Psicanálise Contextualizada 20/03/2026 08:00:34
A entrada na fase da “adolescência propriamente dita” é o momento de criar conflitos. Neste tempo, o perfil “normal” é aquele que provoca e confronta. E é aí que o bicho pega, pois os adultos, em sua grande maioria, não conseguem (ou não querem) entender os motivos pelos quais este comportamento aparece com recorrência esmagadora dentre os adolescentes. No caso daqueles que não querem entender, isso se dá principalmente porque já passaram pela adolescência e conheceram muitas das coisas que geram conflitos com os adolescentes em seus meios de convivência (familiar, educacional e social). Interpretam como uma ideia que passou, foi uma fase e já não vale a pena lembrar. No entanto, os adolescentes presentes no aqui e agora vivenciam estas mesmas fases em novos contextos, cenários, condições sociais e realidades culturais, geográficas e territoriais. E é aí que surge a pergunta: Por que então dos conflitos e da necessidade de conflitar?
A construção da identidade e o rompimento com a infância
Exatamente porque chegou o tempo de construir uma identidade que, até então, estava sobre o auspício dos adultos. Lembram de quando levavam os filhos ainda criança para lá ou para cá, e eles apenas iam? Agora, tchau, “vai que eu não vou...”. Como passamos doze anos de nossas vidas na infância e mais dez a doze na adolescência até chegarmos na vida adulta, este processo de transição e busca da própria identidade é mais do que necessário.
Desconfio dos adolescentes que não passam por esta fase sem confrontos, pois podem estar desconectados de sua idade e contexto, ou atuam com medos por repressão familiar, religiosa, etc. Sempre digo aos pais e professores que fiquem atentos aos adolescentes silenciosos, que não dão trabalho e ficam isolados, pois daí sim pode emergir um sujeito destituído de identidade no futuro, quem sabe já revelando um processo depressivo. Este fator atualmente tem se tornado bem recorrente com a imersão dos adolescentes no universo digital e no aumento de tentativas de suicídio nesta faixa etária.
A influência dos grupos e os riscos das escolhas
Mas, para sustentar esta posição do “há governo, sou contra”, é preciso se aliar a grupos que se vinculam por aproximação de desejos e de identidades. Tribos urbanas, amigos de escola, de conexões online, k-pop, até a identificação religiosa, política e de marginalidade. É preciso sustentar uma posição e os grupos passam a ser uma tendência natural conforme os laços estabelecidos na adolescência poderão seguir próximos e conectados para toda a vida adulta.
Na busca por identificação e proteção em um coletivo, a nova família do adolescente passa a ser o grupo que se faz seu. Lembro que, na minha adolescência, vivia em função dos grupos dos quais participava na dimensão religiosa através da Pastoral da Juventude. Minha mãe dizia que minha mochila tinha asas, pois não parava em casa.
Desta forma, a configuração de rebelar-se e associar-se em grupos pode trazer consequências tanto favoráveis quanto catastróficas, pois mesmo um adolescente com boa estrutura de apoio familiar, independentemente das condições sociais - pois o apoio emocional não diz respeito apenas à condição financeira - pode entrar em uma trama na qual nunca imaginaria. Lembro-me de uma mãe que me liga desesperada relatando que o filho tinha dito que estava passando o final de semana na casa de um amigo mas, na verdade, estava envolvido com uma trama de roubo em uma casa da cidade. Na segunda-feira pela manhã, a polícia bateu à porta desta mãe para notificar que seu filho havia se envolvido com um grupo de criminosos. E isto pode acontecer em qualquer família de qualquer realidade social.
Este é o maior dilema, pois com a posição de conflitar, poderá surgir surpresas. Geralmente os adolescentes nesta fase são muito assediados por adultos que, sabedores deste perfil, os atraem para se aproveitarem de seu espírito aventureiro e corajoso. Grupos políticos também acabam cooptando adolescentes. Tanto que muitos políticos de carreira são resultado desta etapa adolescente, principalmente aqueles com demandas políticas mais extremistas, assim como grupos religiosos que apelam para o emocional e exploram culpas, levando os adolescentes a serem lapidados para uma subserviência a uma prática religiosa. Nas comunidades periféricas, os traficantes usam a estratégia de cooptar adolescentes para o esquema do tráfico com a promessa financeira movida pela emoção. Por fim, muitas meninas são aliciadas para a pornografia com promessa de riqueza explorando a força estética das adolescentes.
Atualmente, há um aumento do número de adolescentes que buscam grupos por identificação online, através dos jogos e de identificações por séries, fã clubes, etc. Porém esta tendência tem levado muitos adolescentes ao afastamento social com a ilusão de que estão cheios de amigos pela falta de conexão no mundo real. Como o estar junto, o fazer junto, contactar, o tato, são elementos estruturantes na vida do adolescente, a realidade virtual tem trazido transtornos emocionais diversos aos adolescentes, que acabam entrando num mundo da fantasia e potencializando delírios, com evolução para estado psicótico. Pois este corpo adolescente precisa sentir, pulsar e gastar energias. Online, estas energias ficam contidas, estourando sempre em algum sintoma patológico.
O papel dos adultos na orientação dos adolescentes
Para os adultos que convivem com adolescentes, o primeiro passo é entender esta fase e estar junto. Não criticar, mas potencializar estas energias. Dar abertura para o fazer e o acontecer, respeitando a privacidade, respeitando os amigos sem preconceitos e, principalmente, dando voz aos adolescentes e toda a potencialidade que trazem ao mesmo passo em que mantém os limites conforme as diretrizes que cada família estipula para si. Se houver uma conotação religiosa, que seja um vínculo de menor repressão possível, mas sim por construção de consciência. Se for no campo educacional, dar voz aos adolescentes tendo sempre a perspectiva das regras a serem seguidas, mas construídas também por consciência.
Assim, conflitar, defender-se em grupos e ir se desligando da família, são fatores que, tendo entendimento e acolhimento por parte dos adultos, leva a adolescência a ter enorme chance de evoluir para uma vida adulta potente. Aqui, cabe aos pais saírem de uma posição rígida e se relacionarem com seus filhos numa perspectiva mais amiga. Os professores, de saírem da posição de baluartes do saber para estarem juntos aprendendo, parceiros. À Sociedade, ter a clareza que a força da adolescência está exatamente no seu poder de questionar, executar e seguir sem temer, onde a educação seja encontro e ação em conjunto. Uma Sociedade que não abandone ou expulse, mas que acolha, proteja e projete perspectivas.
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Psicanálise Contextualizada 20/03/2026 08:00:34 4
Aentrada na fase da “adolescência propriamente dita” é o momento de criarconflitos. Neste tempo, o perfil “normal” é aquele que provoca e confronta. E éaí que o bicho pega, pois os adultos, em sua grande maioria, não conseguem (ounão querem) entender os motivos pelos quais este comportamento aparece comrecorrência esmagadora dentre os adolescentes. No caso daqueles que não querementender, isso se ...
Psicologia 11/03/2026 16:57:21
A adolescência parece ser pensada como uma fase fixa, na qual os adolescentes apresentam uma estrutura semelhante e comportamentos iguais. Mas a adolescência carrega em si uma diversidade estrutural de adolescente para adolescente, assim como ocorre com cada indivíduo, cada um com sua individualidade e subjetividade. Cada um vem de uma estrutura familiar, socioeconômica e cultural particular. Mesmo em uma mesma família, cada adolescente vai se comportar a partir das suas características pessoais. Esta reflexão, até aqui, parece muito óbvia. Porém, reforço este argumento para alertar aos adultos, que tendem a enquadrar a adolescência como uma tábua rasa de comportamentos esperados.
O risco da padronização e da patologização
Um olhar diferenciado desde a configuração das diferentes etapas que perpassa a adolescência, até a maneira com que se manifestará para cada um em cada etapa e seus comportamentos. É muito comum vermos definições diagnósticas sobre transtornos emocionais por episódios esporádicos de manias, até crises psicóticas e/ou estados crônicos depressivos. Se a intervenção médica for baseada na patologização do quadro, uma marca poderá ser definida para o resto da vida.
As etapas do desenvolvimento na adolescência
As múltiplas faces da adolescência passam pelo viés de uma pré-adolescência que ainda encontra o ser no estágio criança - com o desejo de já ser adulto e contando as horas para assumir-se adolescente - sendo cobrado por não mais atuar como criança e criticado por já querer sua própria autonomia.
Já na etapa de adolescência propriamente dita (a partir dos 13 anos), a ebulição dos fantasmas infantis dos primeiros anos de vida que configuram processos de construção da estrutura psíquica vem na forma da ação, deflagrando uma gama enorme de possibilidades comportamentais que podem ir desde a passividade total até a sociopatia perversa. De ser um jovem tranquilo e cheio de projetos até se sentir um fracassado.
E, no anúncio de uma vida adulta que está mais próxima (quando já adentra os 18 anos), surgem as muitas expectativas (ou baixas projeções) e/ou a dificuldade de se projetar. Enfim, uma gama de possibilidades que pode levar desde a dependência familiar e a paralisia para avançar nos estudos e/ou numa profissão até o desejo de se fazer o melhor profissional do mundo.
O papel dos adultos diante das singularidades
Enfim, é necessário aos adultos que convivem com adolescentes saberem das diferentes etapas e formas que cada adolescente consegue lidar com seus próprios estágios de desenvolvimento. É preciso ver a pessoa como ela é, no seu histórico e na sua realidade situacional atual. Acolher na diferença e fugir o máximo possível de comparações estereotipadas marcadas por padronizações comportamentais, onde só de se dizer adolescente, já se tem uma pré definição do que virá.
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Psicologia 11/03/2026 16:57:21 19
Aadolescência parece ser pensada como uma fase fixa, na qual os adolescentesapresentam uma estrutura semelhante e comportamentos iguais. Mas a adolescênciacarrega em si uma diversidade estrutural de adolescente para adolescente, assimcomo ocorre com cada indivíduo, cada um com sua individualidade esubjetividade. Cada um vem de uma estrutura familiar, socioeconômica e culturalparticular. Mesmo em u...
Politícia e Sociedade 05/03/2026 12:56:41
Olá, Marcos! De onde estiver, olhai por nós.
Dia 03 de Fevereiro de 2026. Logo pela manhã, vejo notícias da cidade de Ourinhos (SP), anunciando a morte do Professor de Geografia Marcos Correia, o Professor Marcão.
Nossa!
Há mais de 1200 km de distância entre Vitória (ES) e Ribeirão do Sul (SP), onde Marcos vivia em seu sítio com sua esposa, Marilda, e filhos. Como ter contato? Com quem falar? Notícia verdadeira?
Falar e memorar pessoas após a morte parece uma injustiça. Por que não homenagear em vida? Mas Marcos não anunciou sua morte. Chegou de supetão, em uma parada cardíaca. A vida é o existir contínuo para a morte. Marcos estava com vitalidade, altas expectativas, amante da vida e da construção da tão sonhada justiça social. Estávamos planejando algumas viagens. Ele que chegara ao processo de aposentadoria como professor, carreira que escolheu por vocação junto da sua parceira Marilda, compartilhava projetos na pequena propriedade rural em Ribeirão do Sul-SP, tendo filhos já adultos e livres para liberarem-se e provocarem liberações e liberdades. Como homenagear Marcos em vida, sendo que havia longa vida a trilhar?
Marcos, você nos pegou de surpresa. A morte te chamou antes de seu desejo e de nossos combinados. Hoje, minha alma dói por sua perda. E a dor na alma é reservada para os amigos eternos, que amamos profundamente e que estão “guardados a sete chaves no coração”(Milton Nascimento). Agora estou chorando e sangrando, mas colocando sentido em todo este momento. Tenho certeza que a cidade de Ribeirão do Sul-SP parou, pois Marcos sempre esteve envolvido e emaranhado naquela cidade. Um cidadão do bem, mas do bem ao coletivo. Tenho certeza que muitos pararam na região de Ourinhos-SP, onde era sua base de trabalho, tanto na escola estadual de segundo grau como na Escola Técnica Estadual.
Também sei que alguns falsos cristãos de Ribeirão do Sul pararam para soltar fogos de alegria. Não porque amavam o Marcos, mas porque ele, sendo um defensor dos direitos humanos, preconizador da sociedade igualitária e desejoso de uma cidade onde os benefícios fossem estendidos a todas e todos, passou a ser visto como comunista e representante do diabo naquela faixa de planeta. Em nome de um cristo com letra minúscula - esse tal cristianismo de “conserva” - é preconizada até a morte daqueles que não querem o bem só para si. Porém, pelas muitas vezes que já estive em Ribeirão do Sul, posso afirmar que a maioria absoluta daquela cidade o amava e ainda ama indistintamente. O cara é muito gente boa e vocês, que não o conhecem, não fazem ideia. Com ele, a vida sempre era força, pulsão, desejo e utopia a ser conquistada. Marcos conjugou bem o dizer de Che Guevara “É preciso endurecer, mas sem jamais perder a ternura”.
E por que escolher Marcos, como Professor, a espelhar?
Atuo como Psicólogo Educacional há 35 anos, tendo passado cinco anos de graduação muito envolvido em escolas. Foi exatamente em Assis (SP) onde conheci Marcos Correia, pois me graduei pela Universidade Estadual Paulista (UNESP-ASSIS/SP) entre 1986 e 1990. Atuava como coordenador da Comissão dos Cristão Leigos da Diocese de Assis, ligado à Igreja Católica. Tinha um programa de rádio semanal chamado “Questões sociais à luz do Evangelho” e fazíamos visitas em todas as cidades vinculadas a esta Diocese. Na época, o Bispo era Dom Antônio de Souza (já falecido), o qual tinha um apego muito forte aos cristãos mais enriquecidos da região. Porém, nos deixava livres para atuar no social - no que creio que era uma compensação por culpa de viver um episcopado oposto à Verdade do Evangelho de Cristo - e foi nesta realidade que Marcos entrou em minha vida e ganhei um amigo e irmão. Mas, e daí? Onde está o professor? Pois bem, falar de alguém sem base histórica e contexto é correr o risco de falar no vazio e ou em uma ilusão.
Marcos é espelho para a categoria professor porque escolheu ser professor como vocação - e infeliz do professor que está na educação apenas por demanda financeira, sem ter escolhido de fato estar neste lugar. Marcos é espelho porque assumiu a carreira como professor e não como “tio”, não confundindo seu papel de professor em sala de aula e/ou na comunidade escolar que vai além da sala de aula, tentando fazer a lei do mínimo esforço porque ganhava muito mal. Foi para o Sindicato lutar pelo fortalecimento da categoria e, assim, foi um grande associado e liderança pela APOESP (Sindicato dos Professores Estaduais de São Paulo). Enquanto muitos professores atacam sindicatos falando que são comunistas e, em momento de greves, vão passar o tempo em uma praia, Marcos encampava, suava, sofria e até apanhava. Mas, depois, os benefícios conquistados chegavam para todas e todos os professores.
