Psicologia 11/06/2026 15:07:25
O conceito de Interfantasmatização foi cunhado pelo psicanalista conjugal Alberto Eiguer no livro “Um Divã Para a Família”*, no qual discorre sobre as influências que as famílias de ambos os cônjuges exercem na construção do vínculo amoroso como fator que pode ser motivo de fortalecimento ou destruição do casal.
Na perspectiva de destruição de um relacionamento, a interfantasmatização se dá pelo fato do casal se constituir sem adentrar na história familiar um do outro. Dentro de um relacionamento que nasce no vulto de uma paixão e que não potencializou se quer conhecer as famílias. Quando o casal decide se unir plenamente e morar juntos, começam a aparecer comportamentos inesperados, com o agravante da interferência dos familiares. Porém, pode acontecer a interferência negativa mesmo o casal tendo plena noção dos familiares um do outro, com este conhecimento a serviço de ataques do tipo “...nossa, é grosso como seu pai...” ou “...medrosa como a sua mãe” quando o casal entra em uma briga. Entra-se num ciclo de atacar os parentes do outro ou negar a família do parceiro, impedindo vínculos.
Construindo uma identidade conjugal própria
Já no processo de suporte à estabilidade do vínculo amoroso no casamento, a interfantasmatização pode representar um elemento de alerta ao casal, para identificarem quais são as interferências familiares que estão manifestando no conflito conjugal. É o processo de conhecer para não repetir a história do outro, assim como de seus pais, irmãos e parentes. Quando o casal se encontra diante de uma cena regressiva - isto é, que os leva ao ninho de onde vieram - e se conflitam pela nova perspectiva de construir um relacionamento com identidade própria, param para observar a regressão e se recolocam na escolha que fizeram. Este processo de repetir a história dos pais ou familiares é quase que parte contínua do processo da estrutura psíquica de cada pessoa que, na relação conjugal, aflora mediante momentos de crises por diversos motivos e/ou sentimentos de perdas afetivas, etc.
Podemos traduzir a interfantasmatização como os fantasmas que rondam a vida conjugal e que, se não forem revelados e confrontados, acabam virando fantasmas à espreita atrás das cortinas para assolar e fazer regredir - Como acontece com as crianças que, diante do terror noturno, correm para a cama dos pais. Se tais fantasmas ficarem no campo do terror, o casal não conseguirá entender que aquela fantasmagoria não existe ou não pertence a eles.
Assim, a interfantasmatização é a interação e inter-relação dos inconscientes que coabitam conjugalmente. Diante de casais que, amadurecidos, já conseguiram romper com seus pais de forma emocional, a interfantasmatização pode representar um benefício. Um alerta para que o casal volte à sua escolha original de estarem casados. Mas, quando o casal não consegue ter autonomia diante dos familiares, ou não fizeram escolha livre para a vida conjugal prevalecendo a escolha por conhecimento tanto do cônjuge como de toda sua estrutura familiar, a interfantasmatização será como um filme de terror, em que a relação está sempre sujeita ao pânico e à pane completa.
O papel da psicanálise na escuta do casal
Muitos que tramitam na psicanálise como teoria e técnica questionam sobre a análise de um casal, geralmente porque nunca ousaram atender casais com o instrumento da psicanálise. Como atendo casais há pelo menos 38 anos, tenho plena convicção que a psicoterapia de base psicanalítica traz muitos efeitos de fortalecimento dos laços conjugais. Um dos principais elementos na análise é conduzir o casal a ouvir este processo de interfantasmatização para poderem elaborar crises decorrentes deste mecanismo. Quando o casal não tem medo de encontrar com os fantasmas de um e do outro. É deixar interfantasmatizar. Diante desta prática recorrente, não resta nada a dizer senão “Vida longa ao casal”.
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Psicologia 11/06/2026 15:07:25 31
Oconceito de Interfantasmatização foi cunhado pelo psicanalista conjugal AlbertoEiguer no livro “Um Divã Para a Família”*, no qual discorre sobre as influências que as famíliasde ambos os cônjuges exercemna construção do vínculo amoroso como fator que pode ser motivo defortalecimento ou destruição do casal. Naperspectiva de destruição de um relacionamento, a interfantasmatização se dá pelo fato do...
Psicologia 27/05/2026 08:42:20
Somos usuários vorazes das telas, passando horas por dia imersos nelas sem pausas. No entanto, quando paramos para pensarmos na possibilidade de sermos dependentes, surge a dúvida: Será que as telas causam dependência mesmo?
