:37 188
Aconstrução da dependência digital em tempos de tecnologia da informação eascensão das IAs (Inteligências Artificiais), marca a era da Guerra Cultural.João Cezar de Castro Rocha, em seu livro “A Era de Ricardo III – GuerraCultural Como Método” (Editora Autêntica, 2026), elabora sobre a utilização dosalgoritmos como uma forma de alienar e induzir pessoas ( e até nações inteiras)a pensar de forma un...
Psicanálise Contextualizada 13/08/2026 14:01:31
Pesquisas recentes têm revelado uma forte queda no processo de aprendizado dos jovens por conta do uso de IA ao redor do mundo, seja no ensino fundamental, médio ou superior, levando a um questionamento: Por quê estou iniciando um texto sobre exploração de adolescentes remetendo a pesquisas de perdas no processo de aprendizado? Isso se dá pelo fato de que é evidente que os adultos que estão por trás da tecnologia de informação exploram os adolescentes a partir do fascínio que é traço comportamental dos mesmos com inovações, pensando aqui no ciclo completo da adolescência entre a pré adolescência e a adolescência adulta (entre 11 a 22 anos). Além do fascínio pelas inovações tecnológicas, a necessidade de exercer a lei do mínimo esforço também é um fator determinante, visto que estudar gasta tempo e energia, requerendo muito esforço e dificultando a liberdade para o lazer. E esta característica é explorada para deixar os adolescentes dependentes da IA. Aqui, você pode pensar que isto é um grande exagero da minha parte. No entanto, aponto esta reflexão pelo viés improvável das percepções de exploração dos adolescentes, que por vezes nos leva a não ver as tecnologias como ameaça.
Quando a tecnologia deixa de ser ferramenta e passa a ser dependência
Sabemos que é pelas tecnologias que os adolescentes são conduzidos a vários tipos de práticas que conduzem à dependência, a maior delas sendo o uso das telas. Se há adultos que acreditam na plena capacidade dos adolescentes em fazerem escolhas livre e conscientes, sem regras e limites compartilhados e monitorados, principalmente com a emergência das tecnologias de inteligência artificial, é porque parece que já estão mal-intencionados em relação aos adolescentes diante dos enormes prejuízos para o processo de potencialidade ao aprendizado. Uma lógica de bestializar para explorar. Não é à toa que o Governo Federal está com muita dificuldade de fazer acontecer o ECA Digital (Estatuto da Criança e Adolescente).
Mas, além das alterações de humor na adolescência inerentes à própria fase de desenvolvimento, também vem os sentimentos de carência afetiva, o que consequentemente traz o apelo à estética corporal com forte apelo libidinoso e à sedução dos adolescentes a partir de suas demandas afetivas para práticas abusivas sexuais. E a exploração sexual adentrando esta flutuação comportamental de alterações de humor por desafetos (principalmente no campo das relações familiares) quando associada à dependência e vulnerabilidade possibilitadas pelas tecnologias, leva a uma reedição moderna da história do Chapeuzinho Vermelho que é atacada pelo Lobo Mau.
Rebeldia, independência e sedução pela transgressão
Também há a exploração pelo traço de intransigência, rebeldia e luta por independência dos adolescentes, traços muito fortes que os adultos frequentemente enxergam como transtornos comportamentais, mas que são normais para a faixa etária. Daí a exploração tanto para a vertente das ideologias políticas quanto da transgressão criminosa. Muitos adolescentes são seduzidos às manifestações e reivindicações políticas sem, no entanto, terem clareza do que estão defendendo. No campo das transgressões, também tem os exploradores do narcotráfico que aliciam muitos adolescentes pela pura emoção que podem vivenciar e pela perspectiva de ganho material rápido. Ambos os perfis estão intrinsecamente ligados.
Ainda podemos citar a exploração por meio das drogas lícitas e ilícitas, que traz uma sedução de oferta que atinge em cheio outro traço da adolescência, que é a demanda por momentos de leveza e estímulos psicoativos. E quem vive em uma realidade brasileira onde o cerceamento de drogas a adolescente é de fato cumprido? Quem está por trás destes ambientes de eventos que atraem os adolescentes, são adultos exploradores. A iniciação às drogas na adolescência aumenta drasticamente o risco de uma dependência patológica na vida adulta, onde o que poderia ser um lazer, um uso recreativo, vira dependência.
Quando a fé é transformada em instrumento de controle
Por fim, quero trazer a exploração religiosa de muitos líderes religiosos que se usufruem do apelativo moral e do pecado para aliciarem adolescentes a uma prática que beira o fanatismo. Esta isca está associada ao sentimento de culpa comum entre adolescentes por seus atos de rebeldia ou transgressão. Como a religião faz laço de vínculo no campo emocional/afetivo, vemos o pecado ser explorado como mecanismo de controle e adolescentes sendo explorados de diversas maneiras, tanto na doutrinação para serem pregadores ou até mesmo vítimas de predação.
São múltiplas as possibilidades de exploração dos adolescentes, decorrente exatamente das diferentes transformações, instabilidades e incertezas pela qual passam por mais de dez anos de transição até a vida adulta. Desta forma, cabe aos pais estarem juntos e acompanhar, estabelecer diálogo de construção de referências de valores conforme acreditam e esperam a seus filhos. Assim, o impacto dos exploradores pode ser menor. Agora, se os pais também praticarem a exploração de adolescentes, especialmente ao ditarem regras rígidas que eles mesmos como pais não conseguem cumprir, ou que vivem em contradição de exemplos a ser seguido, aí não se pode esperar muita coisa.
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Psicanálise Contextualizada 13/08/2026 14:01:31 236
Pesquisasrecentes têm revelado uma forte queda no processo de aprendizado dos jovens porconta do uso de IA ao redor do mundo, seja no ensino fundamental, médio ou superior, levando a umquestionamento: Por quê estou iniciando um texto sobre exploração deadolescentes remetendo a pesquisas de perdas no processo de aprendizado? Issose dá pelo fato de que é evidente que os adultos que estão por trásda ...
Psicanálise Contextualizada 28/07/2026 10:50:57
Atualmente, tenho recebido clientes que trazem consigo diagnósticos de “Transtorno Narcisista”, geralmente realizados a partir de consultas psiquiátricas e/ou comentários de pessoas com as quais convivem. Sabemos que, para cada época, novos transtornos mentais vão surgindo e para cada tempo há uma moda diagnóstica. Sobre o tal “transtorno narcisista”, pode-se dizer que ainda não virou moda, mas já há um ensaio para. Particularmente, defendo o máximo possível a não-rotulação comportamental, pois, quando se diz que alguém tem alguma condição ou é algo, fica uma marca na estrutura do sujeito que acaba sendo limitada à manutenção, como se a pessoa não pudesse repensar sua estrutura e fazer escolhas de mudanças.
Hoje, temos um culto de veneração excessiva da autoimagem, estimulado principalmente pelas redes sociais. Vemos pessoas cada vez mais fixadas em se promover para angariar seguidores e/ou para se desapegarem, como se encontrassem satisfação no isolamento, fazendo parecer que existe um aumento de pessoas com o tal “transtorno narcisista”. Porém, temos que entender a estrutura narcísica como algo positivo para a manutenção da identidade, da estrutura do ego pessoal. Freud foi o responsável por associar o mito de Narciso a um conceito que dialoga com a estrutura psíquica, resgatando a lenda do sujeito que se apaixona pela própria imagem a ponto de causar a própria destruição para evocar a noção de que somos resultado de uma construção psíquica que prescinde da necessidade de culto à própria imagem.
O narcisismo além dos diagnósticos
O narcisismo passa por duas etapas bem definidas a partir do pensar psicanalítico: narcisismo primário e narcisismo secundário. No narcisismo primário, temos os primeiros anos de vida da criança nos quais, de fato, tudo está voltado para ela, desde os estágios de anomia à heteronomia para se chegar, enfim, à autonomia e que compreende o período entre seis e sete anos. O narcisismo secundário, por sua vez, nos coloca na dimensão de nos conectarmos com o outro, tanto nas relações diretas quanto indiretas pelas regras, costumes e cultura nas quais se está inserido. Assim, atravessamos fases do narcisismo como parte dum processo evolutivo.
Como estamos em uma cultura totalmente desenhada para o consumo dentro de uma perspectiva capitalista em que a ideia do sucesso como medida de valor pessoal é muito estimulada, temos uma forte tendência de nos aprisionarmos no narcisismo primário, dificultando enormemente nossa evolução para o secundário e a capacidade das pessoas chegarem à plena autonomia. A partir dessa dinâmica, ficamos presos em nossas necessidades pessoais e desconectados do coletivo, nos tornamos isca para a cultura de consumo por precisarmos preencher nossas lacunas existenciais com produtos e com imagens de excelência individual que nos são oferecidos diariamente. E nos enganamos em achar que a estrutura narcísica está associada apenas a pessoas que se vangloriam, pois o narcisismo também faz parte da estrutura daqueles que se fecham em si. Tanto o auto-elogio quanto a baixa autoestima podem estar associados a uma estrutura narcísica primária que não evoluiu. O apego a si mesmo.
A cultura do consumo fortalece o narcisismo?
Diante destas constatações, como sair então de uma estrutura narcísica destrutiva? Se a evolução está na possibilidade de fazermos conexões com outras pessoas, o caminho é buscar estar em ações coletivas, em busca do fazer junto. Como resgata a filosofia da ancestralidade africana que nos diz “Quer ir longe, vá junto. Quer ir rápido, vá sozinho.” A estrutura de auto-preservação emocional e fortalecimento da identidade pessoal está diretamente associada à capacidade de nos entrelaçarmos em redes de apoios.
Assim, não se preocupe caso se perceba narcisista, pois precisa desta posição para existir. Apenas questione se seu narcisismo ainda está preso à estrutura primária de construção de sua identidade (logo, muito voltado para as sua necessidades pessoais apenas), ou se você já se conecta com o outro, com a Sociedade na qual vive e na cultura que te coloca na vivência de seu narcisismo secundário, muito favorável para sua manutenção como pessoa com identidade preservada.
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Psicanálise Contextualizada 28/07/2026 10:50:57 266
Atualmente,tenho recebido clientes que trazem consigo diagnósticos de “TranstornoNarcisista”, geralmente realizados a partir de consultas psiquiátricas e/oucomentários de pessoas com as quais convivem. Sabemos que, para cada época, novostranstornos mentais vão surgindo e para cada tempo há uma modadiagnóstica. Sobre o tal “transtorno narcisista”, pode-se dizer que ainda nãovirou moda, mas já há um...
Psicanálise Contextualizada 23/07/2026 10:56:29
Tenho desenvolvido a “Psicanálise Contextualizada” dentro dos grupos de estudos e pesquisa que você pode conhecer no perfil de Instagram @psicanalisecontextualiza . Neste processo, estamos repensando o processo de escuta na clínica psicológica através da teoria e técnica psicanalítica para a realidade brasileira e latino-americana.
O sujeito nunca está sozinho
Partindo do princípio que 56% da população brasileira é composta de pessoas da diáspora africana e que nosso território é indígena com a ancestralidade dos povos originários, é preciso revermos a forma de pensarmos e escutarmos a subjetividade na nossa realidade. A partir da observação de que a teoria psicanalítica e suas diversas técnicas que, ao longo dos anos, foram estruturadas por diferentes teóricos da psicanálise - desde os pós freudianos até os pós-lacanianos - temos visto que os padrões de estrutura psicanalítica seguem os parâmetros europeus quase em sua totalidade na forma de olhar para a construção da estrutura psíquica a partir das relações de laços familiares na perspectiva do indivíduo e sua individualidade.
As marcas da história na subjetividade
A psicanálise nasce dentro de um contexto familiar fechado, em uma sociedade conservadora dos valores da família, propriedade e poder num contexto em que a Europa saqueava o Continente Africano e os filósofos e psicanalistas desta época pouco estavam conectados com as mazelas que, de fato, a escravidão causava em todo um continente. Tampouco estavam preocupados com os destroços causados pela ocupação de Portugal e Espanha na América Latina e na destruição de seus povos indígenas. Uma psicologia/psicanálise voltada para as tramas psíquicas curativas dentro de uma perspectiva individual.
Pela colonização da América latina, a religião Católica foi o sustentáculo moral para respaldar tamanha atrocidade de invasão e destruição e a estrutura de pensamento e filosofia europeia que tem seu referencial de base estruturante os filósofos gregos, negando o pensamento da ancestralidade africana e indígena, foi mantida. Assim, passados 526 anos da invasão européia em solo latino-americano, temos os ecos presentes de uma cultura indígena arrasada e do processo de escravidão mercantilista que foi utilizado pelos europeus para contingenciar mão de obra escrava gratuita por um período de quase 400 anos. Só agora, entre 2025 e 2026, a ONU reconheceu a escravidão africana como o maior crime da Humanidade.
Diante deste cenário, nos restou a moral cristã com uma variação enorme de estruturas religiosas que já não é apenas católica, mas com forte influência do cristianismo do pentecostalismo estadunidense; como também de uma filosofia que nega o pensamento filosófico da diáspora africana e da ancestralidade indígena. Desta forma, as fórmulas de intervenção na saúde mental nestes territórios estão focadas para um referencial familiar nuclear centrada no espectro da relação direta de parentescos e num olhar individualizado da subjetividade.
Nossa perspectiva de escuta, passa pelo sujeito a construção coletiva de identidade, como nos aponta David Pavón-Cuéllar em seu livro “Além da Psicologia Indígena” (Editora Perspectiva, 2022), no qual pontua o “ente sociocultural”. Ou seja, não uma pessoa “abstrata e isolada”, mas compreendida tal qual somos, como “nós”, como “todos” e “os demais”, como uma comunidade na própria individualidade (...) É um indivíduo entendido como ser individualmente comunitário...” (Cuéllar, 2022 pag 43). O ponto no qual o comunitário se torna individual. Sendo assim, o sujeito latinoamericano não pode ser escutado apenas pela sua individualidade, tampouco conseguindo existir nos parâmetros da individualidade europeia. Este padrão de pensar e ser europeu é causa primária, a meu ver, das atuais desestruturas comportamentais e sofrimentos emocionais dos povos na América Latina, incluindo no Brasil.