Marcos é espelho porque seus alunos no ensino médio nunca mais esqueceram dele no resto de suas vidas, mesmo aqueles adversários a ele. Pois com sua ternura e amor, revelava aos alunos, como se fossem seus filhos, que com suavidade ou rigidez, havia uma manifestação de amor e cuidado que os projetava para o futuro pela noção de que a educação liberta.
E, só para não me alongar ainda mais, uso Marcos como referência para os professores nas minhas intervenções em Psicologia Educacional, visto que seu método de trabalho elimina os problemas de indisciplina em sala de aula. Imagine um professor de Geografia que consegue levar dezenas de turmas de Ensino Médio a atuarem em sala de aula com produção e o mínimo de disrupção. Ele me ensinou como fazer o contrato participativo com os alunos na sua disciplina.
Marcos, de onde estiver, olhai por nós. Eu preciso de seu olhar para o meu existir. Quem sabe daqui esteja saindo um livro sobre o querido Professor Marcão. Te amo e sempre te amarei. Um dia a gente se encontra por aí.
Marilda, você é uma mulher maravilhosa. Te desejo coragem para continuar a luta que você e o Marcos sempre trilharam. E como vocês formaram uma parceria linda, real, sem enlatamentos, sem rótulos. Estamos juntos, mesmo à distância, nesta etapa da ausência do nosso querido Professor Marcos Correia.
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Anônimo em 06/03/2026 18:44:28
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Politícia e Sociedade 05/03/2026 12:56:41 41
Olá, Marcos! De onde estiver,olhai por nós. Dia 03 de Fevereiro de 2026. Logo pela manhã, vejo notíciasda cidade de Ourinhos (SP), anunciando a morte do Professor de Geografia MarcosCorreia, o Professor Marcão. Nossa! Há mais de 1200 km de distância entre Vitória (ES) e Ribeirãodo Sul (SP), onde Marcos vivia em seu sítio com sua esposa,Marilda, e filhos. Como ter contato? Com quem falar? Notícia v...
Psicologia 25/09/2025 18:51:56
Desde 2013, a campanha do Setembro Amarelo é realizada anualmente com o objetivo de fazer a Sociedade pensar a prevenção do suicídio. Com o passar dos anos, a campanha se aprofundou nas discussões da saúde emocional com maior ênfase na prevenção da depressão. Essa quase mudança de foco ocorreu pela percepção dos estudos dos casos de suicídio, os quais constataram que 80% daqueles que tiraram suas próprias vidas estavam em depressão, mal tratadas ou sem nenhum tratamento. Sendo assim, falar em prevenção ao suicídio passa primeiro pela reflexão sobre as estratégias de prevenção e tratamento da depressão, a qual tem afetado agudamente quase todos os países do planeta e sido caracterizada como uma verdadeira pandemia.
Fatores sociais e econômicos que intensificam a depressão
Múltiplos são os fatores para este fenômeno, mas, dentre os que considero mais relevantes estão: a desigualdade social que impera nos países, criando um abismo entre os 1% mais ricos contra os 99%, que, juntos, possuem o equivalente à riqueza dos 1%, aumentando os índices de depressão de suas populações, como acontece nos EUA e no Brasil. A seguir, a intensa carga produtiva imposta aos trabalhadores, principalmente do meio industrial, levando a intensas discussões sobre reduções da jornada de trabalho (como ocorre no Brasil com o debate sobre a jornada 6x1). Por fim, a noção da depressão enquanto sintoma decorrente de um sistema baseado na cultura de consumo que tem mostrado diversos efeitos sociais nocivos ao longo da História.
Dessa forma, a campanha de prevenção do Setembro Amarelo quase se dissolve diante de um cenário mundial que constantemente convulsiona diante das disfuncionalidades estruturais das sociedades e dos abismos socioeconômicos e ideológicos, fazendo emergir discursos de ódio que elevam a intransigência para o diálogo e o respeito às diferenças, formando um panorama angustiante que promove a depressão.
Entre a conscientização e a mercantilização da saúde mental
Muitos no Brasil já questionam o Setembro Amarelo, principalmente pelo processo cooptativo de mercantilização das campanhas de prevenção, o qual acaba distorcendo seus propósitos originais ao transformar um movimento de conscientização na promoção de clínicas de tratamento psiquiátrico, da indústria farmacêutica e da comercialização dos laudos a partir de diagnósticos precoces. Enquanto o setor público não se estrutura para garantir redes de apoio ao tratamento da depressão com acesso amplo da população aos médicos psiquiatras e ao atendimento psicológico, quem acaba se beneficiando é o setor privado. Diante deste quadro, passamos a enxergar a lógica do “quanto pior a saúde pública, melhor para a saúde privada”, pois, na hora do sufoco, as famílias acabam recorrendo de alguma forma a esta via de atendimento, precisando até de empréstimos para bancar um tratamento particular. Outros fatores, como o aumento dos índices de depressão e suicídio entre adolescentes, também levam ao questionamento da eficácia do Setembro Amarelo enquanto movimento social, numa problemática agravada pelo fato de que apenas uma parcela mínima da população é efetivamente alcançada.
O desafio do SUS e a urgência de uma atuação efetiva do Estado
Em 2019, um estudo do IEPS (Instituto de Estudos para Políticas de Saúde) revelou que 70% dos brasileiros com depressão não recebem tratamento e, em 2023, pesquisas revelaram que apenas 5% dos brasileiros fazem terapia, sendo que 1 a cada 5 usam medicação psiquiátrica. No período entre agosto de 2022 e agosto de 2024, houve um aumento de 18,6% no consumo de medicação psiquiátrica, segundo o Conselho Federal de Farmácia. Esses dados revelam que o foco para o tratamento da saúde mental ainda gira em torno da medicação, com baixo índice de procura por psicoterapia. E eis que surge a questão: há um movimento comunicacional recorrente por meio das campanhas de conscientização, mas não há evolução para a ampliação dos serviços de atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS).
Porém, esses desafios, de alguma forma, são evidenciados porque de fato há uma campanha recorrente e cíclica que serve de base referencial para esta discussão e observação deste ponto que se agrava a cada ano que passa. Desta maneira, o Setembro Amarelo acaba também servindo como um alerta de que o Estado brasileiro precisa estar presente no cuidado aos pacientes com depressão para além do discurso. Precisa de uma atuação prática e ostensiva diante deste quadro evolutivo, investindo em estrutura a partir de algo que já sabemos: é melhor prevenir do que remediar.
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Psicologia 25/09/2025 18:51:56 131
Desde 2013, a campanha do Setembro Amarelo é realizada anualmente com o objetivo de fazer a Sociedade pensar aprevenção do suicídio. Com o passar dos anos, a campanha se aprofundou nasdiscussões da saúde emocional com maior ênfase na prevenção da depressão. Essaquase mudança de foco ocorreu pela percepção dos estudos dos casos de suicídio,os quais constataram que 80% daquelesque tiraram suas própr...
Psicologia 19/09/2025 14:22:24
Pensar o Setembro Amarelo na perspectiva da prevenção à depressão é uma forma que ninguém questiona, até já tendo entrado na expectativa do calendário da população brasileira. Se estamos vendo resultados cotidianos na Sociedade, tanto no que tange à prevenção quanto na melhoria da acolhida ao tratamento com pessoas em depressão, vejo que ainda é cedo para medir, visto que foi a partir de 2013 que a Associação Brasileira de Psiquiatria deu notoriedade a essa campanha.
Sendo assim, considerar aqui a possibilidade de que a depressão possa ser abordada à luz de uma estratégia de mercado pode soar muito estranho, pois a pandemia desta condição assusta a todos e afeta quase todas as famílias brasileiras. Sendo assim, como entender que o mercado produz depressão, sendo que, aparentemente, o mercado teria perdas com o aumento de pessoas sofrendo desta mazela?
O mercado como produtor de depressão?
Aqui, entra uma questão que diz respeito à provocação das pessoas ao consumo, pois uma sociedade consumidora é o que interessa ao mercado. Sabemos que o perfil consumista está ligado a vários fatores, dentre eles a própria cultura do consumo no aspecto social e no circunspecto das famílias. Podemos forjar consumidores desde crianças, dependendo de como a família lida com suas despesas cotidianas (roupas, utensílios domésticos, refeições do cotidiano, doces, estética, festas etc).
Somos uma sociedade que copia muito o estilo de vida norte-americano ao ponto em que, hoje em dia, vemos pessoas querendo até a adoção da bandeira dos EUA como símbolo patriótico brasileiro. É neste modelo de consumo que a publicidade, associada à ideia de sucesso pelo poder aquisitivo, torna-se o referencial. Veja como, para a classe média brasileira, há sempre o sonho de um dia passear na Disney.
Consumo, publicidade e a cultura da morte
Porém, há um fator estratégico não dito que necessita de uma lupa para ser percebido no campo da publicidade e do consumo mercadológico: o adoecimento emocional da população a partir da produção de conteúdos diversos, utilizando de programas e das redes sociais para criar conflito emocional e, principalmente, a depressão. Este processo pode ser observado desde telejornais matinais nos quais o “bom dia” é seguido de cenas repletas de sangue até edições noturnas, nos quais o “durma bem” sucede cenas de conflitos, crimes e catástrofes, entre outras tragédias. As programações com seus intervalos comerciais de maior valor são justamente aquelas que mais promovem a cultura da morte.
A perspectiva de morte e vida, já anunciada por Freud na Psicanálise, é uma boa entrada da qual o mercado se usufrui para estimular o consumo: gerar a pulsão da morte, tendo em vista que, ao nos depararmos com esta, teremos o gatilho para a autodefesa em prol da proteção da vida. Dentro de uma perspectiva do consumo, a produção de subjetividade focada na morte conduz ao desejo pela vida, que é convertida mercadologicamente no desejo de consumir. O vazio interno precisa ser gerado para provocar o desejo de se preencher pelo consumo. Parece uma noção óbvia, mas não é! O que ocorre é que, nesta trama, está contido o adoecer emocional e a depressão vem como um sintoma que grita diante deste processo.
O vazio interno e o desejo de consumir
A depressão, quando já se apresenta na forma estruturada de um transtorno emocional, leva o sujeito ao isolamento e ao desestímulo de ação, numa abertura que a indústria do consumo tenta preencher com o ato de consumir. É preciso ver que, nesta lógica, a depressão se estabelece de maneira sutil e, diante da necessidade interna de constantemente preencher um vazio e eliminar a angústia, conduz a pessoa a fazê-lo com produtos. Surge então a atual necessidade de intervenções estéticas, o intenso desejo de mudar peças de roupas do guarda roupa e até o tradicional boteco do fim de semana. Quando estamos diante da pulsão, compramos (na maioria das vezes sem precisar) e, após a gratificação temporária, o sentimento de vazio e angústia retornam, sinalizando que a depressão está pedindo passagem.
Adoecer emocionalmente é, desta forma, um excelente álibi para esta indústria de consumo. Lojistas adoram receber clientes com sintomas emocionais patológicos, pois já entenderam que pessoas com estrutura emocional desorganizada e com sintomas de transtornos tendem a gastar mais.
Depressão como combustível do consumo
Mas então a depressão vai pegar apenas quem pode consumir? Não, senhor. Hoje, a população brasileira tem nas mãos o celular conectado à internet e, mesmo quem está sem recursos financeiros para consumir, estará consumindo o desejo de ter o que os que podem comprar possuem. Neste caso, a depressão se instaura com força pela impossibilidade de ter, pela impotência aquisitiva. E um dos fatores que também ampliam o lastro da depressão é a diferença social que, no Brasil, é uma das mais fortes: um abismo entre a maioria empobrecida e uma minoria enriquecida. O problema é que, em todas as classes sociais, a publicidade e os conteúdos programáticos de adoecimento que pregam um ilusório sucesso econômico estão na palma da mão de todos, causando a pandemia da depressão. E é esta dinâmica que a indústria do consumo se retroalimenta.
Aqui, concluo com uma pergunta: você está com sintoma de querer comprar sempre, mesmo que não esteja precisando? Se sim, cuidado: a sua depressão pode estar na boca do leão para te engolir.
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Psicologia 19/09/2025 14:22:24 239
Pensaro Setembro Amarelo na perspectiva da prevenção à depressão é uma formaque ninguém questiona, até já tendo entrado na expectativa do calendárioda população brasileira. Se estamos vendo resultados cotidianos na Sociedade,tanto no que tange à prevenção quanto na melhoria da acolhida ao tratamento compessoas em depressão, vejo que ainda é cedo para medir, visto que foi a partirde 2013 que a Asso...
Psicologia 12/09/2025 08:22:46
O ambiente familiar, por muitas vezes, pode ser um foco gerador de depressão. Esta é uma lógica que não queremos reconhecer, pois estamos apegados à ideia da família como o maior patrimônio de uma pessoa, especialmente dentro de um espectro religioso-cristão e dos modelos de igrejas que pregam uma ideia de instituição nuclear perfeita a partir do discurso de Deus, Pátria e Família. Porém, este modelo de Cristianismo parece desconhecer o Evangelho de Jesus Cristo, no qual a família é transposta para uma proposta coletiva universal, formando a problemática atual.
Indiferença digital e isolamento
Vivemos em tempos de internet e celulares nas mãos de todos, levando à quase total indiferença um para com o outro no mesmo ambiente familiar. Os estímulos externos e o mundo do outro passam a ser referência, levando a perda de identificações no mesmo núcleo familiar que geram um vazio pelo sentimento de solidão mesmo dentro do coletivo familiar. O processo de nucleação da família, para o circunspecto de uma família fechada em seu núcleo restrito de pais e filhos, sem conexão com o coletivo social na comunidade em que se encontram, levam à perda da rede de apoio e gerando o isolamento e consequente sensação de fragilidade e insegurança. Associado a isso a violência social estimulada pelas informações sempre dos episódios cruéis gerados pelo jornalismo policialesco.
Educação pela perfeição e culpa
A partir desta visão exigente em associação à questão acima, a família pode promover a depressão quando, no processo educacional, insiste em educar pela perfeição. Assim, teremos a repressão que gera culpas por comportamentos que não refletem o ideal desejado. E, aqui, a culpa é o chicote que estala no sintoma da depressão, numa problemática agravada por outro fator que também pode configurar a família como promotora da depressão: Quando a manifestação do amor se dá de maneira utilitária, numa dinâmica em que não há manifestação gratuita do sentimento amoroso e expressões de afeto são vivenciadas a partir dum processo de troca mediante cumprimento de obrigações ou da conversão do sentimento em bens materiais.