Primeiro, vamos entender a dependência como aquilo na qual não conseguimos ficar sem, dentro de uma perspectiva de costumes e hábitos. Também é necessário entender que a dependência é a ausência de autonomia, uma muleta existencial sem a qual não conseguimos nos mover. Sabemos que somos dependentes de algo quando não conseguimos nos abster.
Negar é parte da dependência
Assumir uma dependência, de fato, não é tão fácil. Geralmente, o dependente sempre vai dar uma justificativa, tipo “eu bebo bebida alcoólica socialmente”. No caso das telas, vem sempre com o argumento “mas preciso estar informado”, “meus filhos podem me ligar”, “vejo pouco, só o necessário”, entre outros tantos. Mas, na maioria das vezes, ao olhar para o tempo de uso do celular, a média ultrapassa muito aquilo que a pessoa argumenta em sua defesa.
Mas por que as telas causam dependência? Pelo fato de que os conteúdos que nelas assistimos são muito dinâmicos, visualmente atraentes e nos colocam antenados no mundo em segundos. Conteúdos prontos que não exigem esforço de busca. Também, pelo fato de que temos uma região do cérebro (o hipocampo) que associa prazer às imagens e, com o uso excessivo de telas, sentimos a necessidade deste prazer decorrente. E por telas, me refiro a todos aparelhos eletrônicos que nos colocam em contato com imagens, como: tv, celular, tablet, laptops, etc.
Sinais de alerta
E como você pode identificar se já está no grupo dos dependentes de telas? É relativamente simples: Quando seu celular está distante de você, sente uma ansiedade como se estivesse faltando algo? Fica muito tempo rolando telas sem se fixar a algum conteúdo e não sabendo definir o que busca, passando horas nesta ação? Se pega fixado a programas, séries ou filmes, assistindo vários num mesmo dia? Deixa de sair por alguma programação televisiva e se pega madrugando em jogos e ou vídeos de conteúdo?
Os sintomas psíquicos da dependência que observo com mais frequência são: Baixo desejo de busca de conhecimento, perda de memória e diminuição do potencial cognitivo, isolamento social, perda de afetos e vínculos afetivos e, consequentemente, depressão e/ou ansiedade. Diante da presença dos comportamentos e sintomas psíquicos listados acima, você deverá se fazer as seguintes perguntas: Desejo não desenvolver a dependência das telas? Apresento algum comportamento e/ou sintoma acima descrito?
O primeiro passo para sair de uma dependência é reconhecer que se é dependente. Para tomar atitudes preventivas, é necessário reconhecer que, sim, as telas causam dependência. A partir daí, colocar pelo menos alguns critérios de prevenção, como: Limitar tempo diário de uso das telas; Intermediar ações sem telas e, nos dias de descanso, ficar longe delas e buscar ações que exijam de você um gasto de energia corporal; Não colocar telas no quarto para que, além de prevenir a dependência das telas, evitar o distúrbio do sono; Aumentar as atividades manuais e as interações sociais presenciais, principalmente em dias de descanso e/ou após o trabalho.
A partir desta percepção sobre dependência de telas e estas poucas dicas de prevenção, se partir para escolher não ser uma pessoa dependente (logo, autônoma e dona de suas escolhas), estará fazendo uma grande diferença nesta aldeia global de alienados e limitados.
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Psicologia 27/05/2026 08:42:20 52
Somosusuários vorazes das telas, passando horas por dia imersos nelas sem pausas. Noentanto, quando paramos para pensarmos na possibilidade de sermos dependentes,surge a dúvida: Será que as telas causam dependência mesmo? Primeiro,vamos entender a dependência como aquilo na qual não conseguimos ficar sem,dentro de uma perspectiva de costumes e hábitos. Também é necessário entenderque a dependência...
Psicanálise Contextualizada 20/05/2026 07:43:30
Ao adentrar a vida idosa, as pessoas se deparam com uma perspectiva construída pela sociedade de consumo e focada na produtividade que carrega a ideia de declínio, quase esperando a morte chegar. Logo aos 60, ainda não se tem muito esta perspectiva. No entanto, adentrar os 70 anos de fato pode representar a entrada numa reta final, visto que a expectativa de vida para mulheres brasileiras é de 80 anos e 73 anos para os homens. A partir desta perspectiva,o idoso passa a ser visto como uma pessoa descartável. Poucas pessoas jovens estão preocupadas com a chegada da velhice e, pior, quase não a consideram. Geralmente, os idosos não são respeitados, salvo algumas exceções. E esta é uma realidade que alcança toda a Sociedade, se dando principalmente nas gestões públicas.