Além disso, temos um alto contingente de cidadãos descendentes da diáspora africana, representando 56% da população brasileira, a qual, por si só, também tem em sua ancestralidade o indivíduo no pertencimento de um espectro comunitário. O que fez Antônio Bispo preconizar a libertação do povo oprimido no Brasil pelo resgate do modelo quilombola que pode nascer das comunidades periféricas das cidades brasileiras, nas quais 70% da população é originária da diáspora africana. Aqui, onde a subjetividade pode ser resgatada pelo coletivo, do ser no coletivo, que é comum tanto na ancestralidade indígena como africana.
Grada Kilomba, Psicóloga portuguesa e estudiosa da diáspora africana, traz em seu livro “Memórias da Plantação – Episódios de Racismo Cotidiano” (Editora Cobogó - 2019) pequenos detalhes de manifestações racistas que colaboram para percebermos nosso racismo estrutural. Na sua escrita, faz emergir experiências vividas pelos membros da diáspora africana na Alemanha - notadamente um episódio no qual uma jovem negra adotada por um casal alemão que achava estranho que, ao cruzar com outras pessoas negras, estas sorriam para ela, sem que a mesma as conhecessem. A jovem não entendia o por quê estas pessoas negras sorriam para ela, mesmo tendo sido criada com a rigidez da família alemã de só cumprimentar pessoas conhecidas. O fato é que, naqueles sorrisos que se cruzavam, havia uma identificação pela ancestralidade africana, pela pertença comunitária desta ancestralidade e por todas as dores do processo de escravidão no Continente Africano, que remetia os negros alemães um senso de identificação. Neste cenário apresentado, Grada Kilomba conclui: “...De fato africanas/os do continente e da diáspora foram forçadas/os a lidar não apenas com o trauma individual, mas também com o trauma coletivo e histórico do colonialismo, revivido e reatualizado pelo racismo cotidiano...” (Kilomba, 2019 – pag 211).
Escutar além do indivíduo
Não podemos nos prestar a uma teoria e técnica psicanalítica sem a revisitarmos e percebermos o quanto ela está a serviço da manutenção do status quo ocidental e do imaginário de poder da elite latino-americana. Não é uma questão de descarte, pois de alguma forma, a psicanálise foi questionando a forma de viver na cultura europeia desde seu princípio, apenas não conseguindo olhar para além de seus referenciais culturais ocidentais colonialistas. A questão aqui é a saída deste olhar, do pensar e do escutar do indivíduo que se conecta com os seus mais próximos no núcleo familiar e partir para a percepção das estruturas psíquicas enlaçadas no coletivo, na ancestralidade dos povos que compõem o nosso continente. Reencontrar com o inconsciente na história da diáspora africana e indígena, reelaborar o pensamento filosófico não como sabedorias isoladas, mas como elementos estruturais dos povos que aqui fazem História para não incorrermos nas repetições patológicas decorrentes do processo colonizador. Uma psicanálise que faça resgatar a força do coletivo na construção de uma sociedade antirracista e cujo valor emocional estará preservada no resgate histórico.
Uma escuta que favoreça a subjetividade latino-americana conectada com a diáspora africana poderá ser a possível cura das insanidades colonialistas de nossa história.
Tenho dito aos que supervisiono nos atendimentos clínico e grupos de estudos que nossa escuta tem que ser georreferenciada e historicizada, colaborando para que os indivíduos se identifiquem pertencentes a um coletivo historicamente e no presente, por ações antirracistas e que nos liberte das opressões e nos faça pertencentes e partícipes do bem comum que foi sendo construído em nosso continente ao longo da história, mas ficou restrito a poucos.
Também Cuéllar e Parker no livro “Psicanálise e Revolução”, editora Autêntica 2025, refletem sobre a possibilidade de a psicanálise, fazendo uma reviravolta sobre seu olhar e remodelando sua técnica de interferência analítica tanto para o social como para o espectro clínico, pode sim adentrar na subjetividade dos povos que originariamente são alicerces na América Latina como os legítimos proprietários deste amplo território e dos povos que aqui chegaram pela escravatura mercantilista impetrada pelos portugueses e espanhóis que constituíram a diáspora africana neste amplo continente, quando argumentam: “Precisamos tratar nossas enfermidades como um sintoma da vida que levamos e não como uma indicação de nossa patologia pessoal. "(…) De fato, das diversas aproximações psi à subjetividade, a psicanalítica é a que melhor consegue apreciar o papel da “reprodução social” social na replicação material das estruturas coloniais e familiares a serviço do capital” ( Parker; Cuéllar - 2025, pg 125).
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Psicanálise Contextualizada 23/07/2026 10:56:29 245
Tenhodesenvolvido a “Psicanálise Contextualizada” dentro dos grupos de estudos epesquisa que você pode conhecer no perfil de Instagram@psicanalisecontextualiza . Neste processo, estamos repensando o processo deescuta na clínica psicológica através da teoria e técnica psicanalítica para arealidade brasileira e latino-americana. O sujeito nunca está sozinho Partindodo princípio que 56% da população ...
Psicanálise Contextualizada 02/07/2026 09:27:19
O que é uma dependência emocional? Em linhas gerais, é quando uma pessoa necessita algo que não consegue ficar sem na sua vida e esta necessidade se manifesta na forma de um hábito. Uma necessidade que gera abstinência e sintomas comportamentais diversos quando 1se tenta sair da dependência, desde ansiedade, depressão e até agressividade.
Como a dependência emocional se desenvolve?
O apego a hábitos e/ou coisas que geram dependência emocional é característico da estrutura psíquica do ser humano. Um dos motivos para esta tendência humana é a configuração da nossa estrutura de pensar e construir simbolização, por meio da qual as pessoas vão se desenvolvendo em processos de laços afetivos ao longo das diversas etapas do desenvolvimento. E, para cada etapa de vivências, perdas ou aquilo que denominamos castrações na teoria psicanalítica, há uma necessidade de preenchimento do vazio gerado pela perda. Françoise Dolto, em seu clássico livro “A Imagem Inconsciente do Corpo”¹, traz com clareza as diferentes castrações que o ser humano passa ao longo de sua existência. Isso é evidenciado principalmente na primeira infância, onde os processos de perdas que remetem a uma forte necessidade da criança estar cercada de suporte afetivo desde o nascimento são mais acentuados, com estes processos sendo reeditados ao longo de toda a vida.
Assim, cria-se a necessidade de ser recompensado pelas perdas sofridas, gerando um ciclo de produção de vazio que sempre estará fomentando a necessidade de ser suprido emocionalmente. Sempre estamos agindo por conta de uma sensação de vazio e, neste vazio, vamos fixando apegos a hábitos que nos dão a ilusão de que estamos sendo supridos emocionalmente. No entanto, são hábitos que remetem a uma sensação imediata de prazer. Por isso, podemos afirmar que criamos dependência emocional por algo que é bom e que cada pessoa vai criando suas necessidades e dependências. Quando julgamos que uma dependência seja algo ruim, caímos na armadilha de nos culparmos sobre a dependência criada, gerando mais compulsão ainda para o processo de repetir o hábito da dependência.
Os principais hábitos que favorecem a dependência emocional
Na atualidade, temos alguns hábitos que mais fixam dependência, sendo que, em cada época, observa-se tendências diferentes. Vou enumerar aqueles que julgo mais comuns e suas artimanhas e/ou elementos que favorecem para o estabelecimento de uma dependência emocional:
1) Começo com a dependência emocional do uso do celular, a terceira mão de nosso corpo hoje em dia. O principal fator que nos faz fixarmos ao uso dependente do celular é a facilidade de nos conectarmos com o mundo, que começa com a clássica defesa de que é necessário estar conectado com os parentes mais próximos ou com o trabalho.
2) As Bets de aposta, principalmente no campo esportivo, que alimentam hoje os principais times de futebol no Brasil. A fixação de dependência às Bets se dá principalmente pelo desejo que se tem em ficar rico, e, no jogo, fixa-se a sensação de que esta possibilidade está ao alcance. O mecanismo de todas as plataformas de Bets é de favorecer o jogador nos primeiros lances de jogo, remetendo a ganhos financeiros que desenvolvem o gatilho de querer ganhar cada vez mais e levam a perdas sucessivas para que a empresa sempre ganhe.
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3) Canetas emagrecedoras, o recurso que faltava para emagrecer. No começo, até se tem orientação médica para poucos, mas, depois que o usuário afere um resultado favorável, começa a gerar a necessidade de uso contínuo e em doses cada vez mais elevadas. Mesmo que o corpo já chegue a um perfil magérrimo, o uso passa a ser de prevenção para não engordar.
4) Alimentos, geralmente compostos por substâncias de fixação de paladar que fazem com que o sabor do alimento dê a sensação de preenchimento do vazio interno no ciclo de estrutura psíquica, levando a uma dependência.
5) Pornografia, que tem a mágica pontuação do prazer genital e de uma resposta de prazer mais rápida, gerando a compulsão do retorno a partir do alívio e da sensação de preenchimento. Com a pornografia, também ocorre a necessidade de avançar em investidas mais profundas, pois a dinâmica da pornografia é desenvolver a busca de sensações cada vez mais bizarras de prazer sexual, levando até às plataformas adultas com vídeos de interação ao vivo, mas sem contato presencial. Uma prostituição indireta que leva o usuário a gastar altas cifras para poder liberar vídeos e mais vídeos com profissionais do sexo virtual.
6) Drogas ilícitas que, por serem proibidas no Brasil, acabam sendo um forte estímulo para se cair nelas a partir do prazer da transgressão. Podemos citar a maconha e a cocaína, que laçam as pessoas pelas sensações psicoafetivas, assim como as drogas mais alucinógenas ou psicoativas, que laçam as pessoas no prazer de uma forte emoção pontual. Há um gatilho comportamental ao uso, por fixar uma sensação emocional ao usar a droga.
7) O Álcool, que tem na estrutura física a possibilidade da pessoa criar uma dependência, tornando-se portadora de uma doença incurável (alcoolismo). Geralmente laça jovens que têm acesso livre à bebida alcoólica antes dos 21 anos, criando uma relação de fixação de necessidade de uso da bebida alcoólica de forma estrutural física. Sendo o alcoolismo uma doença muito associada a fatores genéticos, pode também laçar a dependência quando se inicia na bebida por necessidade de se abrir à comunicação, como é o caso dos que se auto intitulam tímidos e/ou introspectivos.
8) O Tabaco, que laçou no passado pela intensa publicidade e, agora, mesmo com restrições de divulgação romantizada, pela sensação de alívio da ansiedade, sendo que já na segunda tragada, vem a necessidade compulsiva de se fumar. Mas vejam, há um gatilho comportamental ao uso, e depois uma dependência que passa a ser química.
Como reconhecer que existe uma dependência?
Agora, como sair de uma dependência emocional? Este é o grande desafio. O primeiro passo começa pelo reconhecimento de que se é dependente, movimento que geralmente ocorre apenas quando já se está no fundo do poço ou tendo alguma alteração fisiológica ou comportamental de extrema gravidade. Muitas vezes, os familiares e amigos apontam para a pessoa buscar um tratamento para romper com a dependência, mas o dependente não aceita, apresentando sempre uma justificativa do tipo “é a ultima vez..” ou “Uso socialmente ou na forma de lazer”. Porém, quando o mesmo tenta romper com a dependência, não suporta a abstinência. Um dos argumentos que desenvolvo com pacientes que me procuram para tentar sair de uma dependência é a prática da abstinência. Caso haja efeitos de ansiedade generalizada, depressão aguda ou até mesmo traços de agressividade, fica claro que já está configurada uma dependência emocional.
Há casos em que o processo de psicoterapia consegue ajudar a sair de uma dependência por si só. Há situações em que, pelo fato de que a abstinência causa muita alteração comportamental, é necessário o auxílio de medicação psiquiátrica e a psicoterapia consorciada. Mas, em todo tipo de dependência, conforme pontuei as mais comuns acima, se não houver a abstinência daquilo que gera a dependência emocional, nenhum tratamento conseguirá evoluir para o ponto almejado.
Diante dos oito tipos de hábitos propensos a criar dependência emocional que apontei neste artigo, analise se você se enquadra em um deles ou está a caminho de criar dependência por algum deles. Avalie e, se estiver enquadrado em algum, procure o processo de abstinência. Se não conseguir por conta própria, procure ajuda psicológica. Comece logo este caminho de se libertar de uma dependência emocional, pois, do contrário, o tempo vai gerar uma cronificação, ou melhor dizendo, uma cristalização da dependência. Aí o resultado será catastrófico.
1 (1) Dolto, Françoise - “A Imagem Inconsciente do Corpo” - Editora Perspectiva , 2017
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Psicanálise Contextualizada 02/07/2026 09:27:19 280
Oque é uma dependência emocional? Em linhas gerais, é quando uma pessoanecessita algo que não consegue ficarsem na sua vida e esta necessidade se manifesta naforma de um hábito. Uma necessidade que gera abstinência e sintomascomportamentais diversos quando 1se tenta sair da dependência, desdeansiedade, depressão e até agressividade. Como a dependência emocional se desenvolve? Oapego a hábitos e/ou...
Psicanálise Contextualizada 20/05/2026 07:43:30
Ao adentrar a vida idosa, as pessoas se deparam com uma perspectiva construída pela sociedade de consumo e focada na produtividade que carrega a ideia de declínio, quase esperando a morte chegar. Logo aos 60, ainda não se tem muito esta perspectiva. No entanto, adentrar os 70 anos de fato pode representar a entrada numa reta final, visto que a expectativa de vida para mulheres brasileiras é de 80 anos e 73 anos para os homens. A partir desta perspectiva,o idoso passa a ser visto como uma pessoa descartável. Poucas pessoas jovens estão preocupadas com a chegada da velhice e, pior, quase não a consideram. Geralmente, os idosos não são respeitados, salvo algumas exceções. E esta é uma realidade que alcança toda a Sociedade, se dando principalmente nas gestões públicas.
A psicoterapia como espaço legítimo de fala e escuta
Diante deste cenário, a psicoterapia de base psicanalítica pode ser um espaço privilegiado de fala e escuta. Um espaço que traz a garantia de uma fala permitida e uma escuta autorizada e, com a teoria e técnica da psicanálise, a pessoa terá um ambiente de elaboração respeitoso e sem barreiras, sem repressão e com garantia de sigilo. Minha experiência com atendimento a idosos é sempre muito agradável, pois chegam com histórias para contar e maturidade para elaborar. Porém, ainda é uma realidade pouco aplicada para esta demografia por remeter à ideia antiga de que a psicoterapia serve para tratar doenças emocionais ou para “loucos”, muitas vezes não sendo incentivada pelas famílias, as quais enxergam os idosos como indivíduos já na etapa final da vida.