Da mesma forma, quando os filhos ainda são crianças e os pais (ou responsáveis) não se conectam com elas na sua forma de ser e não se comunicam pelo brincar, não ocorre a produção da alegria que pode provocar a boa expectativa dos pais estarem em casa. Pelo contrário, a ausência do lúdico gera nas crianças o desejo de estarem fora de casa e/ou não voltarem para ela. Diante destes fatores e das relações agressivas entre seus membros, a depressão vai se instaurando lentamente. Dia após dia, com a rotina tóxica de ataques e ofensas estereotipadas, o terreno estará fértil para a depressão.
A família moldada pelo capitalismo
Este ciclo de um ambiente familiar gerador da depressão é o legado do processo de industrialização, que chegou para trazer benefícios e tranquilidades às famílias, mas as escravizou na necessidade de fazer a engrenagem do capital acontecer. E a evolução tecnológica da indústria e os avanços da comunicação digital, tornaram as pessoas mais escravas da necessidade de produção e do sucesso econômico que, na verdade, chega para pouquíssimos.
Muitos e muitos fatores do cotidiano de uma família são provocadores do desenvolvimento da depressão. No entanto, sabemos que esta demanda não é gerada apenas pela família ou que esta gera a depressão por si só. Este modelo foi moldado para um sistema fechado nuclear, criado para fazer dar vazão à industrialização na perspectiva capitalista de produção, potencializando a família na sua forma existencial hoje, a tornando ambiente prioritário de desenvolvimento da depressão.
Na perspectiva da Psicanálise, em que somos construídos na estrutura emocional por pulsões de vida e de morte, nossa engrenagem social nos faz polarizados na pulsão de morte, o que eleva ainda mais a produção da depressão a ponto de já podermos dizer que a Humanidade atualmente vivencia a pandemia da depressão. Esta estrutura, forjada na perspectiva do produzir, trabalhar e sobreviver, dá vazão a uma pulsão unilateral que é a morte.
Quando as religiões tentam resgatar a família como um território de vivência do amor, posso entender que há um desejo que está polarizado na pulsão de vida neste movimento. Mas este desejo, de alguma forma, foi cooptado pela estrutura capitalista produtiva para enquadrar as famílias neste esquema, transformando a religião em um processo condenatório de repressão. Uma adaptação que fez até do próprio evangelho uma prática individualizada, não coletiva.
Pulsão de vida como resistência
Mas é pela pulsão de vida que podemos visualizar alguma possibilidade de quebra dessa estrutura patológica, principalmente se houver nas famílias a percepção da armadilha nas quais foram colocadas para, a partir daí, se recolocar na contramão do que o sistema insiste em mantê-las. Neste sentido, a Psicanálise é revolucionária, pois permite pessoas inseridas em família a repensarem suas práticas e, assim, reinventarem posicionamentos onde possam prevalecer ambientes de partilhas em um canal espontâneo de comunicação de afetos sentidos, não cobrados, e fortalecidos na perspectiva de um coletivo aberto para o comunitário.
A correnteza contrária à pulsão de vida é muito forte, mas esta é a única brecha para manter viva a esperança de uma outra construção de família. Quem sabe, estamos chegando num cume para começarmos a cair ao retorno tribal, onde cada um não é de ninguém, mas responsabilidade de todos. Onde filhos, esposos e maridos não sejam propriedades de famílias nucleares, mas pertençam a um povo e um coletivo.
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Psicologia 12/09/2025 08:22:46 272
Oambiente familiar, por muitas vezes, pode ser um foco gerador de depressão. Esta é uma lógica quenão queremos reconhecer, pois estamos apegados à ideia da família como o maiorpatrimônio de uma pessoa, especialmente dentro de um espectro religioso-cristãoe dos modelos de igrejas que pregam uma ideia de instituição nuclear perfeita a partir do discurso de Deus, Pátria e Família.Porém, este modelo ...
Psicologia 04/09/2025 10:16:23
O cotidiano das famílias que seguem em busca da sobrevivência, como ocorre na maioria dos lares brasileiros, faz do dia a dia um desencontro entre aqueles que supostamente estariam mais se encontrando. A correria é tanta que não dá nem tempo de se olhar e, assim, a tendência é que em uma mesma casa, seus membros estejam próximos e muito distantes uns dos outros. Estranhos num mesmo ninho. E esta interação familiar tão cheia de ausências de contato com os que estão no circunspecto de uma casa leva a uma dinâmica na qual olhamos, mas não vemos.
Famílias próximas, mas distantes
Mas esta realidade também se dá no mundo do trabalho, movido por metas a cumprir e também nas escolas movidas por conteúdos a despejar, assim como nos templos religiosos movidos por deuses a encontrar, e nas ruas pela pressa de chegar. No fundo, estamos rodeados por muitos, mas isolados em nós mesmos. Imersos num terreno fértil para a depressão.
O olhar como reflexo da Depressão
A depressão faz sintoma, um deles sendo o olhar entristecido. Se não consegue ver a luz existente no dia, olhar para este dia passa a ser obscuro, cinzento. Assim, o olhar refletirá a expressão de uma depressão que está se instaurando ou já entrou num poço profundo. Quando alguém está movido por muitos impulsos e vontades, dizemos que tem brilho no olhar. Este não é o olhar depressivo.
A depressão pode ser identificada por qualquer pessoa a partir do olhar do próximo. A ausência de um brilho no olhar, do olhar fugidio e profundamente triste, pode ser um alerta de que a pessoa observada está em sofrimento, mesmo que seja uma expressão de ressaca alcoólica (que não deixa de ser uma forma de depressão neurovegetativa).
Setembro Amarelo: um chamado à atenção
Desta maneira, o Setembro Amarelo chega para nos alertar sobre nossa própria saúde emocional e fazermos uma autoanálise com propostas de posicionamentos preventivos. Mas também nos convoca a efetivamente vermos e repararmos familiares, amigos, colegas de trabalho, cidadãos que cruzamos no dia a dia. Notar se há sintomas ao nosso redor de pessoas desenvolvendo e vivenciando a depressão.
Aqui, trago um elemento prático para agir no caminho da prevenção ou tratamento da depressão, que é o ato de olhar para as pessoas, olho no olho, e identificar se há sintoma de sofrimento emocional expresso a partir de seus olhares. Porém, este olhar deve começar em si mesmo, como num espelho para, daí, partir para a percepção daqueles que estão próximos.
Pequenos gestos que transformam
Mas como exercer esta ação dentro desta rotina tão corrida?
Começando a criar meios de conversar com os seus mais próximos, perguntando sobre eles. Criar momentos coletivos de estarem juntos e interagindo. Se alguém está trancafiado no quarto, entre. Mas entre e converse com o intuito de interagir. Sem pedras ou ataques, mas com ação afetiva onde a resistência do outro em se abrir seja dissolvida. Por não ser tão simples, acabamos fugindo destes pequenos gestos.
Mais que articular o jeito perfeito de interagir, é necessário sentir a necessidade de olhar, encontrar e se conectar com os que habitam o mesmo teto, espaço de trabalho, escola, praças e calçadas. E, aqui, vale a tomada de consciência da prevenção e tratamento da depressão. Por isso o Setembro Amarelo tem sua importância enquanto sinal de despertar a consciência.
A partir do momento em que surge a vontade de assumir uma posição ativa de prevenção e/ou curativa, os caminhos são encontrados por cada um, visto que a base desta fórmula é muito simples: encontrar-se no olhar do outro.
Tratamentos de depressão apenas na base medicamentosa psiquiátrica não evoluem, pois o remédio não pensa nem forma relacionamentos ou laços afetivos. Em situações nas quais a medicação for necessária, o estar junto, partilhando e incentivando a melhora, pode levar à depressão ser mais dissolvida com o tempo. Por isso, os processos de psicoterapia com profissionais de psicologia tendem a fazer bons efeitos de melhora no tratamento da depressão, pois há um profissional presente para olhar, ouvir e dialogar.
Prevenção e tratamento lado a lado
Sabemos que prevenir é melhor que remediar. Sendo assim, comece agindo nos espaços que ocupa, promovendo interações em casa, ações coletivas no trabalho, e atividades interativas na escola. Transforme ambientes onde há pessoas em ambientes nas quais pessoas se conectem. Afinal, não somos peças de uma engrenagem, mas a estrutura que as move.
Lembrando que o Setembro Amarelo surgiu com foco inicial na prevenção do suicídio. Porém, como 80% dos que chegam ao suicídio estavam em processo de depressão, o alvo principal deste setembro amarelo passa a ser a prevenção e tratamento da depressão.
E sabemos que um olhar pode salvar, despertar, abrir caminhos. Comece!
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Psicologia 04/09/2025 10:16:23 236
Ocotidiano das famílias que seguem em busca da sobrevivência, como ocorre namaioria dos lares brasileiros, faz dodia a dia um desencontro entre aqueles que supostamente estariam mais seencontrando. A correria é tanta que não dá nem tempo de se olhar e, assim, atendência é que em uma mesma casa, seus membrosestejam próximos e muito distantes uns dos outros. Estranhos num mesmo ninho. E esta interaç...
Psicopedagogia 27/08/2025 17:16:20
A adolescência, enquanto estrutura, perpassa por diferentes épocas e culturas, nos permitindo observar que temos elementos que se mantêm estruturantes para entendermos esta etapa dentro do processo do desenvolvimento da psicologia da personalidade. E uma das escolas psicanalíticas que, a meu ver, melhor elaborou as etapas de desenvolvimento psíquico do adolescente foi a argentina a partir dos psicanalistas Arminda Aberastury e Maurício Knobel1.
Etapas do desenvolvimento e os lutos da adolescência
Aberastury e Knobel destrincharam a adolescência em três etapas: pré-adolescência, adolescência propriamente dita e adolescência adulta. A primeira etapa é pautada pelas transformações fisiológicas e movida pela alteração hormonal, com traços de forte transformação sexual. A segunda etapa é pautada pelos conflitos de identidade e pela subjetividade do ser, de ser ou não ser. E a terceira etapa, por final, é pautada nas buscas futuras e na melhor definição de suas escolhas. Neste processo, entre os 11 e 22 anos, há uma transição que também passa por três tipos de luto específicos: do corpo de criança, da identidade de criança e dos pais de criança. Neste terceiro, o luto é vivenciado tanto pelos adolescentes como pelos pais.
O dilema entre o “normal” e o patológico
O grande dilema para quem estuda, educa e trabalha com adolescentes é saber identificar o que é um comportamento “normal” (entre aspas, pois está associado a uma ideia de comportamento não-patológico) e o que é, de fato, um comportamento “patológico” (que sugere um transtorno emocional). Para a escola argentina, desde as décadas de 70 e 80, apresenta-se o conceito de psicopatologia normal da adolescência, no qual os jovens exibem comportamentos ambivalentes que vão desde a agitação total à paralisia de ação, ou da transgressão e violência até o excesso de moralidade e passividade. O que chega à clínica psicológica são as queixas, tanto da escola quanto dos pais, de um sujeito em profundo sofrimento emocional e/ou com alta potencialidade sociopática perversa. Porém, ao analisarmos um adolescente, precisamos estar atentos ao que constitui uma conduta psicopatológica normal e ao que corresponde a uma posição psicopática ou de perversão real.
Diferenças entre adolescência normal e sociopatia
No caso de um comportamento sociopático, há, por parte do adolescente, uma estratégia de manutenção do equilíbrio, utilizando formas de iludir a depressão com posicionamentos de culpa para esconder-se de sua necessidade de criminalidade. Já no adolescente normal, haverá transitoriedade comportamental por períodos que são percebidos na sua espontaneidade. Por exemplo, um quadro depressivo que esteja de fato configurado no traço da sua forma de ser e que não vai se modificar conforme um interesse estrategicamente planejado.
Na linguagem, o adolescente normal tem a sua linguagem como base da comunicação; já no sociopata, a linguagem é abstraída, dando lugar à ação. Na adolescência normal, há uma interação com as alternâncias comportamentais, principalmente de humor. Nela, a espera acontece e a recomposição do ato permite o reencontro com a regra pré-estabelecida. Já no psicopata, não há espera. A ação é imediata pois não se suporta a transitoriedade. Na adolescência normal, há uma ação que vira reflexão, recuo e autopercepção. No sociopata, não há autopercepção de erro, há total negação de regras e/ou quase nenhuma percepção das mesmas. No adolescente, com seus comportamentos de suspeita que atingem até os mais próximos, há a evolução para a aceitação do luto — que passa por acolhida e entendimento desta transitoriedade pelos adultos que estão por perto — permite atravessar os diferentes lutos da adolescência para, enfim, chegar à vida adulta. Já na adolescência que caracteriza um perfil de sociopatia e/ou transtorno real, não há elaboração do luto, pois negam-se as transformações inerentes da adolescência e, com isso, não ocorre a entrada no mundo adulto.
O papel da linguagem, do luto e da autonomia
Aqui, vale observar que, na adolescência normal, o conflito vai se desfazer pela linguagem, que faz emergir uma erupção de emoções e vai se estabelecendo conforme o ambiente acolhe, orienta e impõe regras e limites de forma afetiva. Com a construção da consciência, emerge, já no final da adolescência, um desejo muito forte por conquistas e por uma busca de autonomia futura. Já na adolescência que perpassa pela sociopatia e perversidade comportamental — que cabe na ordem do patológico — o comportamento é de adultização e autonomia simulada, porém sempre associado a alguém e/ou alguma dependência, não conseguindo, de fato, evoluir para uma autonomia real. As alterações da psicopatologia normal da adolescência têm transitoriedade e tempo de manifestação. Já na psicopatologia propriamente dita no adolescente, os processos são contínuos e a dificuldade de alcançar o jovem neste estado é quase insuperável.
Riscos sociais e vulnerabilidades na atualidade
Neste sentido, entendo que a adolescência é uma etapa de muitos riscos, pois uma situação na qual o adolescente busca aventura e identificação em grupos pode levá-lo a um risco sem retorno. A preocupação dos familiares com os adolescentes é um elemento favorável para a sua educação e reforçada à medida em que o Estado também acolhe e protege este grupo.
Por exemplo: quando há controle social sobre a vida noturna, o consumo de bebidas alcoólicas e a frequência a eventos noturnos como shows, boates e bailes, com critérios de interdição a menores de 16 e/ou 18 anos, isso colabora muito no processo de monitoramento educativo do adolescente pela família. E aqui vale ressaltar que o Estatuto da Criança e do Adolescente prevê formas de proteção que, em muitos municípios, não são colocadas em prática.