A psicoterapia como espaço legítimo de fala e escuta
Diante deste cenário, a psicoterapia de base psicanalítica pode ser um espaço privilegiado de fala e escuta. Um espaço que traz a garantia de uma fala permitida e uma escuta autorizada e, com a teoria e técnica da psicanálise, a pessoa terá um ambiente de elaboração respeitoso e sem barreiras, sem repressão e com garantia de sigilo. Minha experiência com atendimento a idosos é sempre muito agradável, pois chegam com histórias para contar e maturidade para elaborar. Porém, ainda é uma realidade pouco aplicada para esta demografia por remeter à ideia antiga de que a psicoterapia serve para tratar doenças emocionais ou para “loucos”, muitas vezes não sendo incentivada pelas famílias, as quais enxergam os idosos como indivíduos já na etapa final da vida.
A escassez de cuidado psicológico voltado à população idosa
Outro aspecto importante diz respeito ao fato de que os espaços de atendimento psicológico no sistema público de saúde são escassos e só atendem precariamente aos que chegam com encaminhamento psiquiátrico e, no âmbito particular, ainda se prioriza o consumo pessoal como mecanismo de elaboração da idade. Nas minhas clínicas, geralmente os idosos que chegam são encaminhados pelos familiares, quase sempre por demandas jurídicas, para verificar a idoneidade cognitiva da pessoa idosa. Aqueles que procuram esta modalidade para se analisar espontaneamente são aqueles que conhecem a psicanálise, são psicanalistas, ou pessoas que têm uma vida intelectual ativa. Os benefícios da psicoterapia a partir dos 60 são muitos, e trago aqui alguns deles que percebo com maior relevância, tais quais:
1) Reencontro com a própria história, princípio básico para seu auto entendimento;
2) Reencontrando-se com sua história pessoal e ancestralidade, poderá não reproduzir erros e/ou experiências que não somaram favoravelmente ao seu bem-estar emocional. Este fator é relevante pois, na fase idosa, temos a tendência de repetirmos compulsivamente erros passados e/ou liberar comportamentos que foram reprimidos no passado;
3) Reconstruir a perspectiva do hoje e de um amanhã com projetos vitais, respeitando os limites inerentes à idade. É um espaço para poder projetar desejos ainda não-realizados para que desejos novos possam brotar;
4) Pela maturidade que vem com a idade, o processo tem uma melhor potencialidade de elaborações, insights e interpretações. Podendo ter inclusive uma durabilidade menor;
5) O fortalecimento da estrutura emocional para um envelhecer com vitalidade.
Envelhecer também é continuar elaborando a vida
Diante destes benefícios, quiçá tenhamos em breve maior número de sexagenários e acima na busca por um processo de psicoterapia, o qual vai para além da necessidade de curar um transtorno emocional. Se há um investimento que pode colaborar imensamente na Sociedade, é a ampliação de redes de apoio e escuta aos idosos. Pois uma Sociedade que tem nos seus idosos uma fonte de consulta e aparato histórico, tem um tesouro preservado: O tesouro da História preservada e elaborada.
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Psicanálise Contextualizada 20/05/2026 07:43:30 55
Aoadentrar a vida idosa, as pessoas se deparam com uma perspectiva construídapela sociedade de consumo e focada na produtividade que carrega a ideia dedeclínio, quase esperando a morte chegar. Logo aos 60, ainda não se tem muito esta perspectiva. No entanto,adentrar os 70 anos de fato pode representar a entrada numa reta final, visto que a expectativa de vida para mulheresbrasileiras é de 80 anos ...
Psicanálise Contextualizada 13/05/2026 21:09:05
Participando de um congresso de psiquiatria voltado para crianças e adolescentes, um profissional da área verbalizou que a psicanálise tem pouco a oferecer no campo do atendimento infantil. Paradoxalmente, em seguida à fala deste médico, aconteceu uma mesa exatamente sobre como a psicanálise trabalha com crianças e adolescentes.
Também observo que há uma grande resistência dos pais em entenderem a importância do processo psicoterapêutico para crianças e adolescentes - principalmente quando não se tem um sintoma que caracteriza um transtorno emocional ou quadro neurodivergente - e, quando buscam algo neste campo por reconhecer o valor, já o fazem com a indução médica pré-concebida de uma psicoterapia comportamental cognitiva.