A escassez de cuidado psicológico voltado à população idosa
Outro aspecto importante diz respeito ao fato de que os espaços de atendimento psicológico no sistema público de saúde são escassos e só atendem precariamente aos que chegam com encaminhamento psiquiátrico e, no âmbito particular, ainda se prioriza o consumo pessoal como mecanismo de elaboração da idade. Nas minhas clínicas, geralmente os idosos que chegam são encaminhados pelos familiares, quase sempre por demandas jurídicas, para verificar a idoneidade cognitiva da pessoa idosa. Aqueles que procuram esta modalidade para se analisar espontaneamente são aqueles que conhecem a psicanálise, são psicanalistas, ou pessoas que têm uma vida intelectual ativa. Os benefícios da psicoterapia a partir dos 60 são muitos, e trago aqui alguns deles que percebo com maior relevância, tais quais:
1) Reencontro com a própria história, princípio básico para seu auto entendimento;
2) Reencontrando-se com sua história pessoal e ancestralidade, poderá não reproduzir erros e/ou experiências que não somaram favoravelmente ao seu bem-estar emocional. Este fator é relevante pois, na fase idosa, temos a tendência de repetirmos compulsivamente erros passados e/ou liberar comportamentos que foram reprimidos no passado;
3) Reconstruir a perspectiva do hoje e de um amanhã com projetos vitais, respeitando os limites inerentes à idade. É um espaço para poder projetar desejos ainda não-realizados para que desejos novos possam brotar;
4) Pela maturidade que vem com a idade, o processo tem uma melhor potencialidade de elaborações, insights e interpretações. Podendo ter inclusive uma durabilidade menor;
5) O fortalecimento da estrutura emocional para um envelhecer com vitalidade.
Envelhecer também é continuar elaborando a vida
Diante destes benefícios, quiçá tenhamos em breve maior número de sexagenários e acima na busca por um processo de psicoterapia, o qual vai para além da necessidade de curar um transtorno emocional. Se há um investimento que pode colaborar imensamente na Sociedade, é a ampliação de redes de apoio e escuta aos idosos. Pois uma Sociedade que tem nos seus idosos uma fonte de consulta e aparato histórico, tem um tesouro preservado: O tesouro da História preservada e elaborada.
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Psicanálise Contextualizada 20/05/2026 07:43:30 262
Aoadentrar a vida idosa, as pessoas se deparam com uma perspectiva construídapela sociedade de consumo e focada na produtividade que carrega a ideia dedeclínio, quase esperando a morte chegar. Logo aos 60, ainda não se tem muito esta perspectiva. No entanto,adentrar os 70 anos de fato pode representar a entrada numa reta final, visto que a expectativa de vida para mulheresbrasileiras é de 80 anos ...
Psicanálise Contextualizada 13/05/2026 21:09:05
Participando de um congresso de psiquiatria voltado para crianças e adolescentes, um profissional da área verbalizou que a psicanálise tem pouco a oferecer no campo do atendimento infantil. Paradoxalmente, em seguida à fala deste médico, aconteceu uma mesa exatamente sobre como a psicanálise trabalha com crianças e adolescentes.
Também observo que há uma grande resistência dos pais em entenderem a importância do processo psicoterapêutico para crianças e adolescentes - principalmente quando não se tem um sintoma que caracteriza um transtorno emocional ou quadro neurodivergente - e, quando buscam algo neste campo por reconhecer o valor, já o fazem com a indução médica pré-concebida de uma psicoterapia comportamental cognitiva.
A construção teórica da psicanálise para crianças e adolescentes
A Psicanálise tem sua estrutura teórica bem delimitada para o acompanhamento de crianças e adolescentes, desde sua difusão a partir de Anna Freud (filha de Freud) até tomar força com as pesquisas e sistematizações de Melanie Klein, passando pelas estruturações de Winnicott e seu foco na percepção da família e dos vínculos afetivos até chegar nos exponentes psicanalistas Mauricio Knobel e Arminda Aberastury. Minha clínica se pauta por estes nomes e, atualmente, tenho traçado uma construção teórica e técnica dentro do que estou denominando Psicanálise Contextualizada, que você pode ter acesso pelo Instagram @psicanalisecontextualizada.
A psicoterapia psicanalítica para crianças e adolescentes traz a vantagem de ser um processo que leva o indivíduo a ter acesso ao seu inconsciente, e desfrutar da visita à sua estrutura psíquica histórica, se localizando nas diferentes formas e tipos de vínculos afetivos que se dão no ambiente familiar e no meio externo. É uma técnica da escuta e devolutiva daquilo que o próprio paciente não está vendo, favorecendo uma elaboração por parte do próprio paciente através do processo transferencial e da interpretação que gera um insight de entendimento - diferente das psicoterapias que apenas dão poder ao psicólogo, tornando o paciente dependente para agir por meio de uma cartilha de conduta. Desta forma, não tenho dúvidas da eficácia superior da psicoterapia de base psicanalítica em relação a outras teorias e técnicas, uma vez que as metodologias empregadas sejam devidamente reconhecidas pelo sistema Conselho Federal de Psicologia.
Tratamento contínuo ou processo com começo, meio e fim?
Sendo assim, questiona-se a razão pela qual muitos profissionais induzem os pacientes crianças e adolescentes para o processo cognitivo comportamental enquanto desconsideram a psicanálise com o apoio dos familiares. Após 35 anos de atuação continuada na área, chego à conclusão que, pela terapia cognitiva comportamental, os pacientes ficam vinculados a um processo de manutenção e monitoramento da estrutura patológica, fazendo com que a alta psicoterapêutica (e até medicamentosa) não seja objetivo do tratamento. Já na psicoterapia psicanalítica, o processo está vinculado a um processo com início, meio e fim, visto que o final de uma análise é programada na intervenção com crianças e adolescentes - diferente dos adultos, que podem escolher continuar em análise. Porém, tenho dialogado com poucos psiquiatras e neurologistas que reconhecem a psicoterapia psicanalítica como uma teoria e técnica científica e que são parceiros no processo de tratamento, o qual requer uma melhor relação profissional. Muitas foram as situações em que psiquiatras me solicitaram melhor avaliação de crianças e adolescentes para verificar a necessidade ou não de serem medicados.
Porém, pensando dentro do espectro da clínica com crianças e adolescentes pelo viés da psicanálise, aponto aqui sua eficácia por ser focada na condução dos pacientes ao autoconhecimento, ao entendimento da própria estrutura psíquica e a conseguirem se posicionar diante dos pais, familiares e adultos sem perder a própria identidade. Falando em identidade, é bom lembrar que, aqui, temos que entender a identidade a partir da faixa etária de cada paciente, não confundindo com a identidade do adulto que tem mais chance de estar solidificada e, aliás, torna a análise do adulto mais difícil pela resistência. Por isso, na minha percepção e prática, não é prático pensar a psicoterapia sem estar atento às teorias do desenvolvimento nas suas diferentes etapas da vida. Sempre que atendemos crianças e adolescentes, a primeira pergunta que deve vir à cabeça é qual a idade do sujeito, pois há várias fases do desenvolvimento da criança, assim como do adolescente.
Desta maneira, a psicoterapia para crianças e adolescentes precisa ter a adaptação da técnica conforme a idade. No caso de crianças até aos 12 anos, o objeto da escuta é o brincar, a imaginação da criança construída em sessões de interação com os brinquedos; já nos adolescentes, o falar faz muita conexão dentro de uma perspectiva de um discurso que joga com as palavras, elemento que traz tensão à relação com os pais, mas pode ser elemento de construção de si na análise. Em ambos os casos, é a mesma teoria (as tramas de trilhar o inconsciente) mas a técnica é aplicada diferentemente em função das fases identitárias.
A participação da família no processo analítico
Outra vantagem na psicoterapia psicanalítica para estas duas faixas etárias é a necessária relação com os familiares, principalmente os genitores e/ou aqueles que assumem o tratamento. Desde a escuta inicial, depois com reuniões periódicas com os pais. Isto porque não é possível perceber processos de evolução do paciente em duas sessões semanais de cinquenta minutos cada. Sei que muitos profissionais não mantêm este critério e acabam entrando na dinâmica de atender às necessidades percebidas das famílias. Mas a técnica não pode ser adaptada conforme conveniências clínicas ou familiares. Nesta interação intrínseca com os pais e/ou familiares, a família começa a ter novos posicionamentos na dinâmica da casa, na revisão de hábitos dissociativos, na busca por melhora de vínculos e na entrega de atenção para aquele que está mais precisando. Interessante notar que, em famílias com vários filhos, quando um deles entra em processo psicoterapêutico, o relato dos pais é de que os demais também ganham. Outro aspecto que a psicoterapia psicanalítica contribui é a construção de um futuro melhor elaborado. Sempre digo que, se tivesse tido a oportunidade de ter passado por uma psicoterapia psicanalítica quando criança, hoje seria muito melhor.
Como seria bom se o SUS pudesse oferecer atendimento psicoterápico de forma ampla e para além de tratamentos, com possibilidade das famílias poderem escolher colocar os filhos em uma psicoterapia de caráter preventivo. Muitos pais sobrecarregam os filhos com escolinhas esportivas e atividades cujo resultado muitas vezes gera estresse nas crianças e adolescentes, sendo que a nomeação de um espaço de psicoterapia pode ser uma boa alternativa. Já recebi muitas famílias (geralmente de pais com melhor conhecimento da psicanálise) que procuraram psicoterapia para os filhos por precaução, mas esta não é uma realidade como nem entre famílias com estrutura financeira, pois estas acabam priorizando dar estrutura de suporte e logística, não de raciocínio e compreensão subjetiva para um ser enquanto pessoa.
Entre prevenir e remediar: o desafio das famílias e do SUS
A possibilidade de escolherem colocar filhos numa psicoterapia por demanda preventiva e não curativa ainda é muito distante para a esmagadora realidade das famílias brasileiras. Ainda não conseguimos vislumbrar um SUS que atenda mais para prevenir do que remediar.
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Psicanálise Contextualizada 13/05/2026 21:09:05 303
Participandode um congresso de psiquiatria voltado para crianças e adolescentes, umprofissional da área verbalizou que a psicanálise tem pouco a oferecer no campodo atendimento infantil. Paradoxalmente, em seguida à fala deste médico,aconteceu uma mesa exatamente sobre como a psicanálise trabalha com crianças eadolescentes. Tambémobservo que há uma grande resistência dos pais em entenderem a impor...
Psicanálise Contextualizada 15/04/2026 15:16:44
O machismo mostra a sua cara na atualidade brasileira pela faceta do feminicídio, com um aumento assustador de casos. Este fato se dá como sintoma pulsante de uma estrutura social machista na qual homens, ao se deparar com a ascensão das mulheres na Sociedade, precisam atacar para impedir que estas cresçam em direitos iguais.
Masculinidades em revisão: o papel dos homens na transformação social
Porém, a luta para mudar este quadro não se dá sem a participação dos homens, daqueles que se colocam com H maiúsculo. Assim, é preciso pensar as masculinidades, revendo a forma de se colocar nesta estrutura machista e, a cada homem, perceber-se nas suas muitas manifestações do machismo estrutural. Esta revisão das masculinidades tem sido proposta por grupos de homens que estão se encontrando e debatendo esta temática, mas, a meu ver, o caminho de formação de nichos de homens para pensarem essas masculinidades acaba por manter o distanciamento destes com as mulheres. Sendo esta pauta de todas e todos, vejo que o melhor caminho é unir forças às vozes das mulheres já nesta jornada.
Os traços do machismo estão explícitos no avanço das tendências políticas de extrema direita, que pauta todo o poder aos homens e os serviços subalternos às mulheres. Está no estímulo às guerras, que a cada dia aumenta a fúria de homens dirigentes para o domínio, levando ao sofrimento de mulheres e crianças em todo o planeta. Está na crescente onda de religiões pautadas no domínio do masculino, deixando as migalhas para as mulheres no papel de submissas a seus maridos. Está nas plataformas digitais, cujos empresários homens usam as tecnologias de informação para semear discursos de ódio, xenofobia, machismo e racismo nas mentes das crianças e adolescentes em plataformas que representam a força do capital e do poder econômico, cuja estratégia continua sendo de todo o poder aos homens.
Origens do machismo: fatores históricos, culturais e psicológicos
Podemos pontuar vários motivos pelo crescimento do machismo, misoginia e feminicídio no Brasil. No entanto, aqui, irei focar em quatro elementos: O fracasso dos homens em diversos campos de desenvolvimento (cognitivo, intelectual, sexual, profissional, entre outros) que leva-os a interpretar a ascensão das mulheres como uma ameaça e, com isto, tendem a deter tal crescimento; A inveja que leva os homens a destruir nas mulheres o que elas possuem e eles não podem possuir - principalmente no potencial de gestar, gerar, cuidar - e a revolta divina masculina em não serem os baluartes da gestação; A colonização europeia que trouxe um traço de família nuclear baseado no poder do homem e a estrutura machista secular que dificulta a percepção histórica e a reconfiguração da mesma; A religião colonialista que dá respaldo à posição de um Deus masculino com a força ao pai e, mais especificamente no Brasil, o apagamento da ancestralidade indígena e afrodescendente cuja força estava na coletividade, no estar juntos, parceiros.
Psicanálise e novas leituras das relações de gênero
Dentro da Psicanálise, teoria e técnica que utilizo no meu dia a dia como Psicólogo, a construção da estrutura psíquica passa pelo viés da colonização, principalmente quando adentra nos laços de vínculo afetivo, em que a estrutura se molda com referência na pessoa do pai. Além disso, em muitos grupos psicanalíticos, há a ideia de que a mulher atua pela falta, restando a ela as manifestações histéricas. Porém, estas posições estão avançando para uma leitura que não perpassa as perspectivas do masculino e do feminino em si. Por este motivo, criei a “Psicanálise Contextualizada”, que você pode conhecer mais no perfil de instagram @psicanalisecontextualizada, onde estamos trilhando caminhos para um reelaborar a Psicanálise a partir da realidade brasileira e, quem sabe, propor novas formas de pensar vínculos afetivos na construção da estrutura psíquica.