Na atualidade, em centros urbanos e cidades próximas a capitais ou regiões metropolitanas, o crime organizado, o narcotráfico e as milícias se aproveitam da vulnerabilidade dos adolescentes e seu desejo de vivenciar aventuras para utilizá-los em ações criminosas cheias de adrenalina. E, numa viagem dessas, esses adolescentes podem não conseguir voltar, pois uma psicopatologia normal transitória pode evoluir para uma psicopatologia propriamente dita e transformar-se em sociopatia diante dos estímulos errados.
1 ABERASTURY, Arminda; KNOBEL, Maurício. Adolescência normal. Porto Alegre: Artes Médicas.
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Psicopedagogia 27/08/2025 17:16:20 339
A adolescência, enquanto estrutura, perpassa por diferentes épocas e culturas,nos permitindo observar quetemos elementos que se mantêm estruturantes para entendermos esta etapa dentrodo processo do desenvolvimento da psicologia da personalidade. E uma dasescolas psicanalíticas que, a meu ver, melhor elaborou as etapas de desenvolvimentopsíquico do adolescente foi a argentina a partir dos psicanali...
Psicologia 22/08/2025 08:33:50
A adultização de crianças atualmente figura como o tema da moda, aqui com o conceito de moda se referindo à ideia do evento picante do momento. Convivemos semanalmente com este tipo de notícias bombásticas, que se enquadram dentro de um modelo de noticiário estrategicamente planejado para manter a audiência dos telejornais e das múltiplas redes em suas diferentes plataformas de transmissão. O Felca é a bola da vez, pois apresentou questões sérias que até comprometem a segurança pessoal do mesmo ao denunciar um influenciador digital que se utiliza de imagens de crianças num esquema de expansão da exploração de imagens de crianças cooptadas pelas redes sociais em um processo entre pedófilos e familiares das vítimas.
Mídia, escândalos e o debate social
Esta notícia bombástica está, pelo menos, gerando um amplo debate na Sociedade Civil, chegando ao ponto do Congresso Nacional elaborar uma regulamentação mais criteriosa sobre o uso da internet por crianças e adolescentes e pelo maior controle das empresas responsáveis pelas plataformas digitais no país. No entanto, pensar a transformação da criança em adulto - o que estão denominando adultização - já é um processo que acontece na própria configuração civilizatória. Trazemos este modelo, inclusive, dos países colonizadores europeus, os quais sempre colocaram as crianças na condição de adultos-miniatura, fato que podemos constatar nas telas de grandes artistas daquela estrutura social.
Raízes históricas da adultização
Desde a Revolução Industrial, que se deu entre 1760 e 1840, a nucleação familiar se traduz no eixo “Pai, Mãe e Filhos” em um modelo cultural que, fechado em si e sem suporte de apoio dentro de uma rede comunicativa, se tornou fator decisivo para a transformação de crianças em em pequenos adultos - processo também agravado pelo avanço da pobreza, que forçava a necessidade de colocá-las como força de trabalho. E, se pensarmos historicamente na relação das crianças com o brincar livremente e com a atividade de interagir ludicamente com os pais, veremos que não houve muita diferença na demanda de vínculo com estes últimos, pois segue o foco no trabalho e nas tarefas de casa como necessidades operacionais.
A perda do brincar e a influência da tecnologia
Uma diferença está no conceito de que, até 30 anos atrás, as crianças tinham as ruas como espaço privilegiado: Saíam, encontravam outras crianças e só retornavam para casa quase à noite. Mesmo em cidades grandes, a rua era lugar de brincar, mas, hoje, as crianças já não podem estar garantidamente livres e seguras fora de suas residências, encontrando-se, em vez disso, nas redes sociais e plataformas online.
Com o advento da TV após o período das aulas, as crianças começaram a se apegar à televisão. Em 1995, lancei meu livro O poder da TV no mundo da criança e adolescente, pela Editora Paulus, no qual apontava que as estatísticas do uso da TV pelas crianças chegavam a quase 5 horas e 30 minutos fora do horário da escola, assistindo conteúdos com caráter de adultização. Hoje, a TV está na palma da mão: é o celular, com a diferença das crianças estarem sendo exploradas por pedófilos na cooptação de imagens espalhadas pela internet. Pior: Com a inoperância dos pais e adultos responsáveis pelas crianças dentro das casas, pois, como ocorria antigamente, os adultos da atualidade, em quase sua maioria absoluta, também não brincam com as crianças e empregam os celulares como babás eletrônicas sem nenhum controle de tempo ou acesso no uso.
Redes sociais, monetização e exploração infantil
Com o processo de monetização das plataformas digitais, em que pessoas podem ganhar dinheiro com vídeos que viralizam na rede a partir da cooptação de muitos seguidores, pais começaram a utilizar as crianças de casa para conseguirem uma fonte de renda na internet. As crianças começaram a adentrar canais de influenciadores digitais e desenvolver uma fantasia de que também poderiam ter suas próprias carreiras de influenciadores como um meio de vida. Ficou muito comum ouvirmos crianças dizendo que já estavam se preparando para serem apresentadores de canais no YouTube ou terem um Instagram de finalidade profissional. Já atendi crianças fixadas neste modelo de ganhar dinheiro e adolescentes que estavam abandonando os estudos para seguir o sonho de investir e prosperar em um canal próprio.
Como o número de visualizações é o objetivo primário e a banalização do Outro associada à sexualização libidinosa como forma de atração se tornaram meras ferramentas, crianças e adolescentes passaram a ser vítimas das redes de pedófilos. De forma ingênua, entram nesta armadilha, seduzidas pela ideia de sucesso — e o sucesso aqui é um espelho refletido dos adultos que vivem por conta de, um dia, terem sucesso na vida, ou com o foco em ganhar dinheiro pela força de trabalho. Mas todo adulto foge do trabalho árduo, que dificilmente o colocará na condição de bem-sucedido economicamente.
Daí, vemos uma cultura que fomenta a dependência dos pais conectados, os quais influenciadores de sucesso e, consequentemente, se alienam na forma de educar seus filhos, chegando ao ponto de incentivá-los a criarem conteúdos atrativos com fins monetários. Hoje, podemos encontrar vídeos de crianças dando aula sobre como pais podem educar seus filhos, meninas influenciando produtos de maquiagem e cosméticos, canais de podcast com crianças desenvolvendo temas de autoajuda. Pais que usam seus filhos, até bebês, para venderem produtos, ou monetizar a partir de marcas de vestuário infantil.
Consequências psicológicas e o papel da família e do Estado
A adultização é a morte da criança em sua essência. É a epítome da infância roubada. Quando as crianças são impedidas de viverem a infância enquanto infância, sendo negado a elas o potencial de fantasiar, estarão sendo conduzidas à morte da sua psique. Pois as crianças vivem imersas mais no mundo da fantasia do que na realidade, e, já na vida adulta, esta realidade é o fator de maior vivência. Quando uma criança vive plenamente o seu potencial fantasioso - que se dá pela capacidade de brincar livremente - conseguirá passar para a vida adulta com uma utilidade transformadora, onde o que era fantasioso se multiplica em sonhos, desejos e projetos.
Um adulto, ao chegar na vida adulta tendo sido negada a potencialidade fantasiosa de criança, terá sua estrutura emocional predisposta a doenças como depressão, ansiedade e a morte do existir. Como a criança é imersa na fantasia, sua predisposição para ser vítima da sedução é enorme, pois não possui a estrutura de um adulto para saber discernir o que é certo ou errado e não possui autonomia de ação, o que a torna uma presa fácil para adultos predadores. A exposição das crianças às redes midiáticas na internet é um campo aberto para a morte da infância e exposição das mesmas a possíveis abusadores.
A decisão de como conduzir o processo educacional das crianças deverá ser dos pais e familiares. Porém, seria um grande benefício para os familiares adultos se tivéssemos leis mais definidas sobre o uso da internet e de maior controle das empresas responsáveis pelas plataformas digitais no Brasil. Assim, o Estado presente estaria fortalecendo a educação de suas crianças dando mais respaldo e proteção às mesmas, mais suporte aos familiares. Basta notar como a lei que proíbe o uso de celulares nas escolas já ajudou (e muito) as instituições no desenvolvimento educacional.
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Psicologia 22/08/2025 08:33:50 425
A adultização de crianças atualmentefigura como o tema da moda, aqui com o conceitode moda se referindo à ideia do evento picante do momento. Convivemossemanalmente com este tipo de notíciasbombásticas, que se enquadram dentrode um modelo de noticiárioestrategicamente planejado para manter a audiência dos telejornais e das múltiplasredes em suas diferentes plataformas de transmissão. O Felca é a b...
Psicologia 15/08/2025 14:23:43
O Transtorno de Déficit de Atenção não é uma doença e, por isso, não pode ser tratado como se fosse. Coloca-se no quadro de transtorno, porém, não pode ser caracterizado como uma estrutura patológica, devendo ser visto como uma forma de ser. O índice de pessoas com TDAH atinge em torno de 4% da população. No entanto, se descrevêssemos nossos sintomas diários de perda de atenção, seríamos enquadrados no TDAH. É incrível o número de laudos que atualmente aparecem caracterizando este transtorno.
A mais recente moda proveniente de imagens e postagens, principalmente no TikTok, é a de usar chupeta para conseguir “segurar” a TDAH. Porém, o uso de medicações para melhorar a concentração é altíssimo e, inclusive, sem prescrição médica. Concurseiros e estudantes do ensino médio estão apelando para as medicações de controle e foco.
O verdadeiro foco do processo terapêutico
O processo terapêutico para o tratamento de TDAH não visa eliminar o quadro em si, mas potencializar o sujeito diagnosticado com este quadro a aprender a lidar com seu comportamento, que tem como base a hiperatividade e a consequente desatenção. Isso porque os portadores de TDAH possuem geralmente muitas habilidades e potencial de ação que, por conta dessa “sobra” de energia e habilidades, acabam se “atropelando” ao fazer, concentrar-se e desenvolver essas potencialidades.
Após um diagnóstico bem estruturado que, na sua maioria, perpassa uma intervenção interdisciplinar — psicólogo, neurologista, psiquiatra — dar-se-á o processo terapêutico. Geralmente, em um primeiro momento, há a necessidade de um auxílio medicamentoso com ênfase no processo de concentração que precisa ser monitorado por um médico neurologista ou psiquiatra. Isso decorre do fato de que, geralmente, há dificuldade de adaptação a uma ou outra fórmula e/ou princípio medicamentoso, inclusive, com efeitos colaterais comportamentais, como processo obsessivo ou ansiedade generalizada.
A importância da criatividade e da família no tratamento
No campo clínico psicológico, o objetivo é colaborar para que o portador de TDAH evolua na sua potencialidade múltipla, procurando ver e conduzir sua energia psíquica e habilidades cognitivas para o processo de focar em atividades que possam dar sentido e que tenham começo, meio e fim.
Aqui, neste processo psicoterapêutico, cabem, sim, intervenções dirigidas dentro da psicopedagogia, a qual os psicólogos podem exercer com muita clareza. Porém, não basta o estímulo psicopedagógico, sendo necessário também haver uma escuta deste paciente para que ele possa ser entendido na sua estrutura e possa, a partir de sua autopercepção, direcionar escolhas e ações. O despertar criativo nestes quadros é um elemento essencial para a reinterpretação do TDAH a favor do seu portador. Por isso, nestes casos, o profissional psicólogo precisa ter uma potencialidade criativa e recursos disponíveis no consultório para tal empreendimento.
A contínua intervenção junto à família do portador de TDAH é fator preponderante no resultado favorável da intervenção, pois geralmente as famílias estão usando o recurso das telas para amenizar o perfil de “muita energia” do TDAH. Porém, este tipo de ação na família colabora para que o portador torne-se mais confuso e sem estimular suas múltiplas habilidades e potencial cognitivo. Com a intervenção adequada, que se dá com um diagnóstico real, uma intervenção interdisciplinar e um processo terapêutico contínuo em parceria com a família, vemos casos em que o TDAH não necessita, inclusive, de uso medicamentoso, por já conseguir utilizar o TDAH como recurso, ou melhor, utilizando o comportamento hiperativo a seu favor.
O perigo dos diagnósticos apressados
O problema atual no processo de avaliação está em confundir a perda de foco, o hiperfoco ou o hipofoco, sem identificar o fator preponderante que desencadeia estes sintomas. A depressão, a ansiedade e qualquer outro transtorno emocional levam a sintomas de perda de concentração. Confundir uma ansiedade com hiperatividade é um caminho tênue, um olhar quase que de “golpe de vista” ou, como precisaríamos usar no futebol, o “VAR”: é quase uma linha de impedimento por um braço.
Cotidianamente passamos por situações adversas que podem nos colocar em uma perda de concentração. Contudo, não podemos, a partir de um sintoma isolado, caracterizar que existe um sujeito com o perfil de TDAH. Como o diagnóstico detalhado não é feito a toque de caixa ou em uma consulta apenas — e, pior ainda, em consultas relâmpago nas quais o sujeito sai “laudado” —, requerendo um processo diagnóstico que precisa ser construído, muitas vezes, a várias mãos, seguimos vendo diagnósticos relâmpago de TDAH e consequente prejuízo ao paciente, pois será vítima de intervenções medicamentosas equivocadas, receberá uma tarja para seu processo de aprendizado e, pior ainda, poderá bloquear, pela prescrição indevida, todo o potencial criativo e de desenvolvimento cognitivo.
A partir do que trouxe, a pergunta que deixo é: Quer ser mais um nessa massa? Repetir o mesmo de todos na busca por respostas e se autodenominando mais um doente emocional?
Se sim, continue escravo de respostas, medicações e laudos superficiais. Caso contrário, procure uma melhor investigação dos sintomas pelos quais esteja passando — ou que alguém de sua família esteja passando — para fazer um procedimento transparente e sem criar dependências, tanto de medicações quanto de hábitos que lhe tirem a autonomia.
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Psicologia 15/08/2025 14:23:43 305
O Transtorno de Déficit de Atenção não é uma doença e, porisso, não pode ser tratado como se fosse. Coloca-se no quadro de transtorno, porém, não pode ser caracterizado como uma estrutura patológica, devendo ser visto como uma formade ser. O índice de pessoas com TDAH atinge em torno de 4% da população. Noentanto, se descrevêssemos nossossintomas diários de perda de atenção, seríamosenquadrados no...
Religião 31/07/2025 17:57:57
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Religião 31/07/2025 17:57:57 310
Apocalipse nos Trópicos, documentário dirigido por Petra Costa e lançado em julho de 2025 pela Netflix, marca novamente o perfil desta cineasta que teve outro documentário seu na lista dos candidatos ao Oscar de Melhor Documentário em 2019, Democracia em Vertigem. Sua marca é a capacidade de adentrar em territórios confluentes e divergentes, retirando material para compor documentários que escanca...
Psicanálise Contextualizada 11/07/2025 13:25:21
Após
o sucesso da série “Adolescência”, lançada pela Netflix neste ano de 2025, e do
profundo impacto que causou em muitos pais, falar da adolescência volta à cena. As demandas
estão cada vez maiores em torno de sintomas
comportamentais neste grupo e quadros como ansiedade generalizada, depressão
com desejo suicida, auto-agressão, assim como comportamentos dissociativos com
características psicóticas. Quadros que chegam com fortes indicadores e com os
quais precisamos dialogar de maneira mais próxima aos psiquiatras que os
acompanham, pois há a tendência de enquadrar o quadro como psicose e, na
maioria das vezes, tais sintomas podem ser dissolvidos por meio de uma intervenção
rápida, seja terapêutica e/ou medicamentosa, assim como de hábitos
cotidianos do adolescente por parte dos pais e familiares. Desta
maneira, tratamos estes quadros como episódios de crise,
pois é característico da adolescência haver uma desorganização interna de
pensamento que os Psicanalistas argentinos Maurício Knobel e Arminda Aberastury
caracterizaram de “Psicopatologia Normal da Adolescência”.1
O novo cenário da adolescência e seus sintomas
Observo
que, na atual conjuntura da Era Digital, o celular está se incorporando como
necessidade elementar similar à de um órgão adicional. Esta demanda atinge
diretamente adolescentes e crianças, pois há um bom tempo livre no cotidiano
que está sendo ocupado com o uso deste dispositivo. Sabemos que o celular é uma realidade
de uso desde os primeiros
anos de vida até a vida
adulta - basta observar a quantidade de idosos constantemente ligados a tais
aparelhos. E aqui vale observar
que, se os impactos nos adultos e idosos já são danosos, mesmo estes já
possuindo autonomia e maturidade para processos de escolhas, imagine os
estragos na vida adolescente. O Comitê Gestor da internet no Brasil, que
desenvolve pesquisa sobre o uso das TIC (Tecnologias de Informação e
Comunicação) nos domicílios brasileiros, identificou que, entre 9 a 17 anos,
95% usam o celular por um período
de 9 horas por dia. Daí entendermos o foco dos processos dissociativos e de transtornos
emocionais que a adolescência atual está apresentando.
Muitos
são os estudos hoje que comprovam os efeitos danosos para a vida emocional dos
adolescentes quando estes ficam entregues ao celular por tempo excessivo. Nem
precisaríamos de dados estatísticos para sabermos disso, visto que as clínicas
psicológicas que trabalham com adolescentes já estão recebendo inúmeros casos
com sintomas associados à dependência do celular,
e, nas famílias, os pais estão percebendo esta realidade quando o adolescente
dentro de casa fica inoperante, isolado e depressivo.
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Sintomas visíveis nas famílias e nas clínicas
Uma
pesquisa interessante do Programa de Pós-Graduação em Medicina Molecular
da UFMG indica que, ao analisar
142 artigos que atingiram cerca de 2 milhões de pessoas em vários países do mundo, 72% dos adolescentes apresentaram
depressão associada ao uso intensivo do celular. Desta forma, não precisamos
mais argumentar que o excesso
de celular traz malefícios aos adolescentes e a todos nós. Sendo assim, ainda precisamos
enxergar e aceitar esta realidade para podermos agir conosco mesmo e com os
filhos.
Cinco passos para os pais enfrentarem a dependência digital
Aqui, quero apenas apresentar algumas intervenções necessárias para os pais tomarem atitude sobre o uso do celular com seus filhos adolescentes. Vou focar na adolescência devido à sua condição como uma etapa de muita vulnerabilidade vinda das diferentes fases de transformações e que demanda muitas queixas das escolas sobre dificuldades de aprendizado e processos de disciplinas no ambiente escolar. Segue então algumas orientações aos pais:
1) Primeiro Passo: Fazer a pergunta “O que desejo para o futuro dos meus filhos?” Faço a
analogia simples de questionar se pretende-se colher um fruto tipo exportação ou um fruto para marmelada. O fruto tipo
exportação envolve um cuidado quase que individualizado no qual até se embrulha os frutos no pé
e, quando se vai colher, colhe-se um a um para não os
machucar. Já, se for para marmelada, pode deixá-los até bichar no pé e, ao
colhê-los, uma boa vara para derrubá-los ajuda. Aqui, estou falando de processo
preventivo, pois se quero para eles um futuro próspero, é melhor cuidar com
toda a atenção, de mão em mão.
2) Segundo Passo: Observar se, como pai ou mãe, estou
viciado no meu celular. Uma certa vez, eu e minha esposa estávamos na sala
de casa assistindo TV, cada um em um canto do sofá com seus respectivos
celulares e neles fixados. Um de meus filhos filmou esta cena escondido e nos
mandou pelo nosso Whatsapp. Ao assistir o que ele tinha enviado,
assustei de me ver naquela cena por me pegar fazendo isso sem perceber.
Neste episódio, entendi que, para colocar critérios aos meus filhos, preciso
ter critérios no meu uso pessoal, pois educar pelo testemunho, ainda prevalece
como regra de ouro.
3) Terceiro Passo: Criar mecanismos de controle nos quais o tempo de uso do celular possa ser monitorado. Aqui, indico um caminho que pode dar mais resultado, que é definir um período limitado de uso com horas marcadas (indico, no máximo, duas horas por dia). Pois assim como temos horários para ir ao médico, almoçar, dormir, ir a escola, etc, tal estratégia tem ajudado muito por não envolver uma negociação na hora de entrar e sair, já que estes processos de barganha geram muitos desgastes de relacionamentos (especialmente com adolescentes). E este critério deve ser acompanhado da mesma forma aos finais de semana e feriados, permitindo que os filhos fiquem ligados em atividades de socialização e integração com o coletivo. No entanto, para isso, os pais precisam se propor a serem ativos junto com seus filhos adolescentes.
4) Quarto Passo: Fazer atividades junto dos filhos, tanto envolvendo-os em suas
atividades quanto entrando nas atividades deles. Mesmo sendo uma etapa da vida
na qual acabam buscando seus vínculos de grupo, cabe aos pais entrarem no
esquema dos adolescentes. Se os
pais ficam isolados no seu próprio mundo sem interação recorrente com os
filhos, este processo de prevenção se tornará inviável. A internet
chama os adolescentes para dentro de seus quartos e o cotidiano chama os
adultos para seus afazeres. Tornar-se jovens com seus filhos adolescentes,
revitaliza a vida de qualquer adulto e reduz este abismo.
5) Quinto Passo: Por enquanto, o último passo deste artigo - sabendo que podemos fazer
uma lista enorme de possíveis ações para prevenir filhos da dependência
do celular e consequentes sintomas de transtornos comportamentais - consiste na
ideia de que os pais monitorem o que os filhos estão vendo e consumindo. Sejam chatos, sim, para terem
acesso aos conteúdos na qual estão navegando.
O testemunho dos pais é o limite mais eficaz
O
controle do celular nas escolas por regra federativa já ajudou muito aos
professores, que agora estão respaldados por lei. Mas não basta a escola ter o
controle, se este não ocorre na família. Voltando à pergunta do Primeiro Passo
(“O que desejo para o futuro dos meus filhos?”), só posso afirmar que os pais
que entendem a necessidade de impor limites ao mesmo tempo que prestam
testemunho de seus limites pessoais sobre o uso do celular, estarão dando
um enorme passo
para o sucesso emocional,
profissional e de cidadania de seus filhos. Como poucos terão a coragem de
“nadar contra a correnteza” de um “povo que segue como gado marcado”, os que
assim o fizerem estarão colocando seus filhos em um patamar de diferenciação
entre o Coletivo. Como esta meta será para poucos, o resultado ficará
escancarado.
Mas
só vão conseguir definir posicionamentos e colocar limites, sendo parceiros na
construção do desenvolvimento dos filhos, aqueles que realmente os amam. Pois
quem ama, cuida; E quem cuida, não se poupa ao sofrimento, principalmente quando o sofrimento está relacionado a um bem maior,
que é a plena autonomia futura de seus filhos.
1 Aberastury,A; Knobel,M – Adolescência Normal – Artmed , 1971
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Psicanálise Contextualizada 11/07/2025 13:25:21 372
Apóso sucesso da série “Adolescência”, lançada pela Netflix neste ano de 2025, e doprofundo impacto que causou em muitos pais, falar da adolescência volta à cena. As demandasestão cada vez maiores em torno de sintomascomportamentais neste grupo e quadros como ansiedade generalizada, depressãocom desejo suicida, auto-agressão, assim como comportamentos dissociativos comcaracterísticas psicóticas. Q...
Psicopedagogia 04/07/2025 08:36:34
A escola é um local de muitas “tribos urbanas”. Dentro do processo civilizatório e de urbanização, o espaço escolar apresenta-se como o maior patrimônio material e imaterial de uma cidade. Aqui, coloco a ideia de patrimônio material como um lugar preservado e de referência (como um monumento ou um museu). Quando passamos por uma escola pública, já a identificamos como um espaço coletivo e de direito de todas e todos.
A Escola como patrimônio material e imaterial
Como patrimônio imaterial, trago a noção subjetiva de representação que a escola carrega em si, pois todos nós temos lembranças fortes das escolas nas quais estudamos quando crianças e adolescentes – memórias favoráveis e desfavoráveis, mas memórias. Na concepção de patrimônio, podemos entender as consequências de, assim, encararmos as escolas, que precisam ser protegidas e preservadas. Não é verdade que, ao passarmos em frente a uma escola pública que está depredada, abandonada, logo temos a sensação de que aquele espaço está esquecido pelo órgão público e também pela própria comunidade?
Também trago aqui a concepção de escola pública como um patrimônio que atinge a maioria esmagadora dos brasileiros num âmbito pessoal, representando 80% da população enquanto as escolas particulares representam 20%. Em resumo, apenas um em cada cinco brasileiros realiza seus estudos numa instituição particular. Minhas lembranças da escola Cândido Rodrigues no Fundamental I, depois da escola Euclides da Cunha no Fundamental II, estão vivas até hoje no meu imaginário, assim como você tem lembranças fortíssimas do lugar no qual estudou.
Memória, identidade e representatividade escolar
Mas e as crianças que estudam em escolas particulares, não terão referência de memória na perspectiva de ser um ícone patrimonial? Terão sim, desde que a escola particular seja uma escola de longo percurso histórico e que preserve a identidade pedagógica originária. Isto se deve ao fato de que muitas escolas particulares, por questões econômicas, acabam mudando de perfil e se adaptando ao mercado, tendo em vista a lucratividade.
Resgatar a escola como patrimônio de uma cidade, de uma comunidade, é ter a percepção de que a construção do legado de uma nação se dá neste espaço por meio do processo educacional. Hoje, o maior investimento para as famílias no Brasil é a Educação. Tudo bem que isso virou um clichê político e todo mundo da política fala disso, mas, na prática, a realidade é outra.
Como a ascensão política (e dos políticos) no Brasil está sob domínio de uma elite socioeconômica, a Educação para todas e todos passa a ser uma bandeira perigosa quando levada às últimas consequências. Pois, se a população brasileira estudar e as escolas públicas forem de alta qualidade, vai faltar mão de obra barata para os trabalhos braçais — aqueles que os filhos das elites jamais farão.
A disputa de narrativas e o imaginário da escola pública
Quando falo de elite, estou falando do 1% da população que detém 99% dos recursos. Porém, essa elite financia políticos abstraídos cooptados nas comunidades periféricas, assim como nas classes B e C. Basta notar como a classe média C + e B no Brasil acredita que são ricos. Basta ter um salário ou uma renda familiar acima dos 10 mil reais mensais que já se comportam como elite.
E é essa classe C + e B que fica eternamente frustrada quando não consegue manter os filhos na escola particular, pois julga que a escola pública é reduto de “bandidos”. Infelizmente, as escolas particulares, em sua quase totalidade, vendem um imaginário de ostentação, emulando uma elite que representa apenas 1% da população. O problema é que essas escolas particulares não estão conseguindo entregar o que estão vendendo enquanto projeto de existência social. No final, acabam perdendo para as escolas públicas no imaginário patrimonial de seus alunos e também na ausência de conteúdos e experiências que, de fato, condizem com os interesses e a realidade de seus clientes.
Caminhos para fortalecer a escola como espaço coletivo
Neste sentido, pensando que a maioria dos usuários da educação brasileira está nas escolas públicas, é nelas que mantenho esta reflexão. Aqui, parto para algumas estratégias para que a população tenha um olhar sobre a escola pública como patrimônio a ser preservado, defendido e ocupado:
1. Ver a escola pública como um espaço plural, pois ali habitam mundos diferentes, tanto no espectro religioso e profissional, quanto cultural. Cada família configura um mundo à parte que, na escola, se reorganiza como um coletivo em torno da educação.
2. Uma escola afeta toda a comunidade, desde o trânsito até o comércio no entorno que se alimenta direta e indiretamente de seu território.
3. A escola é, hoje, o maior símbolo da força coletiva. É praticamente o único espaço em uma comunidade onde todas e todos convivem. Cada grupo específico acaba se fechando em si: religião, esporte, lazer, profissão. Na escola, se aglutinam em torno de uma demanda comum. Por este motivo, há uma forte tendência de desmonte deste espaço público vital. Não é à toa que há uma estratégica destruição do imaginário da escola pública como patrimônio, pois nela a população pode se organizar e se fortalecer. Torna-se uma população perigosa — e, na escola, campo de encontro das múltiplas forças da comunidade, há possibilidade de fortalecimento das lutas por direitos, mobilizações coletivas. Este tipo de equipamento não agrada a uma política de interesses de exploração e dominação.
Desta forma, indico aqui algumas ações que podem colaborar para o fortalecimento da escola como patrimônio material e imaterial, partindo das famílias e/ou grupos organizados na comunidade:
1. Aproximar-se da escola e se oferecer para contribuir na melhoria da estrutura, naquilo que for emergente e necessário, pois a comunidade não pode delegar demandas estruturais apenas ao órgão público. Pode (e deve) reivindicar a ação dos órgãos responsáveis, mas também pode solicitar a participação da comunidade no entorno em suas ações comunitárias e reformas.
2. No quesito da comunidade escolar, entender que a escola não está fechada em si e não é patrimônio do gestor público. Ela é da Sociedade, e a comunidade deve se envolver e se sentir participante desta comunidade escolar.