Desta forma, é preciso a integração entre mulheres e homens para que a luta pela construção de uma Sociedade anti machista aconteça. Para nós, homens, é necessário adentrarmos os muitos movimentos feministas para o fortalecimento de todas as pautas públicas que remetem à eliminação das estruturas machistas. Aqui, cabe o atual avanço da qualificação da misoginia como crime, fator que mexeu muito com os políticos de direita, com argumentos do tipo “agora qualquer discussão de idéias que um homem tiver com uma mulher será enquadrado em misoginia?” A senadora Damares chegou a verbalizar que, desta forma, não sobrariam políticos fora desta lista de criminosos.
Deixamos de entrar nesta luta quando não entramos no processo de educação dos filhos em parceria com as mulheres, quando nos omitimos diante de cenas misóginas, quando contamos piadas depreciativas sobre mulheres ao estarmos em bandos de homens, quando somos agressores e atuamos com a força física no cenário familiar, no trabalho e nas instituições. Enfim, em muitas cenas do cotidiano nas quais não nos mantemos atentos ao nosso machismo estrutural.
As mulheres têm, sim, um poder enorme em suas mãos de construção educacional nas gerações que chegam, pois detém quase que a exclusividade do cuidado e educação das crianças, tanto no seio familiar quanto no âmbito da educação institucional. E este poder de fazer uma educação anti machista vai desde as distribuições equitativas dos afazeres domésticos na casa até o processo de levar as crianças e adolescentes ao debate desta pauta nas escolas. As mulheres têm maiores possibilidades de resultados ao montarem estratégias para a conquista de direitos e a derrocada da sociedade machista, pois já possuem experiência organizativa no movimento social feminista. A entrada dos homens nesta causa ainda será efêmera, pois são poucos os que estão dispostos a estabelecer esta parceria com as mulheres. Mas, aos poucos que ainda querem esta pauta, cabe estar junto delas nesta luta.
Duas estratégias importantes para as mulheres estão diretamente relacionadas ao potencial de estabelecer vínculo afetivo com crianças e adolescentes, o primeiro sendo a atenção em não cair na armadilha machista de ser só delas a demanda de colocar regras, pois com o tempo ficarão com a imagem de más e os homens que não estiveram no cenário educacional sairão com a imagem de bonzinhos. A segunda consiste em levar crianças e adolescentes à prática da Solidariedade, do fazer em conjunto, e, neste processo, resgatar a ancestralidade indígena e afrodescendente pela força do “aquilombamento”, como já nos lembrava Nego Bispo.
De bandos a redes: reinventando as masculinidades
Como já nos ensinou Rose Maria Muraro (socióloga brasileira que pesquisou o perfil da mulher brasileira ao longo de sua vida acadêmica), mulheres fazem redes enquanto homens fazem bandos. Os bandos se agridem enquanto as redes são solidárias. Rever a nossas masculinidades passa primeiro pelo caminho de deixarmos de ser bandos para tornarmo-nos verdadeiras redes de solidariedade.
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Psicanálise Contextualizada 15/04/2026 15:16:44 239
Omachismo mostra a sua cara na atualidade brasileira pela faceta do feminicídio,com um aumento assustador de casos. Este fato se dá como sintoma pulsante deuma estrutura social machista naqual homens, ao se depararcom a ascensão das mulheresna Sociedade, precisam atacar para impedir que estascresçam em direitos iguais. Masculinidades em revisão: o papel dos homens na transformação social Porém, a ...
Psicanálise Contextualizada 20/03/2026 08:00:34
A entrada na fase da “adolescência propriamente dita” é o momento de criar conflitos. Neste tempo, o perfil “normal” é aquele que provoca e confronta. E é aí que o bicho pega, pois os adultos, em sua grande maioria, não conseguem (ou não querem) entender os motivos pelos quais este comportamento aparece com recorrência esmagadora dentre os adolescentes. No caso daqueles que não querem entender, isso se dá principalmente porque já passaram pela adolescência e conheceram muitas das coisas que geram conflitos com os adolescentes em seus meios de convivência (familiar, educacional e social). Interpretam como uma ideia que passou, foi uma fase e já não vale a pena lembrar. No entanto, os adolescentes presentes no aqui e agora vivenciam estas mesmas fases em novos contextos, cenários, condições sociais e realidades culturais, geográficas e territoriais. E é aí que surge a pergunta: Por que então dos conflitos e da necessidade de conflitar?
A construção da identidade e o rompimento com a infância
Exatamente porque chegou o tempo de construir uma identidade que, até então, estava sobre o auspício dos adultos. Lembram de quando levavam os filhos ainda criança para lá ou para cá, e eles apenas iam? Agora, tchau, “vai que eu não vou...”. Como passamos doze anos de nossas vidas na infância e mais dez a doze na adolescência até chegarmos na vida adulta, este processo de transição e busca da própria identidade é mais do que necessário.
Desconfio dos adolescentes que não passam por esta fase sem confrontos, pois podem estar desconectados de sua idade e contexto, ou atuam com medos por repressão familiar, religiosa, etc. Sempre digo aos pais e professores que fiquem atentos aos adolescentes silenciosos, que não dão trabalho e ficam isolados, pois daí sim pode emergir um sujeito destituído de identidade no futuro, quem sabe já revelando um processo depressivo. Este fator atualmente tem se tornado bem recorrente com a imersão dos adolescentes no universo digital e no aumento de tentativas de suicídio nesta faixa etária.
A influência dos grupos e os riscos das escolhas
Mas, para sustentar esta posição do “há governo, sou contra”, é preciso se aliar a grupos que se vinculam por aproximação de desejos e de identidades. Tribos urbanas, amigos de escola, de conexões online, k-pop, até a identificação religiosa, política e de marginalidade. É preciso sustentar uma posição e os grupos passam a ser uma tendência natural conforme os laços estabelecidos na adolescência poderão seguir próximos e conectados para toda a vida adulta.
Na busca por identificação e proteção em um coletivo, a nova família do adolescente passa a ser o grupo que se faz seu. Lembro que, na minha adolescência, vivia em função dos grupos dos quais participava na dimensão religiosa através da Pastoral da Juventude. Minha mãe dizia que minha mochila tinha asas, pois não parava em casa.
Desta forma, a configuração de rebelar-se e associar-se em grupos pode trazer consequências tanto favoráveis quanto catastróficas, pois mesmo um adolescente com boa estrutura de apoio familiar, independentemente das condições sociais - pois o apoio emocional não diz respeito apenas à condição financeira - pode entrar em uma trama na qual nunca imaginaria. Lembro-me de uma mãe que me liga desesperada relatando que o filho tinha dito que estava passando o final de semana na casa de um amigo mas, na verdade, estava envolvido com uma trama de roubo em uma casa da cidade. Na segunda-feira pela manhã, a polícia bateu à porta desta mãe para notificar que seu filho havia se envolvido com um grupo de criminosos. E isto pode acontecer em qualquer família de qualquer realidade social.
Este é o maior dilema, pois com a posição de conflitar, poderá surgir surpresas. Geralmente os adolescentes nesta fase são muito assediados por adultos que, sabedores deste perfil, os atraem para se aproveitarem de seu espírito aventureiro e corajoso. Grupos políticos também acabam cooptando adolescentes. Tanto que muitos políticos de carreira são resultado desta etapa adolescente, principalmente aqueles com demandas políticas mais extremistas, assim como grupos religiosos que apelam para o emocional e exploram culpas, levando os adolescentes a serem lapidados para uma subserviência a uma prática religiosa. Nas comunidades periféricas, os traficantes usam a estratégia de cooptar adolescentes para o esquema do tráfico com a promessa financeira movida pela emoção. Por fim, muitas meninas são aliciadas para a pornografia com promessa de riqueza explorando a força estética das adolescentes.
Atualmente, há um aumento do número de adolescentes que buscam grupos por identificação online, através dos jogos e de identificações por séries, fã clubes, etc. Porém esta tendência tem levado muitos adolescentes ao afastamento social com a ilusão de que estão cheios de amigos pela falta de conexão no mundo real. Como o estar junto, o fazer junto, contactar, o tato, são elementos estruturantes na vida do adolescente, a realidade virtual tem trazido transtornos emocionais diversos aos adolescentes, que acabam entrando num mundo da fantasia e potencializando delírios, com evolução para estado psicótico. Pois este corpo adolescente precisa sentir, pulsar e gastar energias. Online, estas energias ficam contidas, estourando sempre em algum sintoma patológico.
O papel dos adultos na orientação dos adolescentes
Para os adultos que convivem com adolescentes, o primeiro passo é entender esta fase e estar junto. Não criticar, mas potencializar estas energias. Dar abertura para o fazer e o acontecer, respeitando a privacidade, respeitando os amigos sem preconceitos e, principalmente, dando voz aos adolescentes e toda a potencialidade que trazem ao mesmo passo em que mantém os limites conforme as diretrizes que cada família estipula para si. Se houver uma conotação religiosa, que seja um vínculo de menor repressão possível, mas sim por construção de consciência. Se for no campo educacional, dar voz aos adolescentes tendo sempre a perspectiva das regras a serem seguidas, mas construídas também por consciência.
Assim, conflitar, defender-se em grupos e ir se desligando da família, são fatores que, tendo entendimento e acolhimento por parte dos adultos, leva a adolescência a ter enorme chance de evoluir para uma vida adulta potente. Aqui, cabe aos pais saírem de uma posição rígida e se relacionarem com seus filhos numa perspectiva mais amiga. Os professores, de saírem da posição de baluartes do saber para estarem juntos aprendendo, parceiros. À Sociedade, ter a clareza que a força da adolescência está exatamente no seu poder de questionar, executar e seguir sem temer, onde a educação seja encontro e ação em conjunto. Uma Sociedade que não abandone ou expulse, mas que acolha, proteja e projete perspectivas.
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Psicanálise Contextualizada 20/03/2026 08:00:34 252
Aentrada na fase da “adolescência propriamente dita” é o momento de criarconflitos. Neste tempo, o perfil “normal” é aquele que provoca e confronta. E éaí que o bicho pega, pois os adultos, em sua grande maioria, não conseguem (ounão querem) entender os motivos pelos quais este comportamento aparece comrecorrência esmagadora dentre os adolescentes. No caso daqueles que não querementender, isso se ...
Psicanálise Contextualizada 11/07/2025 13:25:21
Após
o sucesso da série “Adolescência”, lançada pela Netflix neste ano de 2025, e do
profundo impacto que causou em muitos pais, falar da adolescência volta à cena. As demandas
estão cada vez maiores em torno de sintomas
comportamentais neste grupo e quadros como ansiedade generalizada, depressão
com desejo suicida, auto-agressão, assim como comportamentos dissociativos com
características psicóticas. Quadros que chegam com fortes indicadores e com os
quais precisamos dialogar de maneira mais próxima aos psiquiatras que os
acompanham, pois há a tendência de enquadrar o quadro como psicose e, na
maioria das vezes, tais sintomas podem ser dissolvidos por meio de uma intervenção
rápida, seja terapêutica e/ou medicamentosa, assim como de hábitos
cotidianos do adolescente por parte dos pais e familiares. Desta
maneira, tratamos estes quadros como episódios de crise,
pois é característico da adolescência haver uma desorganização interna de
pensamento que os Psicanalistas argentinos Maurício Knobel e Arminda Aberastury
caracterizaram de “Psicopatologia Normal da Adolescência”.1
O novo cenário da adolescência e seus sintomas
Observo
que, na atual conjuntura da Era Digital, o celular está se incorporando como
necessidade elementar similar à de um órgão adicional. Esta demanda atinge
diretamente adolescentes e crianças, pois há um bom tempo livre no cotidiano
que está sendo ocupado com o uso deste dispositivo. Sabemos que o celular é uma realidade
de uso desde os primeiros
anos de vida até a vida
adulta - basta observar a quantidade de idosos constantemente ligados a tais
aparelhos. E aqui vale observar
que, se os impactos nos adultos e idosos já são danosos, mesmo estes já
possuindo autonomia e maturidade para processos de escolhas, imagine os
estragos na vida adolescente. O Comitê Gestor da internet no Brasil, que
desenvolve pesquisa sobre o uso das TIC (Tecnologias de Informação e
Comunicação) nos domicílios brasileiros, identificou que, entre 9 a 17 anos,
95% usam o celular por um período
de 9 horas por dia. Daí entendermos o foco dos processos dissociativos e de transtornos
emocionais que a adolescência atual está apresentando.
Muitos
são os estudos hoje que comprovam os efeitos danosos para a vida emocional dos
adolescentes quando estes ficam entregues ao celular por tempo excessivo. Nem
precisaríamos de dados estatísticos para sabermos disso, visto que as clínicas
psicológicas que trabalham com adolescentes já estão recebendo inúmeros casos
com sintomas associados à dependência do celular,
e, nas famílias, os pais estão percebendo esta realidade quando o adolescente
dentro de casa fica inoperante, isolado e depressivo.
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Sintomas visíveis nas famílias e nas clínicas
Uma
pesquisa interessante do Programa de Pós-Graduação em Medicina Molecular
da UFMG indica que, ao analisar
142 artigos que atingiram cerca de 2 milhões de pessoas em vários países do mundo, 72% dos adolescentes apresentaram
depressão associada ao uso intensivo do celular. Desta forma, não precisamos
mais argumentar que o excesso
de celular traz malefícios aos adolescentes e a todos nós. Sendo assim, ainda precisamos
enxergar e aceitar esta realidade para podermos agir conosco mesmo e com os
filhos.
Cinco passos para os pais enfrentarem a dependência digital
Aqui, quero apenas apresentar algumas intervenções necessárias para os pais tomarem atitude sobre o uso do celular com seus filhos adolescentes. Vou focar na adolescência devido à sua condição como uma etapa de muita vulnerabilidade vinda das diferentes fases de transformações e que demanda muitas queixas das escolas sobre dificuldades de aprendizado e processos de disciplinas no ambiente escolar. Segue então algumas orientações aos pais:
1) Primeiro Passo: Fazer a pergunta “O que desejo para o futuro dos meus filhos?” Faço a
analogia simples de questionar se pretende-se colher um fruto tipo exportação ou um fruto para marmelada. O fruto tipo
exportação envolve um cuidado quase que individualizado no qual até se embrulha os frutos no pé
e, quando se vai colher, colhe-se um a um para não os
machucar. Já, se for para marmelada, pode deixá-los até bichar no pé e, ao
colhê-los, uma boa vara para derrubá-los ajuda. Aqui, estou falando de processo
preventivo, pois se quero para eles um futuro próspero, é melhor cuidar com
toda a atenção, de mão em mão.