3. Observar como está o processo de inclusão e as estruturas físicas de acessibilidade, atuando na melhoria deste aspecto — fator que leva muitos alunos ao abandono da escola.
4. Reivindicar que o espaço da escola seja também dinamizado para a comunidade, dentro de um processo planejado e organizado com o órgão público e a gestão vigente. Muitas escolas ficam de portas fechadas à comunidade e não há integração com esporte, lazer e cultura, como um espaço que possa oferecer e favorecer o uso comunitário.
5. Criar ações reivindicatórias para melhoria do entorno da escola no aspecto da segurança pública, pois a escola é alvo de interesses do comércio, do narcotráfico e até da prostituição.
6. Observar interferências religiosas específicas na escola como se, a partir de ações isoladas, houvesse influência de grupos religiosos específicos. A escola é laica e nela deve predominar a abertura para a diversidade. Infelizmente, muitos grupos religiosos querem adentrar a escola para influenciar por meio de uma doutrina específica. Se grupos religiosos adentram a escola, deve ser com o caráter exclusivo de serem mais um participante neste cenário coletivo e comunitário, para favorecer o fortalecimento deste valioso patrimônio — não para conquistar fiéis.
Estes e muitos outros itens poderiam ser enumerados aqui, mas, no momento, trago o principal elemento desta reflexão: Entendermos que a escola é um território de saber e da busca pelo conhecimento. Possui uma força imaginária no coletivo de uma comunidade e, por isso, deve ser uma extensão da comunidade — não apenas um equipamento isolado do mundo. O maior de todos os patrimônios de um país que pretende ter na educação seu principal investimento.
Uma ação pastoral que anuncia e denuncia
Como escrevo este artigo às vésperas de uma palestra para o VII Seminário da Pastoral da Educação da Diocese de São Mateus – ES, no dia 05/07/2025, resta apenas indicar que, para uma ação pastoral que tem como foco os princípios evangélicos a partir das referências da Igreja Católica no Brasil, é preciso preservar a “evangélica opção preferencial pelos pobres” — para que estes deixem de ser pobres.
A ação pastoral não pode se restringir apenas a desenvolver ações para falar de uma espiritualidade cristã e suporte afetivo e espiritual à comunidade escolar. É necessário uma ação profética e evangelizadora de ver, julgar, agir, denunciar e anunciar. Denunciar nas ações diagnósticas e anunciar nas ações interventivas. Do contrário, será mais um grupo religioso tentando cooptar fiéis e/ou favorecendo processos de intervenções para maquiar resultados ou agindo na superficialidade. Hoje, mais que nunca, precisamos de ações pastorais que possam colocar os agentes no “martírio da luta”. Aqui, o martírio é por proposições a uma educação que pulsa vida e libertação. Por ser um campo de monopólio das políticas espoliatórias de domínio econômico, atuar sem incomodar tende a ser o caminho mais fácil.
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Psicopedagogia 04/07/2025 08:36:34 430
A escola é um local de muitas “tribos urbanas”. Dentro doprocesso civilizatório e de urbanização, o espaço escolar apresenta-se como omaior patrimônio material e imaterial de uma cidade. Aqui, coloco a ideia depatrimônio material como um lugar preservado e de referência (como um monumentoou um museu). Quando passamos por uma escola pública, já a identificamos comoum espaço coletivo e de direito de...
Psicologia 26/06/2025 10:12:54
A vida adulta carrega em si a crueldade da imersão profunda na realidade do cotidiano. A meu ver, este é um elemento agressivo da saída da vida de criança, levando a um longo período de transição pela adolescência até chegarmos à vida adulta. Tal passagem é tão cruel que há fortes sugestões de que a adolescência se estenda conceitualmente para além dos 26 anos. Hoje, ainda preconizo até os 22 anos, tendo o período de 17 a 22 anos reconhecido como adolescência adulta.
A crueldade do fim da infância e a longa travessia para a
vida adulta
Mas essa crueldade da entrada na vida adulta — que a Organização Mundial da Saúde (OMS) delimita a partir do final da juventude, aos 29 anos — parece fazer com que tudo perca o encanto. A emersão da fantasia infantil, que nos remete sempre ao saudosismo da fase da vida em que não éramos preocupados com nada, entra em um patamar sem flores. E aqui lembro do belo filme A História Sem Fim (1984), dirigido por Wolfgang Petersen, no qual um garoto sobe ao sótão de sua casa, entra em um livro infantil e viaja por essa história. O filme nos coloca diante de um processo de transição entre fantasia e realidade, no qual a criança está em pleno processo de imersão na fantasia.
Fantasia e realidade: o risco de perder o encantamento
Já na entrada da vida adulta, a fantasia parece dar lugar total à realidade. E, se o adulto permanece preso ou imerso na fantasia, algo parece estar fora do lugar. No entanto, entrar na vida adulta torna-se ainda mais cruel quando esquecemos que um dia fomos crianças — não restando sequer as lembranças das fantasias passadas. É comum, no processo de análise, que aqueles analisados não consigam lembrar das cenas da primeira infância num primeiro momento (principalmente entre 1 e 4 anos de idade). Há também aqueles que chegam totalmente absorvidos em um processo regressivo infantil, nos quais a realidade da vida adulta parece desconexa.
A criança esquecida e os
sintomas da vida adulta
Se esquecemos que fomos crianças ao adentrarmos a vida adulta, apresentaremos comportamentos com sintomas, tais quais variações de humor, rigidez comportamental e intolerância ao convívio com crianças. Um dos sintomas mais comuns que observo em adultos que se tornam mães e pais é o cansaço excessivo pelo contato com os filhos, ou uma intolerância em brincar com eles e adentrar sua fantasia.
No início do processo da análise, o analisando se apega à descrição das cenas do cotidiano, como se estivesse relatando uma notícia, descrevendo os fatos sem analisá-los de fato. Depois, com o desenrolar do processo e com o cansaço de falar das mesmas coisas e pessoas, o analisando começa a falar de quem foi, da sua história, e as memórias da infância começam a emergir. Por isso, dizemos que o sujeito analisado vai se tornando mais leve, pois começa a ver e reconhecer a criança que foi e que, aprisionada pelo inconsciente, se manifesta por meio de sintomas comportamentais que finalmente podem ser vistos e reelaborados.
Lembrar, sonhar e viver com
criatividade
Como já nos orientava o psicanalista e pediatra Dr. Donald Winnicott, o que analisamos no adulto é a criança que está dentro dele. Assim, ao lembrar, reviver e elaborar essa criança do passado — que ainda habita o adulto como comportamento e memória — passamos a encarar a realidade cruel com mais suavidade e leveza, pois há a fantasia que podemos deixar se manifestar no cotidiano. Tornamo-nos adultos melhores, que se permitem brincar e sonhar.
Pois infeliz é o adulto que não sonha — esse já não estará mais vivendo. Sonho aqui no sentido de desejar, fantasiar, se permitir brincar na vida e fazer do cotidiano um desafio a ser vivenciado com criatividade. A criatividade é a evolução da fantasia infantil para a vida adulta. Por isso, dizemos que, para viver o dia a dia, é preciso ter muita criatividade e cultivar a arte de viver.
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Psicologia 26/06/2025 10:12:54 315
A vida adulta carrega em si a crueldade da imersão profundana realidade do cotidiano.A meu ver, este é um elemento agressivo da saída da vida de criança, levando aum longo período de transição pela adolescência até chegarmos à vida adulta.Tal passagem é tão cruel que há fortes sugestões de que a adolescência seestenda conceitualmente para além dos 26 anos. Hoje, ainda preconizo até os 22 anos, ten...
Religião 11/06/2025 15:03:02
A recente divulgação do IBGE sobre o comportamento dos brasileiros em relação à prática religiosa traz informações que nos impedem de entendermos a realidade dos fatos. Principalmente, quando colocam os evangélicos como membros de uma mesma prática religiosa, em uma junção que se dá dentro de um comparativo com os católicos, num foco de “estes em queda, aqueles em crescimento”.
Outros problemas na pesquisa e sistematização dos dados deste levantamento do IBGE dizem respeito aos praticantes de religiões de matriz africana e/ou espírita. Também não há especificações ao se coletar estas informações do povo brasileiro, sugerindo que se denominar espírita e/ou de práticas de matriz africana é algo tido como proibido em um país colonizado com a tarja cristã. Muitos dos que estão em cultos católicos ou de outras denominações cristãs frequentam terreiros e centros espíritas, mas, se interrogados, dirão apenas que são católicos ou evangélicos.
Fragmentação dos Cristãos Não-Católicos
Neste momento, quero apenas pontuar que, ao falar que se é evangélico, entende-se que não se é católico, mas cristão. Porém, o crescimento dos cristãos não-católicos é fragmentado, pois não podemos vê-los com a força que os números sugerem por não pertencerem a uma única instituição que, de fato, os represente. Hoje, no Brasil, aqueles tidos evangélicos que os dados do IBGE apontam como se estivessem crescendo, são vinculados a um perfil pentecostal que se configuram em pequenos grupos fragmentados, seguindo regras e normas específicas conforme cada líder religioso. Lembrando que católicos e evangélicos são cristãos.
Já pude entrar em cultos de igrejas cristãs não-católicas em um mesmo dia, em diferentes lugares e observei que, em cada congregação ou célula com um pregador tido como pastor ou pastora, as condutas, regras e normas eram diferentes. Há ruas e avenidas em muitas cidades no Brasil em que vamos encontrar dezenas de diferentes igrejas cristãs não-católicas.
Institucionalidade versus Proliferação
Desta forma, ao dizer que os “evangélicos” crescem - um enunciado que sugere estarmos diante de uma religião centralizada que se fortalece - caímos no erro de não percebermos que esta crescente não se sustenta enquanto força e contraponto, por exemplo, ao catolicismo, que segue sendo a religião da maioria do povo brasileiro. Porém, aqui sabe-se que há uma instituição definida, com normas e critérios bem-estabelecidos e com a possibilidade de ter diferentes formas de praticar o catolicismo, conforme os carismas das diferentes correntes espirituais com um eixo condutor a partir de um papa, cardeais, arcebispos e padres. Já nos grupos tidos como evangélicos, esta referência se perde. Eis que surge a dúvida: Esta norma vem do grau de igreja quarta, ou quinta, ou sexta, ou décima do quadrado de Jesus? Outro fator que não aparece na apresentação dos números do IBGE é a perda de fieis por parte de congregações cristãs não-católicas diretamente provenientes da Reforma Protestante, como, por exemplo, a Igreja Luterana e a Igreja Presbiteriana.
O que está em alta na prática religiosa brasileira, ao que me parece, são os grupos que prometem soluções, curas e prosperidade. Diante de um povo sedento e cheio de perdas estruturais, sociais e emocionais, a promessa é o que causa, inclusive, uma evasão de fiéis em busca constante por outras denominações religiosas que prometem soluções (até materiais) no aqui e no agora. “Se não obtenho o que oferecem, mudo para outra até achar.” E nunca acha.
A Promessa Religiosa e seus Impactos Psíquicos e Sociais
Esta complexidade e falta de dados para entender a prática religiosa do povo brasileiro traz uma enorme lacuna para a estrutura psíquica dos cristãos brasileiros, pois a prática religiosa está diretamente ligada às estruturas psíquicas internas de uma pessoa. E, se nesta busca religiosa o campo da busca é diverso e indefinido, teremos uma fragmentação social da população e uma fragilidade cultural. Um país dividido pela Fé é campo aberto para a exploração dos privilegiados economicamente e de grupos políticos em busca de poder. Fatores que Freud já apontava em seus textos, como Totem e Tabu.
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Religião 11/06/2025 15:03:02 296
A recente divulgação do IBGE sobre o comportamento dosbrasileiros em relação à prática religiosa traz informações que nos impedem deentendermos a realidade dos fatos. Principalmente, quando colocam osevangélicos como membros de uma mesma prática religiosa, em uma junção que sedá dentro de um comparativo com os católicos, num foco de “estes em queda,aqueles em crescimento”. Outros problemas na pesq...
Psicologia 06/06/2025 14:51:31
Para o IBGE, a classificação das fases da vida de idosos é: De 60 a 74 anos, considerado idoso; de 75 a 90 anos, considerado ancião e, de 90 anos em diante, velhice extrema. Porém, aqui procuro definir as fases da vida idosa a partir de um referencial que remete às fases anteriores à idosa, onde classifico: idoso bebê, idoso criança, idoso adolescente, idoso jovem, idoso adulto e idoso ancião, num paralelo à classificação do IBGE. O problema é que, aos olhos do IBGE, as faixas etárias idosas compreendem longos períodos (aproximadamente 15 anos, em média) nos quais observo que o idoso passa por muitas variações.
Neste 9 de Junho de 2025, entro nos meus 61 anos. Mas sinto que não me vejo idoso, pois a configuração idosa perpassa uma longa trajetória. Para quem está idoso aos 90 anos, é totalmente diferente de quem está aos 61. Dá uma sensação estranha quando entro em uma fila de idosos e, às vezes, uma pessoa de 80 anos está atrás de mim. Parece que estas filas preferenciais precisam ser revistas ou subdivididas. O problema é que não vai caber tantos caixas no supermercado ou num banco, por exemplo.
O paradoxo de ser "Idoso" aos 60
Ao mesmo tempo em que já posso usufruir de privilégios como estacionamentos e filas preferenciais, não consigo me perceber idoso. Não por estar negando ser idoso — muito pelo contrário, adoro a perspectiva de viver esta fase da vida — mas porque meu pique de fazer as coisas e meu corpo são muito diferentes daqueles de outro idoso que se encontra aos 90 anos. No entanto, acabamos sendo enquadrados no mesmo patamar.
Brincando entre amigos, fiz as seguintes especificações para estas classificações que estou denominando: Os "idosos bebês", grupo no qual me encaixo, são aqueles que estão saindo de uma vida de adulto para uma vida de idoso e aprendendo a se perceber como tal, achando estranho quando nos chamam de "velho", "idoso" ou "coroa". Enfim, vivendo no limiar entre querer manter-se jovem e entender que a vida de idoso chegou.
As novas categorias da vida Idosa
Já os "idosos crianças" são aqueles que se assumem idosos e brincam com essa demanda, já não ficando inconformados e tirando de letra o ser chamado de idoso. São assim, normalmente, aqueles que entram na faixa dos 65 anos.
Classifico como "idosos adolescentes" aqueles que, já se impondo como idosos, esbravejam se necessário e se posicionam com determinação na defesa de seus direitos enquanto idosos. Vale ressaltar que, assim como a adolescência propriamente dita, podemos entender o "idoso adolescente" até os 75 anos, onde empunhará o grito "abaixo o etarismo" e defenderá seu potencial capacitante e possibilidades de fazer.