2) Segundo Passo: Observar se, como pai ou mãe, estou
viciado no meu celular. Uma certa vez, eu e minha esposa estávamos na sala
de casa assistindo TV, cada um em um canto do sofá com seus respectivos
celulares e neles fixados. Um de meus filhos filmou esta cena escondido e nos
mandou pelo nosso Whatsapp. Ao assistir o que ele tinha enviado,
assustei de me ver naquela cena por me pegar fazendo isso sem perceber.
Neste episódio, entendi que, para colocar critérios aos meus filhos, preciso
ter critérios no meu uso pessoal, pois educar pelo testemunho, ainda prevalece
como regra de ouro.
3) Terceiro Passo: Criar mecanismos de controle nos quais o tempo de uso do celular possa ser monitorado. Aqui, indico um caminho que pode dar mais resultado, que é definir um período limitado de uso com horas marcadas (indico, no máximo, duas horas por dia). Pois assim como temos horários para ir ao médico, almoçar, dormir, ir a escola, etc, tal estratégia tem ajudado muito por não envolver uma negociação na hora de entrar e sair, já que estes processos de barganha geram muitos desgastes de relacionamentos (especialmente com adolescentes). E este critério deve ser acompanhado da mesma forma aos finais de semana e feriados, permitindo que os filhos fiquem ligados em atividades de socialização e integração com o coletivo. No entanto, para isso, os pais precisam se propor a serem ativos junto com seus filhos adolescentes.
4) Quarto Passo: Fazer atividades junto dos filhos, tanto envolvendo-os em suas
atividades quanto entrando nas atividades deles. Mesmo sendo uma etapa da vida
na qual acabam buscando seus vínculos de grupo, cabe aos pais entrarem no
esquema dos adolescentes. Se os
pais ficam isolados no seu próprio mundo sem interação recorrente com os
filhos, este processo de prevenção se tornará inviável. A internet
chama os adolescentes para dentro de seus quartos e o cotidiano chama os
adultos para seus afazeres. Tornar-se jovens com seus filhos adolescentes,
revitaliza a vida de qualquer adulto e reduz este abismo.
5) Quinto Passo: Por enquanto, o último passo deste artigo - sabendo que podemos fazer
uma lista enorme de possíveis ações para prevenir filhos da dependência
do celular e consequentes sintomas de transtornos comportamentais - consiste na
ideia de que os pais monitorem o que os filhos estão vendo e consumindo. Sejam chatos, sim, para terem
acesso aos conteúdos na qual estão navegando.
O testemunho dos pais é o limite mais eficaz
O
controle do celular nas escolas por regra federativa já ajudou muito aos
professores, que agora estão respaldados por lei. Mas não basta a escola ter o
controle, se este não ocorre na família. Voltando à pergunta do Primeiro Passo
(“O que desejo para o futuro dos meus filhos?”), só posso afirmar que os pais
que entendem a necessidade de impor limites ao mesmo tempo que prestam
testemunho de seus limites pessoais sobre o uso do celular, estarão dando
um enorme passo
para o sucesso emocional,
profissional e de cidadania de seus filhos. Como poucos terão a coragem de
“nadar contra a correnteza” de um “povo que segue como gado marcado”, os que
assim o fizerem estarão colocando seus filhos em um patamar de diferenciação
entre o Coletivo. Como esta meta será para poucos, o resultado ficará
escancarado.
Mas
só vão conseguir definir posicionamentos e colocar limites, sendo parceiros na
construção do desenvolvimento dos filhos, aqueles que realmente os amam. Pois
quem ama, cuida; E quem cuida, não se poupa ao sofrimento, principalmente quando o sofrimento está relacionado a um bem maior,
que é a plena autonomia futura de seus filhos.
1 Aberastury,A; Knobel,M – Adolescência Normal – Artmed , 1971
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Psicanálise Contextualizada 11/07/2025 13:25:21 599
Apóso sucesso da série “Adolescência”, lançada pela Netflix neste ano de 2025, e doprofundo impacto que causou em muitos pais, falar da adolescência volta à cena. As demandasestão cada vez maiores em torno de sintomascomportamentais neste grupo e quadros como ansiedade generalizada, depressãocom desejo suicida, auto-agressão, assim como comportamentos dissociativos comcaracterísticas psicóticas. Q...
Psicanálise Contextualizada 29/05/2025 09:07:13
Olhar na escuta, esta é a minha dinâmica no processo de escuta em psicanálise. Desde um atendimento a bebês junto de suas mães para já intervir em vínculos que possam estar bloqueando a transmissão de afetos materno-filiais, até crianças, adolescentes e adultos. A escuta psicanalítica, na minha perspectiva analítica — que intitulo psicanálise contextualizada — parte da palavra do analisando para entrar na cena. Como costumo pontuar aos meus pacientes: “Preciso ver a cena, toda a cena”. Quase como um Big Brother. Por isso mesmo costumo dizer que psicólogos são meio que fofoqueiros — adoram ouvir uma fofoca — apenas com a diferença de que essas histórias ficam apenas na memória dos pacientes.
O entrar na cena pela palavra dita em setting analítico (nas sessões) se dá de diferentes formas. Por exemplo: As crianças falam pelo brincar, os adolescentes transitam entre verbalizar e jogar, e os adultos o fazem por meio da fala direta. Mas em todas essas formas de comunicar, a cena vem e torna o processo mais transparente, tanto para o psicólogo-analista quanto para o paciente. Quando a fala não faz emergir - não formando uma cena - podemos estar diante de uma expressão fantasiosa que pode estar conectada a um mecanismo de defesa que é ativado quando o paciente não quer se revelar, como um processo de resistência. E é nessa resistência que pode morar o sujeito que não quer que a verdade sobre ele seja revelada.
Freud vai avançar em sua escuta para além do Indivíduo após a Primeira Guerra Mundial, pois, até então, parecia estar em uma redoma, mergulhado na construção de sua teoria e tentando convencer seus colegas médicos de que suas descobertas tinham caráter científico. Sendo Freud um neurologista e pesquisador das enguias marítimas, no seu esquema neurotransmissor, ele rompe com a neurologia laboratorial e parte para construir seu relato de tratamento psíquico — a Psicanálise. Seu maior legado que, de fato, representa um corte epistemológico (um pensamento que é descoberto e faz mudar o rumo de uma forma de pensar), é quando nomeia o Inconsciente. De lá pra cá, tudo que se entende como inconsciente, devemos ao gênio Freud.
Freud: da escuta individual à construção teórica
Mas imagine: Freud precisava manter-se hermético em sua teoria, que era fruto do mergulho em sua escuta clínica. Tanto que temos cinco casos paradigmáticos sobre os quais Freud escreveu sistematicamente, com base na escuta individual de seus pacientes e que podemos encontrar no livro "Histórias Clínicas: Cinco Casos Paradigmáticos da Clínica Psicanalítica", editado pela Editora Autêntica. Nestes casos, a escrita de Freud faz surgir as cenas das sessões. Em alguns momentos, parece que estamos assistindo a um filme a partir da transcrição de Freud sobre a fala de seus pacientes em sessão.
Por isso, escutar a cena, para mim, é um legado que trago de Freud. Um Freud que fala e elabora teoria com transparência no escrever, como se já estivesse exercendo a práxis (teoria e prática), onde a boa teoria emerge da vivência prática. Neste sentido, esse é um dos grandes méritos de Freud — tanto que foi premiado com honrarias equivalentes ao Nobel de Literatura por sua escrita literária, como foi o caso do Prêmio Goethe da cidade de Frankfurt, em 1930.
A cena como legado freudiano
Porém, até então, antes da Primeira Guerra Mundial, Freud estava envolto na construção da Psicanálise. De fato, vemos que ele olhava para as demandas do indivíduo e, no máximo, fazia conexão com pessoas próximas a seus pacientes para compreendê-los. Verás, por exemplo, no caso Dora (em que analisa uma adolescente) que Freud ficou apenas na demanda da histeria — um conceito em franco desenvolvimento na época — mas deixou de ver de forma mais ampla o quanto a adolescente que analisava estava envolvida em uma sociedade que invadia as ingenuidades de uma jovem em processo de definição de sua identidade, sendo inclusive vítima de assédio sexual.
Com as mazelas vividas no pós-Primeira Guerra — tendo inclusive sua família empobrecida e marcada pelos traumas emocionais da guerra, como toda a Viena da época — brota em Freud um olhar para o social, levando-o a instaurar clínicas públicas que viriam a se espalhar pela Europa após 1919. A partir daí, a psicanálise adquire um novo olhar de uma escuta que inclui o indivíduo no contexto social, gerando novos textos de Freud com maior imersão social. Ele chega a afirmar que a psicanálise é o social.
Da escuta individual ao sujeito inserido no social
Hoje, estou empenhado em reescrever a psicanálise para a nossa realidade brasileira e latino-americana. Para isso, revisito conceitos da psicanálise desde Freud, passando pelos pós-freudianos até chegar a Lacan (especialmente a partir de 1933), quando sua influência começa a tomar corpo por meio dos seminários de 1953 em diante. É necessário descolonizar a psicanálise eurocêntrica e pensá-la a partir do seu principal legado — o Inconsciente — em diálogo com os pensadores da diáspora africana no Brasil e da ancestralidade indígena brasileira e latino-americana. É um desafio sair de uma clínica centrada no indivíduo, como se o processo analítico fosse algo isolado dentro do setting terapêutico, desconsiderando o sujeito como extensão de sua cultura e de sua história. Um desafio que já vivencio no meu cotidiano: Escutar a cena e contextualizá-la no ambiente onde ela acontece, desde a microvivência até a macrovivência.
Como escutar um sujeito que não está mais pontuando ereção peniana sem compreender esse sintoma dentro de seu contexto socioeconômico e cultural? Como analisar uma pessoa com disfunção alimentar sem enxergar, em sua estrutura psíquica, a avalanche publicitária do gourmet e os significados regionais atribuídos ao alimento? Enfim, a escuta da cena precisa ser como um filme transmitido, uma novela em desenvolvimento que nunca acaba. Ou um conteúdo da Netflix que obsessivamente repete, repete, mas nunca termina. Faz laço, enlaça e vicia pois, na fala analítica, a repetição tem sentido pleno — assim como fazem muito sentido as voltas e retornos que a história dá, nesse processo cíclico que parece sempre nos devolver ao mesmo lugar.
Contextualizar para escutar
E é aí que entra a geopolítica na escuta, pois entendo que vivemos e nos relacionamos como resultado de políticas instituídas e ideologias traçadas. Sendo assim, como levar as pessoas em processo analítico a identificarem traços de sua própria ideologia — aquilo que representa sua forma de escolher, viver e reconduzir-se pelas estradas que trilham — se essa ideologia está impregnada pela ação política no espectro da geopolítica global?
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Psicanálise Contextualizada 29/05/2025 09:07:13 506
Olhar na escuta, esta é a minha dinâmica no processo de escuta empsicanálise. Desde um atendimento a bebês junto de suas mães para já intervirem vínculos que possam estar bloqueando a transmissão de afetosmaterno-filiais, até crianças, adolescentes e adultos. A escuta psicanalítica, na minha perspectiva analítica — queintitulo psicanálise contextualizada — parte da palavra do analisando para ...
Psicanálise Contextualizada 06/05/2025 18:35:43
É possível saber se a forma com que os pais estão educando seus filhos poderá representar um legado para toda a vida deles? Enquanto os pais estão em pleno processo educacional na condição dos filhos serem plenamente dependentes deles enquanto crianças e adolescentes, torna-se difícil medir se os filhos levarão alguma memória positiva dos pais, e destes saberem se estão construindo memória positiva nos filhos. Na adolescência, esta é uma realidade bem mais distante, pois emergem os conflitos existenciais dos adolescentes e consequente ataques dos mesmos por busca da autonomia, pois tudo de ruim que acontece a eles é culpa dos pais.
Pode ser que, já quando os filhos estiverem na vida adulta, conseguirão expressar aos pais algum legado que estão levando deles, manifestando ainda em vida estes sentimentos. Mas esta realidade, para muitos filhos adultos que ainda não vingaram na vida profissional e nem como pais, dificilmente será expressa por aqueles nestas condições, sobrando ainda a culpabilização por não terem conseguido chegar a algum lugar melhor na vida.
Quando o patrimônio não traduz afeto
Pensar o legado no campo financeiro é outro elemento que pode trazer pouca memória, a não ser que os pais tenham construído vasto patrimônio e o distribuído aos filhos ainda em vida, mas são poucos aqueles que conseguem realizar esta proeza. E patrimônio, dinheiro, muitas vezes está associado a muito trabalho e pouca presença afetiva. A aritmética “patrimônio = felicidade emocional”, geralmente não coaduna.
Pior é quando os pais estão em idade muito avançada, com sintomas de adoecimentos inerentes à velhice e com necessidade de muitos cuidados, num contexto em que comportamentos infantis e mesmo as neuroses não elaboradas ao longo da vida se manifestam. Aí, a memória deste período que exigiu muito dos filhos nos cuidados e na logística, será de um sofrimento proporcional ao tempo e ao esforço deste cuidado.
Como o ato de educar filhos não traz garantias de nada, e não podemos traçar um parâmetro do que qualifica os pais como melhores ou piores, a conclusão mais realista sobre a educação de filhos e seus legados é que nada é categoricamente certo e muito menos garantido. Felizes os pais que assim agirem no processo educacional, pois se cobrarão menos sobre possíveis fracassos dos filhos em suas trajetórias.
O que realmente permanece na alma dos filhos
Porém, ao pensar no campo da estrutura psíquica que os pais podem estabelecer diante de seus filhos, há algumas vivências que podemos entender que um filho levará para toda a sua vida. Cito aqui algumas:
1) Uma relação marcada pelo vínculo afetivo espontâneo, a memória do amor expresso em caráter recorrente, sentido no dia a dia;
2) As vivências de estar junto, fazer junto e ter participado ativamente do cotidiano e da vida dos filhos;
3) As regras colocadas e valores de fato exercitados na prática cotidiana. Verdades que os pais pregavam e vivenciavam. Pois a expressão maior do Amor é a prática da Verdade. Como já dizia uma das letras cantadas pela banda brasileira Titãs: “...meu pai pedia para eu não mentir, mas nunca me ensinou o que era a verdade...”.
4) O legado da Educação como instrumento libertador e de possibilidade de crescimento como cidadão, se os pais tiveram incentivo pleno e participação absoluta no processo educacional.
Podemos também pensar demandas que conduzem filhos a não levarem nada dos pais, como:
1) Religião, pois a fé/religião está no campo das escolhas pessoais, pior ainda se a religião foi imposta como norma rígida.
2) A educação bancária, do toma lá dá cá e com cobrança de juros, pois o dinheiro não registra rosto nem afeto. Educação movida a bonificações não faz laço afetivo;
3) Regras morais e valores apregoados cujo os pais não vivem na vida pessoal.
Sempre vivemos esta incessante busca em nossa história, e cairemos sempre neste sentimento de identificar quais os legados que levamos para a nossa vida em relação aos nossos pais. Este processo sempre se acentua quando nos colocamos em processo de psicoterapia, principalmente se for de base psicanalítica. Há um momento da análise no qual tudo parece estar relacionado aos pais, até que evoluímos para percepções de nossa própria construção, do que escolhemos ser para nós mesmos.
Aqueles que conseguiram, ao longo da vida, elaborar uma auto percepção de si e uma escolha pessoal na forma de viver a partir do rompimento de vínculo de dependência com os pais, enxergam com mais clareza os legados dos pais que levarão para a vida e os que não levarão. Sofrerá mais e se sentirá mais preso aos pais aqueles que ainda, mesmo adultos, não conseguem se separar em identidade e subjetividade de seus próprios pais. Por este motivo e para esta questão, um processo de psicoterapia se torna muito recomendado.
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Psicanálise Contextualizada 06/05/2025 18:35:43 533
É possível saber se a forma com que os pais estão educandoseus filhos poderá representar um legado para toda a vida deles? Enquantoos pais estão em pleno processo educacional na condição dos filhos seremplenamente dependentes deles enquanto crianças e adolescentes, torna-se difícilmedir se os filhos levarão alguma memória positiva dos pais, e destes saberem se estão construindo memóriapositiva no...
Psicanálise Contextualizada 11/04/2025 15:27:56
O que é a Psicanálise? É a teoria criada por Freud que, ao longo dos anos, foi sistematizando conceitos e procedimentos do exercício clínico, tendo seu marco zero reconhecido na publicação do livro A Interpretação dos Sonhos, de 1900. Porém, antes mesmo, Freud já estava construindo a teoria para estruturação de uma técnica e, de lá para cá, a Psicanálise se consolidou como uma das muitas metodologias existentes no campo da Psicologia.
O grande corte epistemológico de Freud foi o conceito do inconsciente, o qual trouxe uma guinada na forma de ouvir o ser humano, até então entendido por demandas situacionais do “aqui e agora”. Este conceito colocou Freud, inclusive, em uma posição de referência para a Filosofia. Em muitos manuais e artigos históricos da Filosofia, Freud e a Psicanálise são citados como marcos no desenvolvimento dessa ciência humana.
A Psicanálise como prática profissional no Brasil
O problema é que, no Brasil, a Psicanálise virou profissão sem ser estruturada como ofício, pois não há graduação formal nesta área e não há uma autarquia federativa que legitima a Psicanálise como uma função profissional parametrizada. Neste caso, para o campo de atendimento clínico na área da Saúde Mental e Emocional, temos a Psicologia e a Psiquiatria como ciências e profissões reconhecidas. Lógico que, em todas as áreas da saúde, assim como em muitas outras áreas do conhecimento, múltiplas teorias existentes são incorporadas como recursos para que profissionais melhorem seus atendimentos a pacientes e clientes. No entanto, como atendimento sistematizado no campo da saúde mental, as estruturas metodológica e legalmente reconhecidas no Brasil são estas citadas, assim como alguns setores de intervenção da Neurologia.
Sendo assim, o grande dilema da Psicanálise no Brasil na atualidade diz respeito a uma enorme proliferação de escolas e instituições psicanalíticas que engloba pessoas de diferentes áreas de conhecimento que se intitulam psicanalistas após seu período de formação, como se estivessem exercendo um ofício formal. Pior ainda: Viabiliza também a expansão do exercício da Psicanálise para um público leigo, esteticamente legitimando até mesmo pessoas sem nível superior de formação que já abrem clínicas e se auto-intitulam psicanalistas.
Religião, formações e distorções do ofício psicanalítico
Como Freud, em sua época, mantinha relacionamento de trocas de ideias com estudiosos de várias áreas do conhecimento — principalmente no campo das ciências humanas, incluindo até pastores que com ele estudavam — hoje houve um grande aumento no contingente de pastores evangélicos que buscam a Psicanálise como ferramenta para se estabelecerem enquanto referências de tratamento emocional às pessoas de sua cultura religiosa. Assim, garante-se que aquele “psicanalista” ligado à igreja não vai desviar a fé do fiel e ministrará um tratamento que não questiona tal prática. Isto ocorre porque, no bojo da obra de Freud, a religião sempre foi um tema crítico que coloca seu autor como inimigo da religião aos olhos de muitos da prática judaica e cristã. Vale ressaltar que a Psicanálise, na sua essência, não vai questionar a religião em si ou as convicções do indivíduo, mas o que o sujeito busca e como ele deseja se preencher na sua prática religiosa.
Quando recebo pacientes que trazem trajetórias de sujeição a tratamentos psicanalíticos vindos de líderes religiosos, automaticamente sei que terei muito conflito em potencializar o recurso analítico de interpretações — que consiste na pessoa em análise ter epifanias a partir de suas próprias falas, elaborando por conta própria suas demandas internas com cautela — por saber que estes estavam com pseudo profissionais e ainda buscam orientação, solução ou luz que venham de fora para dentro.
Formações sérias, regulamentação e recomendações finais
Por outro lado, temos múltiplas escolas de Psicanálise que apresentam uma estrutura institucional e regimental bem definida, com integrantes que passam por uma formação que não se dá na forma de aula, mas no processo de vivenciar a prática. Analisar, ser analisado, estudar entre os parceiros deste coletivo, participar de seminários, grupos de leitura, escrever artigos e encontros de cartéis temáticos por interesses comuns, entre outras atividades. Desta maneira, podemos dizer que estaremos diante de uma pessoa que está inserida no contexto da Psicanálise e até evoluindo para ser um psicanalista, o que representa alguém que exerce a teoria e técnica dentro de uma perspectiva ampla.
Lembrando que a Psicanálise também é ramificada em múltiplas abordagens e correntes que vão desde os freudianos aos pós-freudianos, lacanianos e, inclusive, aqueles que partiram para um processo grupal, como elaborou os seguidores da Psicanálise Bion. Há uma miríade de escolas, incluindo americanas, inglesas, francesas, argentinas, e, no Brasil, já podemos entender que está se multiplicando em várias estratificações. O que leva a maiores dilemas ainda, pois quem pode dizer que esta ou aquela forma de vivenciar o processo de formação do psicanalista é a mais correta?
Muitas escolas de Psicanálise não se comunicam umas com as outras e até se questionam, algumas chegando até a se atacarem. Porém, se o profissional que se sente psicanalista estiver realmente vinculado a uma instituição de Psicanálise que tenha história e procedimentos claros e bem definidos, é um atenuante substancial. O dilema maior está nos que se auto-intitulam psicanalistas por terem feito um cursinho aos finais de semana por um tempo.
Eu mesmo, quando procuro um profissional para me analisar, escolho um profissional graduado em Psicologia e que atue com a Psicanálise para não correr o risco de me sujeitar a um não-profissional sem regulamentação. Mesmo que seja um profissional que se auto intitule psicanalista, procuro saber se possui inscrição no Conselho Regional de Psicologia, justamente pelo fato de que a Psicanálise não é profissão regulamentada, mas sim uma metodologia.
Hoje, o Conselho Federal de Psicologia está numa campanha ampla de defesa da psicoterapia para profissionais da Psicologia. Isto ocorre devido ao fato de muitas outras profissões estarem oferecendo propostas diversas de psicoterapias por ser um nicho de mercado em alta em uma Sociedade cada vez mais adoecida emocionalmente. Assim, é preciso termos regulamentação clara na forma da lei, pois temos neste país a forte tendência de cada um se achar no direito de atuar da forma que melhor entender.
Veja que essa demanda acontece também com profissionais de diferentes áreas, como educadores físicos, fisioterapeutas, engenheiros, e até médicos. Vemos profissionais exercendo procedimentos especializados fora de suas áreas nativas pela oportunidade que se apresenta diante de uma demanda ampla, numa dinâmica que seria equivalente a um profissional da Psicologia prescrever medicação psiquiátrica aos seus pacientes.
Diante do que trago como dilema da Psicanálise no Brasil, a indicação que faço é que, quando você for procurar um psicanalista, o faça buscando um profissional da Psicologia que manuseie a Psicanálise como teoria e técnica. Pelo menos, isso reduzirá consideravelmente as chances de que você caia nas mãos de um agente que parece um profissional, mas não é.
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Psicanálise Contextualizada 11/04/2025 15:27:56 2010
O que é a Psicanálise? É a teoria criada por Freud que, aolongo dos anos, foi sistematizando conceitos e procedimentos do exercícioclínico, tendo seu marco zero reconhecido na publicação do livro A Interpretação dos Sonhos, de 1900.Porém, antes mesmo, Freud já estavaconstruindo a teoria para estruturação de uma técnica e, de lá para cá, aPsicanálise se consolidou como uma das muitas metodologias e...
Psicanálise Contextualizada 12/03/2025 13:56:09
Minha trajetória com a psicanálise iniciou-se com Freud e os pós-freudianos Melanie Klein e Winnicott. No entanto, há pouco tempo comecei a visualizar novas possibilidades para o meu exercício profissional, dentro da perspectiva lacaniana.
Entro em Lacan através do “De um Outro ao Outro” (livro 16)¹. Após a leitura deste seminário, posso dizer que Lacan já habita meu fazer psicológico, tanto para a clínica quanto para meu processo analítico pessoal, sem deixar de fazer vínculo desta teoria com o social, uma demanda que o próprio Seminário 16 como cordas para puxar. Esse processo se deu ao participar do Coletivo Psicanálise & Cultura de Vila Velha – ES, ao longo dos dois anos consecutivos de estudo em Cartel.
O objeto a e suas implicações na clínica psicanalítica
Aqui, gostaria de pontuar um tópico específico que diz respeito à clínica psicanalítica, embora o Seminário 16 tenha feito emergir muitos outros tópicos e deixado lastros para novas elaborações.
Lacan aponta que “A essência da teoria psicanalítica é um discurso sem fala” (LACAN, 2008, p. 14), o que já introduz um nó em minha mente, fazendo-me questionar: ‘O que estou fazendo aqui?’. Porém, com esse quase enigma, vemos um desfecho na construção do objeto a, no qual Lacan, ao longo deste Seminário, vai criando referenciais comparativos e analogias. E, falando de analogias, , “...a conta certa para nos fazer perceber que não é o significado que está no interior, mas exatamente o significante. É com ele que lidamos quando se tratar daquilo que nos importa, isto é, da relação do discurso com a fala na eficiência analítica” (LACAN 2008, p.16).
Lacan traz a homologia da mais-valia em Marx e do que ele mesmo define como o mais-de-gozar: “É de um nível homólogo calcado em Marx que partirei para introduzir hoje o lugar em que temos de situar a função essencial do objeto a” (LACAN, 2008, p. 16). Em Marx, Lacan situa a mais-valia a partir da absolutização do mercado, que marca a prevalência da lógica do valor, e para a Psicanálise, o mais-de-gozar, que marca a prevalência da linguagem: “O mais-de-gozar é uma função da renúncia ao gozo sob o efeito do discurso. É isso que dá lugar ao objeto a (...) assim, o mais-de-gozar é aquilo que permite isolar a função do objeto (a)” (LACAN, 2008, p. 19). Ou seja, essa função do objeto a é homóloga à da mais-valia; nesse sentido, ambas geram um movimento contínuo de furto de satisfação, que se desdobra em um movimento incessante de produção e falta.
A ética no exercício psicanalítico: Entre o Furo e a Transferência
Ao longo do seminário, Lacan nos conduz a diferentes percepções de estruturas que nunca conseguem chegar a um fechamento definitivo, deixando-as sempre em aberto, colocando em prática o próprio furo de que ele tanto fala. Assim, Lacan relaciona a psicanálise com a aposta e o jogo, quando se refere a Pascal, quando explora a relação infinita entre o 1 e o 2 na matemática, e quando aponta para aquilo que é a falta, evidenciada pelas instituições de poder. Porém, para cada referência neste processo de construção, abre-se um leque enorme de possibilidades. Mas, aqui, quero simplesmente conduzir essa reflexão ao desfecho sem fim da proposta de Lacan neste seminário, trazendo o que considero uma cartilha de conduta analítica, que entendo como ética no exercício psicanalítico:
“...devemos admitir que somente a repetição é interpretável na análise, e é isso que tomamos por transferência. Por outro lado, o fim que aponto como a captação do próprio analista na exploração do a, é exatamente isso que constitui o ininterpretável. É por isso que interpretá-la, como já se viu, como foi até impresso, é, propriamente, abrir a porta, convidar para esse lugar do acting out.” (LACAN 2008, p. 338)
Estudar o Seminário 16, entendendo que este pode ser uma porta escancarada para adentrar em Lacan, proporcionou-me a possibilidade de perceber que meu próprio processo analítico estava se dando como uma demanda de postura profissional, de estar em análise. Como podemos entender que a formação do analista se dá no estabelecimento de laços de trabalho, o “De um outro ao outro” me coloca na posição de ir para a minha própria análise, pensando no furo e rastreando onde habita o objeto a em mim, em um processo contínuo de interpretações nas duas instâncias que se comunicam: analista/analisando. Na configuração em torno do Seminário 16, Lacan nos aponta uma ética para o processo analítico:
Nesta citação de Lacan, podemos fazer um retorno a Freud, quando, ao ler o caso clínico de Dora², desenvolve uma reflexão/avaliação de sua atuação, no qual ele posiciona a psicanálise de uma maneira que, a meu ver, fala sobre a ética do psicanalista:
Neste sentido, em ambos os casos, me parece que está em questão escutar sem pressupor nada, deixando que a própria significação daquilo que é ouvido, falado e visto advenha dos encadeamentos significantes da narrativa do analisante.