Do idoso adulto ao velho ancião
Já os "idosos adultos", colocados a partir dos 75 anos, são aqueles que se estabilizaram nas suas posições e já levam a vida com mais parcimônia, sem perder sua postura e brilho. Se colocam com mais clareza sobre sua história e passam até a ser referência aos que lhe rodeiam. Dos 80 até os 90 anos, podemos então adotar a nomenclatura do "idoso sênior". Os "idosos sênior" são aqueles que escutam e opinam quando lhes é dada a palavra. Aqueles que vêem o que os mais novos ao redor não estão vendo e que anunciam a todos que ciclo da vida chegou em seu fim.
A partir dos 90, aí sim, poderia denominar de "velhice propriamente dita" e adjetivar o indivíduo como “velho ancião”, pois alcançar este nível em condições de ter autonomia sobre o que pensar e como agir com força física e projetos ainda a desenvolver é uma quimera para poucos. Eu mesmo desejo chegar aos 115 anos — um desafio às condições biológicas da nossa espécie. Lógico que, desta faixa etária, numa Sociedade em que o consumo e o imediatismo são elementos de estrutura fundamentante, chegar aos 60 anos já é motivo para ser peça descartável.
O início de um novo ciclo
E é aí que surge a principal angústia para os que entram nos 60 anos com a tarja de idoso e, ao mesmo tempo, a possibilidade de serem descartados: É preciso muita determinação para chegar aos 60 anos com a ideia de que se está iniciando um ciclo novo de vida, como o engatinhar de um bebê.
No dia 09/06/2025, chego ao meu primeiro ano de vida de idoso. Um "idoso bebê". Agora já comecei a andar para evoluir a um "idoso criança" e poder me divertir na minha vida idosa como se estivesse, de fato, mergulhando em maravilhosas fantasias. E olha que estou cheio de peraltices para viver.
Eis minha nova definição para as diferentes fases da vida idosa, que pode me potencializar — e nos potencializar — para uma bela trajetória nesta longa vida de idoso, nesta revitalização das fases do desenvolvimento humano. Até chegar aos 60 anos, vejo, sem dúvida, um renascer da vida para um novo ciclo a se vivenciar.
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Psicologia 06/06/2025 14:51:31 1174
Para o IBGE, a classificação das fases da vida de idosos é: De 60 a 74anos, considerado idoso; de 75 a 90 anos, considerado ancião e, de 90 anos emdiante, velhice extrema. Porém, aqui procuro definir as fases da vida idosa apartir de um referencial que remete às fasesanteriores à idosa,onde classifico: idoso bebê, idoso criança,idoso adolescente, idosojovem, idoso adultoe idoso ancião, num paralel...
Psicanálise Contextualizada 29/05/2025 09:07:13
Olhar na escuta, esta é a minha dinâmica no processo de escuta em psicanálise. Desde um atendimento a bebês junto de suas mães para já intervir em vínculos que possam estar bloqueando a transmissão de afetos materno-filiais, até crianças, adolescentes e adultos. A escuta psicanalítica, na minha perspectiva analítica — que intitulo psicanálise contextualizada — parte da palavra do analisando para entrar na cena. Como costumo pontuar aos meus pacientes: “Preciso ver a cena, toda a cena”. Quase como um Big Brother. Por isso mesmo costumo dizer que psicólogos são meio que fofoqueiros — adoram ouvir uma fofoca — apenas com a diferença de que essas histórias ficam apenas na memória dos pacientes.
O entrar na cena pela palavra dita em setting analítico (nas sessões) se dá de diferentes formas. Por exemplo: As crianças falam pelo brincar, os adolescentes transitam entre verbalizar e jogar, e os adultos o fazem por meio da fala direta. Mas em todas essas formas de comunicar, a cena vem e torna o processo mais transparente, tanto para o psicólogo-analista quanto para o paciente. Quando a fala não faz emergir - não formando uma cena - podemos estar diante de uma expressão fantasiosa que pode estar conectada a um mecanismo de defesa que é ativado quando o paciente não quer se revelar, como um processo de resistência. E é nessa resistência que pode morar o sujeito que não quer que a verdade sobre ele seja revelada.
Freud vai avançar em sua escuta para além do Indivíduo após a Primeira Guerra Mundial, pois, até então, parecia estar em uma redoma, mergulhado na construção de sua teoria e tentando convencer seus colegas médicos de que suas descobertas tinham caráter científico. Sendo Freud um neurologista e pesquisador das enguias marítimas, no seu esquema neurotransmissor, ele rompe com a neurologia laboratorial e parte para construir seu relato de tratamento psíquico — a Psicanálise. Seu maior legado que, de fato, representa um corte epistemológico (um pensamento que é descoberto e faz mudar o rumo de uma forma de pensar), é quando nomeia o Inconsciente. De lá pra cá, tudo que se entende como inconsciente, devemos ao gênio Freud.
Freud: da escuta individual à construção teórica
Mas imagine: Freud precisava manter-se hermético em sua teoria, que era fruto do mergulho em sua escuta clínica. Tanto que temos cinco casos paradigmáticos sobre os quais Freud escreveu sistematicamente, com base na escuta individual de seus pacientes e que podemos encontrar no livro "Histórias Clínicas: Cinco Casos Paradigmáticos da Clínica Psicanalítica", editado pela Editora Autêntica. Nestes casos, a escrita de Freud faz surgir as cenas das sessões. Em alguns momentos, parece que estamos assistindo a um filme a partir da transcrição de Freud sobre a fala de seus pacientes em sessão.
Por isso, escutar a cena, para mim, é um legado que trago de Freud. Um Freud que fala e elabora teoria com transparência no escrever, como se já estivesse exercendo a práxis (teoria e prática), onde a boa teoria emerge da vivência prática. Neste sentido, esse é um dos grandes méritos de Freud — tanto que foi premiado com honrarias equivalentes ao Nobel de Literatura por sua escrita literária, como foi o caso do Prêmio Goethe da cidade de Frankfurt, em 1930.
A cena como legado freudiano
Porém, até então, antes da Primeira Guerra Mundial, Freud estava envolto na construção da Psicanálise. De fato, vemos que ele olhava para as demandas do indivíduo e, no máximo, fazia conexão com pessoas próximas a seus pacientes para compreendê-los. Verás, por exemplo, no caso Dora (em que analisa uma adolescente) que Freud ficou apenas na demanda da histeria — um conceito em franco desenvolvimento na época — mas deixou de ver de forma mais ampla o quanto a adolescente que analisava estava envolvida em uma sociedade que invadia as ingenuidades de uma jovem em processo de definição de sua identidade, sendo inclusive vítima de assédio sexual.
Com as mazelas vividas no pós-Primeira Guerra — tendo inclusive sua família empobrecida e marcada pelos traumas emocionais da guerra, como toda a Viena da época — brota em Freud um olhar para o social, levando-o a instaurar clínicas públicas que viriam a se espalhar pela Europa após 1919. A partir daí, a psicanálise adquire um novo olhar de uma escuta que inclui o indivíduo no contexto social, gerando novos textos de Freud com maior imersão social. Ele chega a afirmar que a psicanálise é o social.
Da escuta individual ao sujeito inserido no social
Hoje, estou empenhado em reescrever a psicanálise para a nossa realidade brasileira e latino-americana. Para isso, revisito conceitos da psicanálise desde Freud, passando pelos pós-freudianos até chegar a Lacan (especialmente a partir de 1933), quando sua influência começa a tomar corpo por meio dos seminários de 1953 em diante. É necessário descolonizar a psicanálise eurocêntrica e pensá-la a partir do seu principal legado — o Inconsciente — em diálogo com os pensadores da diáspora africana no Brasil e da ancestralidade indígena brasileira e latino-americana. É um desafio sair de uma clínica centrada no indivíduo, como se o processo analítico fosse algo isolado dentro do setting terapêutico, desconsiderando o sujeito como extensão de sua cultura e de sua história. Um desafio que já vivencio no meu cotidiano: Escutar a cena e contextualizá-la no ambiente onde ela acontece, desde a microvivência até a macrovivência.
Como escutar um sujeito que não está mais pontuando ereção peniana sem compreender esse sintoma dentro de seu contexto socioeconômico e cultural? Como analisar uma pessoa com disfunção alimentar sem enxergar, em sua estrutura psíquica, a avalanche publicitária do gourmet e os significados regionais atribuídos ao alimento? Enfim, a escuta da cena precisa ser como um filme transmitido, uma novela em desenvolvimento que nunca acaba. Ou um conteúdo da Netflix que obsessivamente repete, repete, mas nunca termina. Faz laço, enlaça e vicia pois, na fala analítica, a repetição tem sentido pleno — assim como fazem muito sentido as voltas e retornos que a história dá, nesse processo cíclico que parece sempre nos devolver ao mesmo lugar.
Contextualizar para escutar
E é aí que entra a geopolítica na escuta, pois entendo que vivemos e nos relacionamos como resultado de políticas instituídas e ideologias traçadas. Sendo assim, como levar as pessoas em processo analítico a identificarem traços de sua própria ideologia — aquilo que representa sua forma de escolher, viver e reconduzir-se pelas estradas que trilham — se essa ideologia está impregnada pela ação política no espectro da geopolítica global?
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Psicanálise Contextualizada 29/05/2025 09:07:13 314
Olhar na escuta, esta é a minha dinâmica no processo de escuta empsicanálise. Desde um atendimento a bebês junto de suas mães para já intervirem vínculos que possam estar bloqueando a transmissão de afetosmaterno-filiais, até crianças, adolescentes e adultos. A escuta psicanalítica, na minha perspectiva analítica — queintitulo psicanálise contextualizada — parte da palavra do analisando para ...
Psicologia 21/05/2025 17:08:24
O luto é um estado de elaboração de uma perda. Podemos vivenciar o luto pela morte de parentes ou amigos, mas também por pessoas que tínhamos como referência em algum campo da vida, como um escritor, músico, ator, entre outros. No entanto, o luto não se restringe à perda de pessoas. Passamos por lutos diversos, como perdas materiais, derrotas em competições, cancelamentos de eventos, entre outros. Sempre que nos deparamos com perdas que nos remetem a sentimentos de vazio, frustração, tristeza, angústia e introspecção, estamos vivenciando o estado de luto.
Na psicanálise a partir de Freud, podemos adentrar o tema do luto compreendendo que vida e morte coexistem em constante tensão. O que impulsiona a vida é, paradoxalmente, a presença da morte. Freud nos apresenta as forças psíquicas de Thanatos (pulsão de morte) e Eros (pulsão de vida) como constitutivas da estrutura psíquica do sujeito que, ao longo de seu desenvolvimento, estará constantemente polarizado entre essas duas pulsões. Quando a pulsão de morte se sobressai à pulsão de vida, podemos compreender que o sujeito está atravessando perdas estruturantes de desejo, especialmente quando lhe falta o fator desejante, ou seja, a pulsão de vida capaz de sobrepor a pulsão de morte.
A cultura da perda como processo de transformação
Aprender a lidar com perdas estruturantes ao longo da vida pode nos colocar em uma posição psíquica desejante e pulsante — principalmente quando essas perdas são compreendidas como etapas de um processo, como passagens. É claro que, nas idades iniciais e até na adolescência, a capacidade de lidar com perdas e vivenciar o luto dependerá não apenas do sujeito, mas também do ambiente que o cerca. Pais, parentes, amigos e, evidentemente, a própria estrutura social em que ele está inserido. Ou seja, a Cultura.
Desde que nascemos, estamos perdendo. Perdemos o útero, depois os seios da mãe, em seguida o corpo infantil, e, logo, perdemos os pais de criança para então termos que conduzir a vida por nós mesmos. Se, nessa trajetória, os ambientes não forem acolhedores e estimulantes, e a Sociedade ao redor valoriza as instabilidades e a morte — tratando-as apenas como tragédias e não como transições — aprender a lidar com as perdas se torna difícil. Assim, o luto deixa de ser passagem e torna-se um sofrimento paralisante.
O luto como porta para o desejo e a vida
Entrar em um novo momento da vida, ao ter que perder processos anteriores, pode ser angustiante. Isso pode levar à paralisia, à perda do desejo e fazer com que o luto se transforme em sintoma de angústia ou depressão — quase eterno. Porém, no próprio processo de elaboração do luto, há a possibilidade de reconexão com o desejo e com a pulsão de vida.
Vivemos em um sistema cultural que prioriza a morte em detrimento da vida. Isso é evidente na forma como as notícias são veiculadas: Há ênfase em catástrofes, homicídios e conflitos entre grupos e nações. Poucas são as notícias que valorizam a vida, o amor e a solidariedade — aspectos ligados à pulsão de vida. Isso ocorre porque o espetáculo do caos atrai mais atenção e ativa nosso temor mais profundo: O medo da morte.
A ancestralidade, a agressividade e o impulso de destruição
Diante de qualquer sinal de ameaça à vida, entramos automaticamente em estado de alerta e defesa. Nesse ato defensivo, muitas vezes atacamos antes de sermos atacados — uma lógica que revela nossa fragilidade e a tentativa de compensá-la com uma atitude de onipotência. Sentimo-nos quase deuses, mas tomados por um medo profundo de morrer. Isso instaura uma cadeia de defesas entre as pessoas, nos tornando, enquanto espécie, destrutivos — pois passamos a destruir aquilo que representa ameaça.
Quando percebemos, já ofendemos, já atacamos. Com isso, resgatamos uma ancestralidade destrutiva: Sobrevivemos por meio da autopreservação e, assim, desenvolvemos uma identidade agressiva por excelência, como já apontou Yuval Harari em seu livro Sapiens: Uma Breve História da Humanidade. Para tentar amenizar essa herança destrutiva, a Humanidade desenvolveu, ao longo do tempo, formas culturais — como a religião — que promovem o amor. É possível identificar, em várias religiões ao redor do mundo, um fio condutor que prega: “Não faça ao outro o que não gostaria que fizessem a você”.
Psicanálise, esperança e transformação social
Religiões resgatadas da ancestralidade africana, da diáspora forçada pela escravização colonialista, também apontam para o cuidado com o outro, com o meio ambiente e com a coletividade. No Brasil, a ancestralidade indígena e as práticas religiosas dos povos originários revelam esse mesmo respeito — com destaque para a espiritualização da floresta e dos seres vivos como forma de protegê-los. Podemos entender este traço através do indígena Davi Kopenawa e Bruce Albert no livro “A queda do céu”, onde revela a força da espiritualidade Xamã na floresta. Apesar disso, nem mesmo esses movimentos religiosos que defendem o amor e a solidariedade conseguiram conter a fúria defensiva dos sapiens, cuja reação diante da ameaça é a destruição. Em muitas ocasiões, o impulso de vida é usado apenas para evitar a morte, não para fomentar a vida em si.