O Cartel 16, como anotei em minha agenda, não se fecha, escancara ainda mais a porta para o mergulho no Real, Simbólico e Imaginário, que é constantemente preconizado na obra de Lacan. Lacan nos transporta para essa dimensão quando apresenta a imagem da maçã, na relação entre Adão e Eva, ao desenvolver a representação de S1, S2 e a: “...A mulher, aqui em S1, que se faz causa do desejo, a, é o sujeito de quem convém dizermos que, com a oferta, conseguiu criar a procura. O homem nunca morderia essa história, se primeiro não lhe oferecessem a maçã, ou seja, o objeto a” (LACAN, 2008, p. 381). Já que “consumir” a maçã é o mesmo que “renunciar” a algo tão grandioso e completo quanto o paraíso.
De nó em nó, algumas poesias³ brotaram a partir do estudo de Lacan, dentre elas, uma que dialoga com essa minha construção e na qual encerro esta apresentação.
Um nó
Pulso no desejo que busco,
Busco no encontro do outro,
Encontro-me no que não encontro.
Continuo vagando em busca do gozo
Deste gozo que não goza,
Mas pulsa o desejo de gozar.
Caio no vazio de um existir,
Suplico que alguém possa me vir,
E ao chegar consiga entrar em mim.
Ao chegar de algum lugar este alguém,
Ao se apresentar não vejo ninguém.
Nego encontrar-me
Espero no além.
Restabeleço nova busca,
Novo impulso me conduz
Aos prazeres que nunca encontro.
Saio do real.
Adentro no imaginário
E continuo simbolizando.
(ABARCA, 2024, p.83)
REFERÊNCIAS
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1 LACAN,Jacques. O seminário, livro 16: de um outro ao outro. Rio de Janeiro: Zahar, 2008.
2 FREUD, Sigmund. Histórias Clínicas - Cinco casos paradigmáticos da clínica psicanalítica. Belo Horizonte: Autêntica, 2021. (Obras incompletas de Sigmund Freud)
3 ABARCA, Gerson. Outono. Vitória: Outras Falas, 2024.
* Este texto possui uma abordagem mais técnica e está voltado para os referenciais da clínica psicanalítica, diferenciando-se um pouco dos textos que geralmente publico aqui no site. Normalmente, priorizo o leitor leigo em psicologia e psicanálise, buscando apresentar a teoria e a prática de forma menos técnica. Neste caso, porém, o texto traz uma especificidade teórica e técnica, com o intuito de despertar o interesse daqueles que não são da área a se aproximarem da leitura dos pensadores da psicanálise. Ao mesmo tempo, compartilho o trabalho desenvolvido em grupos de parceiros, evidenciando o compromisso com a qualidade e a ética do meu exercício profissional.
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Psicanálise Contextualizada 12/03/2025 13:56:09 1037
Minhatrajetória com a psicanálise iniciou-se com Freud e os pós-freudianos MelanieKlein e Winnicott. No entanto, há pouco tempo comecei a visualizar novaspossibilidades para o meu exercício profissional, dentro da perspectivalacaniana. Entroem Lacan através do “De um Outro ao Outro” (livro 16)¹. Após a leitura desteseminário, posso dizer que Lacan já habita meu fazer psicológico, tanto para acl...
Psicanálise Contextualizada 03/06/2024 15:13:56
No dia 09 de Junho de 2024, comemoro 60 anos de idade. Cheguei na faixa etária de idoso ou começo a trilhar o caminho de um ancião? A única certeza é que poderei fazer uma carteira preferencial para poder estacionar em vagas de idosos e pagar meia-entrada em eventos pagos, tendo também o privilégio de filas especiais. Apesar de que, no caso das filas, este benefício já não está sendo muito vantajoso, uma vez que o quantitativo de cidadãos acima dos 60 anos de idade tem aumentado, tornando tais filas igualmente longas em certos casos.
Pensar em ser idoso, neste país, é uma referência que depende do histórico de trabalho e seus desgastes físicos; depende das condições financeiras de quem chega aos 60 anos; depende de onde mora, do que come, quais e quantos benefícios pôde usufruir até chegar nesta idade.
No meu caso, que há 33 anos atuo como Psicólogo que pouco se desgasta fisicamente em função deste trabalho, não encara sol, chuva e serviço braçal, usufruir de privilégios dos 60 anos é um contrassenso comparado a uma pessoa que sempre trabalhou com a força física e sujeita às intempéries climáticas. Mas, aqui, entra tanto uma questão de demanda política (aposentadoria, planos de saúde, etc) quanto, de alguma forma, no embate da pauta dos costumes, na qual as profissões vão se digladiar defendendo o desgaste existente em cada ofício conforme suas necessidades. A partir desta visão, para este texto, quero simplesmente refletir o conceito de Idoso e Ancião. E, a partir destes conceitos, propor uma reflexão sobre a questão da construção de expectativas emocionais a partir dos 60 anos como marco referencial.
Expectativas emocionais a partir dos 60 anos
Hoje mesmo, uma pessoa de 50 anos me disse que tem pavor de se pensar chegando aos 60, também duvidando da minha idade a partir da percepção de que me encontrava muito jovial. Esta pessoa, funcionária técnica de enfermagem em hospital público que trabalha desde os 18 anos na área, já se aposentou mas precisa continuar trabalhando em meio aos desgastes físicos dos múltiplos plantões hospitalares e também sofrimentos emocionais por presenciar mortes, situações de sofrimentos e um sistema de saúde precário para se trabalhar. Aos 50 anos, ela, de fato, já estava sentindo o peso de seu trabalho. Porém, eu, me expus muito pouco aos pesos do meu ofício e, consequentemente, tive condições de chegar aos 60 anos de idade com uma jovialidade física melhor.
Lógico que, para cada caso, uma realidade. Mas, no geral, quem mais vai sofrer o peso da idade são as profissões que requerem esforço contínuo, sem muita autonomia de ação e que estão sujeitas a regras pré-estabelecidas por terceiros. Sendo assim, esta ideia de igualar aposentadorias como se todos trabalhassem com os mesmos desgastes, é uma balela que ainda estamos muito longe de ver superada.
Mas vamos ao ponto.
Idoso...
Idoso é um representativo de algo que está ficando desgastado. É uma referência de algo que foi usado (inclusive dentro de uma perspectiva mercantilista) nesta sociedade cuja força-motriz é a Produção. Uma simbologia ocidental para entrar na curva declinante da existência. E, em muitas situações, uma peça descartada. É fácil percebermos isso diante do cenário de empregabilidade, no qual uma pessoa com 60 anos que se encontra desempregada e necessita continuar trabalhando (como é a maioria esmagadora de nossa sociedade), terá maior dificuldade de conquistar uma vaga ao enfrentar filas para entrevistas de emprego. Nesta condição, o desenvolvimento emocional para enfrentar a vida de idoso também vai seguir o mesmo desgaste, com o surgimento de sintomas do envelhecimento e uma baixa autoestima associada até com sentimentos de angústia e/ou pânico quando se projeta o futuro de uma morte cada vez mais próxima.
...ou ansião?
Ancião, por sua vez, remete a alguém que carrega uma história e que é visto como uma referência de memória, seja na família, na comunidade e no trabalho/profissão. O Ancião guarda a ancestralidade de um povo e de uma nação. Colocado em um patamar elevado dentro de uma comunidade indígena, para ser a preservação de um povo. Assim também são os Griôs em muitas comunidades e/ou territórios do continente africano, os quais têm pessoas anciãs contadoras de histórias, rememorando ancestralidades. E as poucas empresas que cultuam seus anciões, que deram origem ou fazem parte do corpo de trabalhadores na história da empresa, terão perspectivas perenes, mesmo sendo uma ocorrência rara num mercado financeiro de metas e produtividades competitivas. Na perspectiva Anciã, o desenrolar emocional configura em uma relação saudável com a conquista dos anos, pois será alguém necessário, referendado. Assim, a idade não implica em problema, pelo contrário: é algo que cria um devir, um desejo de alcançar.
A verdade da preservação da ancestralidade de um povo pode ser observada na História do Brasil, a qual, mesmo marcada por centenas de anos de dizimação de indígenas e grupos étnicos do continente africano, é permeada por povos e culturas que resistem e insistem, visto que seus anciãos continuam sendo referendados.
Chego aos meus 60 com um enorme desejo de alcançar idades mais avançadas para degustar o prazer de ser referência anciã no que desenvolvo. Entro nos 60 com projetos audaciosos e a noção de que colherei frutos para além dos meus 90. Não sou um Ancião por conta dos meus 60, mas começo a me organizar desde já para atingir este patamar. Começo meus 60 anos como se estivesse começando tudo do princípio e daí me renovo. O sintoma da minha idade é o desejo de desejar sempre.
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Psicanálise Contextualizada 03/06/2024 15:13:56 2643
Nodia 09 de Junho de 2024, comemoro 60 anos de idade. Cheguei na faixa etária deidoso ou começo a trilharo caminho de um ancião?A única certeza é que poderei fazer umacarteira preferencial para poder estacionar em vagas de idosos e pagar meia-entrada emeventos pagos, tendo também o privilégio de filas especiais. Apesar de que, nocaso das filas, este benefício já não está sendo muito vantajoso, um...
Psicanálise Contextualizada 27/10/2022 10:34:54
Este texto foi escrito em comemoração aos 30 anos de vida do meu filho mais velho, Samuel Iauany.
A chegada dos 30 anos de vida marca um momento de extrema importância na vida humana que é, ao menos dentro de estimativas e expectativas, o encontro com a plena maturidade biológica, psíquica, social e espiritual. Sabemos que nosso existir é traçado por etapas dentro de vários aspectos do desenvolvimento biológico, emocional e cognitivo, partindo da primeira infância e cruzando um trajeto marcado por segunda infância, pré-adolescência, adolescência propriamente dita, juventude, vida adulta até a fase idosa e a morte. A média de vida humana no Brasil é de 78 anos para mulheres e 74 anos para homens.
Nossa, chegou. Ufa!
Uma boa sensação por ver um filho chegar aos 30 anos. E chegar vivo, visto que muitos não conseguem fazê-lo por motivo de morte prematura. Depois, de notar como está, se autônomo ou ainda tentando um lugar ao sol num cenário brasileiro de jovens sem emprego, sem possibilidades de estudar e sem perspectivas profissionais.
Depois, se escolheu constituir família ou não, qual a condução de vida que construiu. Assim, a percepção de que aquilo que, como pais, projetamos desde o nascimento para o futuro deles, e que agora já possui a sua própria posição e escolhas. E se deparar com as escolhas do filho que podem não ser as mesmas escolhas do pai. Enfim: Reconhecer o distanciamento natural da maioridade plena, pontuada pelo fim da juventude aos 29 anos e pela plena possibilidade de assumir seus próprios atos.
30 anos e a plena entrada na vida adulta!
Eis que temos um legado da tradição judaico-cristã que nossa Sociedade absorveu com o Cristianismo: Jesus Cristo, um Judeu que, na sua tradição, podia assumir a vida pública a partir dos 30 anos. E é por este motivo que toda a narrativa cristã, a partir dos Evangelhos, descreve a saga de Jesus só a partir dos 30 anos, tendo um único fragmento de Jesus aos 12 anos, narrado na passagem de Jesus no templo pelo Evangelho de São Lucas pela caracterização também judaica do término da infância.
Nesta tradição, os trinta anos representam, de fato, a plena entrada na vida adulta. Agora já não é mais filho, mas um adulto que segue plenamente suas escolhas.
Se esta percepção é entendida pelos pais nesta nova etapa de vida do filho adulto, que já não precisa mais de um pai (principalmente se este já for pai também), o motivo de celebrar os 30 anos do filho se torna de puro agradecimento e plena felicidade. No entanto, se nesta etapa, o controle existencial sobre as escolhas do filho, seus atos e até sua situação financeira ainda bate à porta dos pais, os 30 anos passam a representar a angústia da perda e da morte. Principalmente se o filho assumiu seu projeto de vida e conseguiu se desvencilhar do pai.
Celebro a chegada dos 30 anos do meu filho Samuel em pleno momento em que, na campanha presidencial de 2022, há forte proposta da redução da maioridade penal de 18 anos para 16 e 17 anos por parte de um dos candidatos sob o argumento de que possa diminuir a violência no Brasil. Uma falácia que só trará ainda mais para baixo a busca por adolescentes para que entrem no crime (os de 14 e 15 anos) - Busca esta arquitetada por adultos que usam a juventude como massa de manobra no crime organizado. Tipo: “A culpa é dos jovens”.
E aqui aponto esta questão, visto que ela faz enorme diferença no processo de condução de crianças e jovens para chegarem a plena maioridade aos 30 anos, pois inverte-se as responsabilidades, jogando para aqueles que ainda estão em processo de formação, antecipando forçosamente responsabilidades para quem ainda não está plenamente amadurecido para tal.
Tal fator só fará o Estado se ausentar de suas responsabilidades de cuidar da juventude de seus cidadãos e de seu dever em dar-lhes totais condições para sua evolução natural até a plena maturidade, a tirando da cena do crime e colocando na Escola. Esta bomba no processo educacional dos filhos vai sobrar para a esmagadora maioria empobrecida. O filho de quem vai ficar preso? Do pobre, ou do rico? E aos que possuem estrutura econômica de proteger seus filhos, vai acentuar ainda mais o protecionismo educacional e, consequentemente, o processo de extensão do período maturacional dos mesmos.
Se o filho chega aos 30 anos, qual seria a melhor posição de um pai?
De não vê-lo mais como filho, na condição de quem ainda precisa de cuidado. Mas, sim, enxergá-lo como um amigo. Um parceiro na caminhada. Deixar de ser filho, pela genética, é impossível. Filho sempre será. Mas, na condição de proteção, o filho morre. Pode-se, para que esta elaboração seja melhor entendida, nominar que nasce um amigo/filho.
Lógico que será parceiro de caminhada se, na história de tal caminhada, o pai se fez parceiro. Se não se colocar presente e ao lado até chegar à plena vida adulta, provavelmente o pai ficará na mão, perderá o filho de qualquer maneira e ainda perderá a oportunidade de tê-lo como parceiro de caminhada.
Ao chegar aos 30 anos, um filho ainda não se sente maduro o suficiente para assumir a sua plena vida adulta. E isto já pode ser um sintoma de não-evolução. Lógico que, para toda a regra, há exceções, especialmente se tratando de processos educacionais e de vidas humanas. Aqui, o tempo por muitas vezes, é relativo. Porém, não podemos perder de vista o que é minimamente esperado no processo de formação do ser humano.
Em 28 de outubro de 2022, Samuel Iauany, que completa seus 30 anos, vem para meu referencial como um amigo, parceiro de caminhada. Pai da Luna e companheiro da Gabriela. Uma outra família que se estabelece e na qual desejo continuar unido nos vínculos afetivos.
Agora, mais uma família nesta configuração social em que ter famílias amigas ao redor é sempre bom.
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Psicanálise Contextualizada 27/10/2022 10:34:54 1396
Este texto foi escrito em comemoração aos 30 anos de vida domeu filho mais velho, Samuel Iauany. A chegada dos 30 anos de vida marca um momento de extremaimportância na vida humana que é, ao menos dentro de estimativas eexpectativas, o encontro com a plena maturidade biológica, psíquica, social eespiritual. Sabemos que nosso existir é traçado por etapas dentro de vários aspectos do desenvolvime...
Psicanálise Contextualizada 11/08/2022 11:09:39
O dia cinco de agosto de 2022 ficou triste pelo falecimento de Jô Soares, mesmo antes de sua morte ele tendo pedido que, ao morrer, aqueles que o consideram celebrassem o dia fazendo um brinde. Não podia deixar de ser uma indicação de um Humorista por vocação, que o dia de sua morte fosse momento para festejar. Aqui, quero apenas registrar minha homenagem ao Jô descrevendo três importantes ensinamentos dele que levo para a minha vida e que, de alguma forma, pautaram a construção de minha carreira profissional.
Valorizar o riso, a alegria
Ainda na minha adolescência, entre 1981 a 1985, desenvolvi personagens de humor para apresentar em eventos de grupos de jovens, dos quais participava pela Igreja Católica da Paróquia de São José do Rio Pardo-SP, onde me inspirava nos personagens do Jô, pelo programa “Viva o Gordo” na TV brasileira. Não perdia um. E, até hoje, quando sou solicitado para ministrar palestras de Psicologia, sempre faço umas tiradas engraçadas, às vezes até desenvolvo umas falas caricaturadas. Sempre dentro de um humor contextualizado, que fala, conscientiza. O Humor de Jô Soares sempre teve uma conotação reflexiva, nunca era humor pelo humor apenas. Mas sim, as reflexões, mesmo com uma conotação crítica, ficavam suaves.
Ser um leitor de conteúdos diversos, sede de conhecimento.
Jô Soares se colocava nas suas diversas formas de se apresentar, Humorista, Apresentador, Escritor, Músico, etc, como uma pessoa que pautava sua postura profissional pelo conhecimento. Gente, o cara lia de tudo e conhecia muito de muita coisa. Não era um especialista, mas um sujeito que passou para mim a ideia de “sede de conhecimento geral”. Por isso, ao se tornar apresentador, conseguiu fazer uma longa carreira com um grande público, pois sabia entrevistar como ninguém. Vejam a longa data do programa “Jô Soares Onze e meia” e depois “Programa do Jô”, que percorreram entre 1988 a 2016.
A Psicologia requer uma grande habilidade em entrevistar pessoas, por isso é uma profissão que se aproxima muito do Jornalismo. Neste sentido, pautei minha construção profissional buscando informações gerais, sempre durante a Universidade (UNESP de ASSIS-SP) assinei jornais de circulação nacional e os lia diariamente, assim como sempre tracei metas de leituras de livros mantendo diversidade de temas, desde os acadêmicos, aos espirituais e literários. Atender em Psicanálise um diversificado público requer amplo conhecimento geral, se não nossa escuta fica “manca”. E o Jô sempre foi uma referência quando eu tinha aqueles momentos de querer ficar de papo pro ar sem, ler nada, sem estudar, coisa que ficou mais desafiadora com a emergência da internet na palma da mão.
Ser múltiplo
Este ensinamento é um dos principais, pois no programa “Jô Soares Onze e Meia”, que nunca começava no horário, um de seus entrevistados - que não lembro quem agora - perguntou ao Jô como ele conseguia fazer várias coisas diversificadas ao mesmo tempo. E ele deu uma resposta que passou a ser um mantra para a minha vida, ele disse que não fazia diversas coisas, mas que fazia uma única coisa que é a comunicação. Disse ao entrevistado: “...sou uma pessoa da comunicação (...) a diferença é que comunico de diferentes formas...”. Desta resposta, procurei sempre fazer muitas coisas diferentes, potencializar múltiplas habilidades e na minha profissão me especializei em três áreas que aparentemente são distintas: Clínica pela Psicanálise, Educacional e Gestão de Pessoal-Organizacional, mas que na verdade são uma mesma coisa, a Psicologia. Tudo bem que atuo com muito foco na clínica, porém com amplo conhecimento nas três áreas. Hoje, inclusive, criei um método para acompanhamento de executivos, que denomino “Psicologia das Múltiplas Competências”
Sem dúvida, Jô Soares é uma destas personalidades que sempre esteve fora da curva, a meu ver, um gênio. O Brasil perde a sua presença, mas terá o legado de sua obra marcado na história. Ainda degustaremos por muitos anos os ensinamentos de Jô Soares.
De onde você estiver Jô Soares, rogai, olhai por nós. Muito obrigado por tudo!
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Psicanálise Contextualizada 11/08/2022 11:09:39 1525
O dia cinco de agostode 2022 ficou triste pelo falecimento de Jô Soares, mesmo antes de sua morteele tendo pedido que, ao morrer, aqueles que o consideram celebrassem o diafazendo um brinde. Não podia deixar de ser uma indicação de um Humorista porvocação, que o dia de sua morte fosse momento para festejar. Aqui, quero apenasregistrar minha homenagem ao Jô descrevendo três importantes ensinament...
Psicanálise Contextualizada 07/03/2022 18:22:56
O Dia Internacional da Mulher, a meu ver, precisa sempre iniciar com o “Silêncio Orante” pelas 130 mulheres que foram assassinadas dentro de uma fábrica têxtil, pois em 8 de março de 1911 na cidade de Nova York, enquanto as operárias faziam protesto dentro da fábrica por melhoria das condições de trabalho, sendo que a média diária de trabalho era de aproximadamente 14 horas por dia ininterruptamente, homens ateavam fogo por fora da fábrica, com as portas trancadas. Elas morreram asfixiadas.
Luto pelos milhares de mulheres que continuam sendo vítimas do feminicídio que é generalizado em todo o planeta. No Brasil de 2020 foram aproximadamente 648 mulheres assassinadas, representando um aumento de quase 2% em relação a 2019.
Celebrar é necessário, mas antes mesmo é necessário memorizar a história para ter significado de luta, para avançar na construção de uma sociedade com equidade entre mulheres e homens em todos os âmbitos e em todos os lugares. Temo, e fico com um “pé atrás”, quando vejo lojistas, mídia e jornalismo, trazendo uma maquiagem falseada de promoções, prêmios e paetês em torno deste dia. Uma isca do capitalismo de consumo em uma questão sócio crítica de luta.
Mulheres Negras
Aqui, remeto-me às reflexões de pensadoras negras no atual contexto da luta por uma sociedade antirracista, como as reflexões de Djamila Ribeiro, Ângela Davis, beel hooks e Lélia Gonzales, dentre muitas outras.
Estava esperando no semáforo de uma avenida da cidade de Vitória/ES onde resido, indo para minha clínica bem cedo, e observei um grande número de mulheres descendo de um coletivo e atravessando a faixa de pedestre. Logo entendi que se tratava de empregadas domésticas provenientes de bairros periféricos da cidade para trabalharem nas residências de suas mulheres patroas, pois logo ao lado havia um condomínio de muitos prédios de classe A, com cinco prédios de aproximadamente 20 andares, cujos apartamentos são avaliados em torno de um milhão e duzentos mil a um milhão e quinhentos mil. Consegui contar quantas mulheres eram negras e quantas eram brancas. Fiz uma amostragem indicada pelo Pesquisador e escritor Silvio Almeida, que em seu livro “Racismo estrutural” nos ajuda a perceber o racismo no Brasil. Mesmo tendo sido vendida, ao longo de nossa história, a ideia de que no Brasil não há racismo, Almeida indica fazermos esta breve contagem por percepção fenotípica. Nesta minha contagem no semáforo, observei entre 11 mulheres, 9 negras e 2 brancas, 81%. Lógico, que é uma percepção hipotética, contudo, supus serem trabalhadoras domésticas, Já que não seriam executivas descendo de um coletivo as 06h30min da manhã, chegando antes das 7h da manhã, para liberarem suas patroas para irem também o trabalho. As domésticas, com máscaras, saíram provavelmente entre 5h a 6h de suas casas, deixando seus filhos sabe-se lá com quem, num coletivo abarrotado de trabalhadores. As patroas, na sua quase totalidade, acredito, de carro e sem máscaras.
Nesta cena, pensei sobre o quanto que ser Mulher Negra neste país pesa absurdamente mais do que o ser Mulher em si.
As pensadoras e pesquisadoras negras emergentes na atualidade, principalmente as que militam na causa do feminismo negro, entendem que, na pirâmide de exclusão social, a mulher negra está no último escalão, sendo primeiro o homem branco, depois a mulher branca, depois o homem negro e depois a mulher negra. Com certeza, se formos acompanhar os ambientes de trabalhos das patroas das trabalhadoras domésticas, veremos que a proporção de mulheres brancas em relação às negras se inverte, quando comparada ao ambiente de trabalho doméstico. Veja você mesmo nos bancos, nas universidades, e inclusive nas escolas particulares, veremos um índice proporcional de quase 90% de mulheres brancas contra 10% de mulheres negras. É sempre bom lembrar que, no Brasil, 60% da população é afrodescendente.
Machismo Pessoal
Tenho dirigido muito, tanto na cidade como nas estradas, por conta do trabalho. Recentemente, percebi o meu machismo (é evidente que ele não aparece só nesta situação), coisa que tenho tentado fazer após ler o próprio Silvio Almeida dentro das demandas de práticas enraizadas na cultura que ele nomina de Estrutural, e associado a uma série de artigos e livros que tenho pautado meus estudos para a Clínica Psicológica em torno do machismo. Parto da indicação de não ter medo de se ver manifestando comportamentos machistas, pois a tendência dos homens é de negar o machismo. Eu me pego todos os dias em cenas machistas, e isso tem ajudado a me posicionar na construção do antimachismo e acredito que tenho melhorado. Hoje mesmo minha esposa disse que já melhorei muito nas minhas posturas machistas, e olha que ela é militante das causas feministas. Mas vamos à cena:
Estava na estrada em direção à cidade de Linhares/ES onde tenho uma clínica psicológica, e um veículo estava andando na velocidade, a meu ver lenta, e eu fiquei preso atrás deste veículo por um longo trecho que não permitia ultrapassagem, o que estava me deixando ansioso e irritado, pois tinha horário para começar a atender. Ao conseguir ultrapassar este veículo, dou uma buzinada reclamando, e, no veículo, quem dirigia era uma senhora, que desceu o vidro e deu um sorriso. Mas logo pensei em voz alta “Só podia ser mulher”. Este é um machismo estrutural, a noção de que os homens dirigem melhor que as mulheres e elas são “barbeiras” no volante. Mas depois pensei sobre este meu ato.
É um machismo estrutural, pois me lembro de uma cena na relação com meu pai que, dentre centenas de cenas machistas dele que presenciei, esta é uma clássica: estava varrendo a cozinha de casa a pedido de minha mãe que sempre colocava os filhos para fazer atividades de cuidado da casa. Minha mãe preparando a comida do almoço, e sempre meu pai chegava no horário certo para almoçar. Mas neste dia que estava varrendo a cozinha, meu pai resolveu chegar mais cedo e ai foi um inferno ao me ver varrendo a cozinha. Ele logo foi atacando a minha mãe dizendo: “Você vai deixar este menino ‘boiola’ (homossexual)”. Olhou para mim e disse: “sai daqui menino, vai brincar”. Eu achei ótimo, pois depois disto, nunca mais fiz nada na casa de minha mãe. Mas herdei um machismo estrutural que hoje custa muito caro para mim.
Esta parece uma cena ridícula de tão simples que é, mas o machismo é uma força comportamental coletiva que se fortalece pelas inúmeras e centenas e milhares de cenas mínimas como esta, que vai formando um conceito no modo de viver dos homens na sociedade e vai se avolumando até chegar no feminicídio coletivo.
Nesta posição de reconhecer o machismo estrutural, tenho indicado ações para homens tanto no ambiente familiar como no trabalho, no sentido de buscarem mecanismos de auto percepção do machismo pessoal e também de fazer ações de parceria com as mulheres. É muito comum, nós homens, que vivemos em um casamento dizermos com frequência que ajudamos nossas companheiras nas tarefas de casa, o que já é uma expressão machista. Ajudamos ou fazemos juntos?
Celebrar
Diante de um cenário nada animador, poderíamos dizer que as mulheres tem muito pouco a celebrar. Mas mesmo diante das adversidades, e das muitas conquistas que ainda estão por vir para as mulheres galgarem a equidade de direitos em relação aos homens, vale a pena celebrar sim. Celebrar as muitas conquista já realizadas.
Lembrei-me da célebre frase de Che Guevara: “Há que se manter na luta sem perder a ternura”. Por isto, vamos celebrar sim, com alegria, mais um Dia Internacional da Mulher, sem perder a utopia, o sonho e a esperança da conquista da tão sonhada equidade de direitos.
Feliz dia Internacional da Mulher !
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Psicanálise Contextualizada 07/03/2022 18:22:56 1312
ODia Internacional da Mulher, a meu ver, precisa sempre iniciar com o “SilêncioOrante” pelas 130 mulheres que foram assassinadas dentro de uma fábrica têxtil,pois em 8 de março de 1911 na cidade de Nova York, enquanto as operárias faziamprotesto dentro da fábrica por melhoria das condições de trabalho, sendo que amédia diária de trabalho era de aproximadamente 14 horas por diaininterruptamente, h...
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