Freud reconheceu esse fracasso em diversos textos, como O Mal-Estar na Civilização, O Futuro de uma Ilusão, Totem e Tabu. Para ele, tanto o controle pelo Estado (com suas leis) quanto pela religião falham se o ser humano não desenvolver uma auto-percepção de seus movimentos internos, reconhecendo suas pulsões de vida e morte. Essa construção é um processo longo, tanto no nível individual quanto coletivo. Em 1919, na Conferência de Budapeste após a Primeira Guerra Mundial, Freud defendeu a psicanálise como uma ferramenta também social que abre caminhos para pensar a transformação das estruturas psíquicas e sociais a partir da análise e da percepção de si.
A busca por respostas sobre como evitar guerras, destruição ambiental e práticas discriminatórias também é uma expressão da pulsão de vida, que nos impulsiona a não aceitar passivamente uma cultura de morte. As ciências humanas - e aqui destaco a psicanálise, campo em que atuo — são formas de criar novas visões e possibilidades de transformação da realidade. Nesse sentido, é possível, sim, fomentar esperanças a partir da psicanálise. Podemos vislumbrar caminhos de mudança, como nos propôs Paulo Freire — educador brasileiro que levou sua pedagogia da esperança ao mundo — mostrando que é possível caminhar mesmo diante da escuridão, cunhando para isso o termo “esperançar”.
As lutas são imprescindíveis e necessárias para a elaboração das perdas e das passagens. Mas é preciso que essas lutas nos impulsionem a continuar caminhando. Caso contrário, o luto mata a pulsão de vida e fortalece a pulsão de morte.
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Psicologia 21/05/2025 17:08:24 322
O luto é um estado de elaboração de uma perda. Podemosvivenciar o luto pela morte de parentes ou amigos, mas também por pessoas que tínhamos como referência em algum campo da vida, como um escritor, músico,ator, entre outros. No entanto, o luto não se restringe à perda de pessoas.Passamos por lutos diversos, como perdas materiais, derrotas em competições,cancelamentos de eventos, entre outros.Sem...
Psicanálise Contextualizada 06/05/2025 18:35:43
É possível saber se a forma com que os pais estão educando seus filhos poderá representar um legado para toda a vida deles? Enquanto os pais estão em pleno processo educacional na condição dos filhos serem plenamente dependentes deles enquanto crianças e adolescentes, torna-se difícil medir se os filhos levarão alguma memória positiva dos pais, e destes saberem se estão construindo memória positiva nos filhos. Na adolescência, esta é uma realidade bem mais distante, pois emergem os conflitos existenciais dos adolescentes e consequente ataques dos mesmos por busca da autonomia, pois tudo de ruim que acontece a eles é culpa dos pais.
Pode ser que, já quando os filhos estiverem na vida adulta, conseguirão expressar aos pais algum legado que estão levando deles, manifestando ainda em vida estes sentimentos. Mas esta realidade, para muitos filhos adultos que ainda não vingaram na vida profissional e nem como pais, dificilmente será expressa por aqueles nestas condições, sobrando ainda a culpabilização por não terem conseguido chegar a algum lugar melhor na vida.
Quando o patrimônio não traduz afeto
Pensar o legado no campo financeiro é outro elemento que pode trazer pouca memória, a não ser que os pais tenham construído vasto patrimônio e o distribuído aos filhos ainda em vida, mas são poucos aqueles que conseguem realizar esta proeza. E patrimônio, dinheiro, muitas vezes está associado a muito trabalho e pouca presença afetiva. A aritmética “patrimônio = felicidade emocional”, geralmente não coaduna.
Pior é quando os pais estão em idade muito avançada, com sintomas de adoecimentos inerentes à velhice e com necessidade de muitos cuidados, num contexto em que comportamentos infantis e mesmo as neuroses não elaboradas ao longo da vida se manifestam. Aí, a memória deste período que exigiu muito dos filhos nos cuidados e na logística, será de um sofrimento proporcional ao tempo e ao esforço deste cuidado.
Como o ato de educar filhos não traz garantias de nada, e não podemos traçar um parâmetro do que qualifica os pais como melhores ou piores, a conclusão mais realista sobre a educação de filhos e seus legados é que nada é categoricamente certo e muito menos garantido. Felizes os pais que assim agirem no processo educacional, pois se cobrarão menos sobre possíveis fracassos dos filhos em suas trajetórias.
O que realmente permanece na alma dos filhos
Porém, ao pensar no campo da estrutura psíquica que os pais podem estabelecer diante de seus filhos, há algumas vivências que podemos entender que um filho levará para toda a sua vida. Cito aqui algumas:
1) Uma relação marcada pelo vínculo afetivo espontâneo, a memória do amor expresso em caráter recorrente, sentido no dia a dia;
2) As vivências de estar junto, fazer junto e ter participado ativamente do cotidiano e da vida dos filhos;
3) As regras colocadas e valores de fato exercitados na prática cotidiana. Verdades que os pais pregavam e vivenciavam. Pois a expressão maior do Amor é a prática da Verdade. Como já dizia uma das letras cantadas pela banda brasileira Titãs: “...meu pai pedia para eu não mentir, mas nunca me ensinou o que era a verdade...”.
4) O legado da Educação como instrumento libertador e de possibilidade de crescimento como cidadão, se os pais tiveram incentivo pleno e participação absoluta no processo educacional.
Podemos também pensar demandas que conduzem filhos a não levarem nada dos pais, como:
1) Religião, pois a fé/religião está no campo das escolhas pessoais, pior ainda se a religião foi imposta como norma rígida.
2) A educação bancária, do toma lá dá cá e com cobrança de juros, pois o dinheiro não registra rosto nem afeto. Educação movida a bonificações não faz laço afetivo;
3) Regras morais e valores apregoados cujo os pais não vivem na vida pessoal.
Sempre vivemos esta incessante busca em nossa história, e cairemos sempre neste sentimento de identificar quais os legados que levamos para a nossa vida em relação aos nossos pais. Este processo sempre se acentua quando nos colocamos em processo de psicoterapia, principalmente se for de base psicanalítica. Há um momento da análise no qual tudo parece estar relacionado aos pais, até que evoluímos para percepções de nossa própria construção, do que escolhemos ser para nós mesmos.
Aqueles que conseguiram, ao longo da vida, elaborar uma auto percepção de si e uma escolha pessoal na forma de viver a partir do rompimento de vínculo de dependência com os pais, enxergam com mais clareza os legados dos pais que levarão para a vida e os que não levarão. Sofrerá mais e se sentirá mais preso aos pais aqueles que ainda, mesmo adultos, não conseguem se separar em identidade e subjetividade de seus próprios pais. Por este motivo e para esta questão, um processo de psicoterapia se torna muito recomendado.
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Psicanálise Contextualizada 06/05/2025 18:35:43 353
É possível saber se a forma com que os pais estão educandoseus filhos poderá representar um legado para toda a vida deles? Enquantoos pais estão em pleno processo educacional na condição dos filhos seremplenamente dependentes deles enquanto crianças e adolescentes, torna-se difícilmedir se os filhos levarão alguma memória positiva dos pais, e destes saberem se estão construindo memóriapositiva no...
Psicanálise Contextualizada 11/04/2025 15:27:56
O que é a Psicanálise? É a teoria criada por Freud que, ao longo dos anos, foi sistematizando conceitos e procedimentos do exercício clínico, tendo seu marco zero reconhecido na publicação do livro A Interpretação dos Sonhos, de 1900. Porém, antes mesmo, Freud já estava construindo a teoria para estruturação de uma técnica e, de lá para cá, a Psicanálise se consolidou como uma das muitas metodologias existentes no campo da Psicologia.
O grande corte epistemológico de Freud foi o conceito do inconsciente, o qual trouxe uma guinada na forma de ouvir o ser humano, até então entendido por demandas situacionais do “aqui e agora”. Este conceito colocou Freud, inclusive, em uma posição de referência para a Filosofia. Em muitos manuais e artigos históricos da Filosofia, Freud e a Psicanálise são citados como marcos no desenvolvimento dessa ciência humana.
A Psicanálise como prática profissional no Brasil
O problema é que, no Brasil, a Psicanálise virou profissão sem ser estruturada como ofício, pois não há graduação formal nesta área e não há uma autarquia federativa que legitima a Psicanálise como uma função profissional parametrizada. Neste caso, para o campo de atendimento clínico na área da Saúde Mental e Emocional, temos a Psicologia e a Psiquiatria como ciências e profissões reconhecidas. Lógico que, em todas as áreas da saúde, assim como em muitas outras áreas do conhecimento, múltiplas teorias existentes são incorporadas como recursos para que profissionais melhorem seus atendimentos a pacientes e clientes. No entanto, como atendimento sistematizado no campo da saúde mental, as estruturas metodológica e legalmente reconhecidas no Brasil são estas citadas, assim como alguns setores de intervenção da Neurologia.
Sendo assim, o grande dilema da Psicanálise no Brasil na atualidade diz respeito a uma enorme proliferação de escolas e instituições psicanalíticas que engloba pessoas de diferentes áreas de conhecimento que se intitulam psicanalistas após seu período de formação, como se estivessem exercendo um ofício formal. Pior ainda: Viabiliza também a expansão do exercício da Psicanálise para um público leigo, esteticamente legitimando até mesmo pessoas sem nível superior de formação que já abrem clínicas e se auto-intitulam psicanalistas.
Religião, formações e distorções do ofício psicanalítico
Como Freud, em sua época, mantinha relacionamento de trocas de ideias com estudiosos de várias áreas do conhecimento — principalmente no campo das ciências humanas, incluindo até pastores que com ele estudavam — hoje houve um grande aumento no contingente de pastores evangélicos que buscam a Psicanálise como ferramenta para se estabelecerem enquanto referências de tratamento emocional às pessoas de sua cultura religiosa. Assim, garante-se que aquele “psicanalista” ligado à igreja não vai desviar a fé do fiel e ministrará um tratamento que não questiona tal prática. Isto ocorre porque, no bojo da obra de Freud, a religião sempre foi um tema crítico que coloca seu autor como inimigo da religião aos olhos de muitos da prática judaica e cristã. Vale ressaltar que a Psicanálise, na sua essência, não vai questionar a religião em si ou as convicções do indivíduo, mas o que o sujeito busca e como ele deseja se preencher na sua prática religiosa.
Quando recebo pacientes que trazem trajetórias de sujeição a tratamentos psicanalíticos vindos de líderes religiosos, automaticamente sei que terei muito conflito em potencializar o recurso analítico de interpretações — que consiste na pessoa em análise ter epifanias a partir de suas próprias falas, elaborando por conta própria suas demandas internas com cautela — por saber que estes estavam com pseudo profissionais e ainda buscam orientação, solução ou luz que venham de fora para dentro.
Formações sérias, regulamentação e recomendações finais
Por outro lado, temos múltiplas escolas de Psicanálise que apresentam uma estrutura institucional e regimental bem definida, com integrantes que passam por uma formação que não se dá na forma de aula, mas no processo de vivenciar a prática. Analisar, ser analisado, estudar entre os parceiros deste coletivo, participar de seminários, grupos de leitura, escrever artigos e encontros de cartéis temáticos por interesses comuns, entre outras atividades. Desta maneira, podemos dizer que estaremos diante de uma pessoa que está inserida no contexto da Psicanálise e até evoluindo para ser um psicanalista, o que representa alguém que exerce a teoria e técnica dentro de uma perspectiva ampla.
Lembrando que a Psicanálise também é ramificada em múltiplas abordagens e correntes que vão desde os freudianos aos pós-freudianos, lacanianos e, inclusive, aqueles que partiram para um processo grupal, como elaborou os seguidores da Psicanálise Bion. Há uma miríade de escolas, incluindo americanas, inglesas, francesas, argentinas, e, no Brasil, já podemos entender que está se multiplicando em várias estratificações. O que leva a maiores dilemas ainda, pois quem pode dizer que esta ou aquela forma de vivenciar o processo de formação do psicanalista é a mais correta?
Muitas escolas de Psicanálise não se comunicam umas com as outras e até se questionam, algumas chegando até a se atacarem. Porém, se o profissional que se sente psicanalista estiver realmente vinculado a uma instituição de Psicanálise que tenha história e procedimentos claros e bem definidos, é um atenuante substancial. O dilema maior está nos que se auto-intitulam psicanalistas por terem feito um cursinho aos finais de semana por um tempo.
Eu mesmo, quando procuro um profissional para me analisar, escolho um profissional graduado em Psicologia e que atue com a Psicanálise para não correr o risco de me sujeitar a um não-profissional sem regulamentação. Mesmo que seja um profissional que se auto intitule psicanalista, procuro saber se possui inscrição no Conselho Regional de Psicologia, justamente pelo fato de que a Psicanálise não é profissão regulamentada, mas sim uma metodologia.
Hoje, o Conselho Federal de Psicologia está numa campanha ampla de defesa da psicoterapia para profissionais da Psicologia. Isto ocorre devido ao fato de muitas outras profissões estarem oferecendo propostas diversas de psicoterapias por ser um nicho de mercado em alta em uma Sociedade cada vez mais adoecida emocionalmente. Assim, é preciso termos regulamentação clara na forma da lei, pois temos neste país a forte tendência de cada um se achar no direito de atuar da forma que melhor entender.
Veja que essa demanda acontece também com profissionais de diferentes áreas, como educadores físicos, fisioterapeutas, engenheiros, e até médicos. Vemos profissionais exercendo procedimentos especializados fora de suas áreas nativas pela oportunidade que se apresenta diante de uma demanda ampla, numa dinâmica que seria equivalente a um profissional da Psicologia prescrever medicação psiquiátrica aos seus pacientes.
Diante do que trago como dilema da Psicanálise no Brasil, a indicação que faço é que, quando você for procurar um psicanalista, o faça buscando um profissional da Psicologia que manuseie a Psicanálise como teoria e técnica. Pelo menos, isso reduzirá consideravelmente as chances de que você caia nas mãos de um agente que parece um profissional, mas não é.
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Psicanálise Contextualizada 11/04/2025 15:27:56 824
O que é a Psicanálise? É a teoria criada por Freud que, aolongo dos anos, foi sistematizando conceitos e procedimentos do exercícioclínico, tendo seu marco zero reconhecido na publicação do livro A Interpretação dos Sonhos, de 1900.Porém, antes mesmo, Freud já estavaconstruindo a teoria para estruturação de uma técnica e, de lá para cá, aPsicanálise se consolidou como uma das muitas metodologias e...
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