A construção teórica da psicanálise para crianças e adolescentes
A Psicanálise tem sua estrutura teórica bem delimitada para o acompanhamento de crianças e adolescentes, desde sua difusão a partir de Anna Freud (filha de Freud) até tomar força com as pesquisas e sistematizações de Melanie Klein, passando pelas estruturações de Winnicott e seu foco na percepção da família e dos vínculos afetivos até chegar nos exponentes psicanalistas Mauricio Knobel e Arminda Aberastury. Minha clínica se pauta por estes nomes e, atualmente, tenho traçado uma construção teórica e técnica dentro do que estou denominando Psicanálise Contextualizada, que você pode ter acesso pelo Instagram @psicanalisecontextualizada.
A psicoterapia psicanalítica para crianças e adolescentes traz a vantagem de ser um processo que leva o indivíduo a ter acesso ao seu inconsciente, e desfrutar da visita à sua estrutura psíquica histórica, se localizando nas diferentes formas e tipos de vínculos afetivos que se dão no ambiente familiar e no meio externo. É uma técnica da escuta e devolutiva daquilo que o próprio paciente não está vendo, favorecendo uma elaboração por parte do próprio paciente através do processo transferencial e da interpretação que gera um insight de entendimento - diferente das psicoterapias que apenas dão poder ao psicólogo, tornando o paciente dependente para agir por meio de uma cartilha de conduta. Desta forma, não tenho dúvidas da eficácia superior da psicoterapia de base psicanalítica em relação a outras teorias e técnicas, uma vez que as metodologias empregadas sejam devidamente reconhecidas pelo sistema Conselho Federal de Psicologia.
Tratamento contínuo ou processo com começo, meio e fim?
Sendo assim, questiona-se a razão pela qual muitos profissionais induzem os pacientes crianças e adolescentes para o processo cognitivo comportamental enquanto desconsideram a psicanálise com o apoio dos familiares. Após 35 anos de atuação continuada na área, chego à conclusão que, pela terapia cognitiva comportamental, os pacientes ficam vinculados a um processo de manutenção e monitoramento da estrutura patológica, fazendo com que a alta psicoterapêutica (e até medicamentosa) não seja objetivo do tratamento. Já na psicoterapia psicanalítica, o processo está vinculado a um processo com início, meio e fim, visto que o final de uma análise é programada na intervenção com crianças e adolescentes - diferente dos adultos, que podem escolher continuar em análise. Porém, tenho dialogado com poucos psiquiatras e neurologistas que reconhecem a psicoterapia psicanalítica como uma teoria e técnica científica e que são parceiros no processo de tratamento, o qual requer uma melhor relação profissional. Muitas foram as situações em que psiquiatras me solicitaram melhor avaliação de crianças e adolescentes para verificar a necessidade ou não de serem medicados.
Porém, pensando dentro do espectro da clínica com crianças e adolescentes pelo viés da psicanálise, aponto aqui sua eficácia por ser focada na condução dos pacientes ao autoconhecimento, ao entendimento da própria estrutura psíquica e a conseguirem se posicionar diante dos pais, familiares e adultos sem perder a própria identidade. Falando em identidade, é bom lembrar que, aqui, temos que entender a identidade a partir da faixa etária de cada paciente, não confundindo com a identidade do adulto que tem mais chance de estar solidificada e, aliás, torna a análise do adulto mais difícil pela resistência. Por isso, na minha percepção e prática, não é prático pensar a psicoterapia sem estar atento às teorias do desenvolvimento nas suas diferentes etapas da vida. Sempre que atendemos crianças e adolescentes, a primeira pergunta que deve vir à cabeça é qual a idade do sujeito, pois há várias fases do desenvolvimento da criança, assim como do adolescente.
Desta maneira, a psicoterapia para crianças e adolescentes precisa ter a adaptação da técnica conforme a idade. No caso de crianças até aos 12 anos, o objeto da escuta é o brincar, a imaginação da criança construída em sessões de interação com os brinquedos; já nos adolescentes, o falar faz muita conexão dentro de uma perspectiva de um discurso que joga com as palavras, elemento que traz tensão à relação com os pais, mas pode ser elemento de construção de si na análise. Em ambos os casos, é a mesma teoria (as tramas de trilhar o inconsciente) mas a técnica é aplicada diferentemente em função das fases identitárias.
A participação da família no processo analítico
Outra vantagem na psicoterapia psicanalítica para estas duas faixas etárias é a necessária relação com os familiares, principalmente os genitores e/ou aqueles que assumem o tratamento. Desde a escuta inicial, depois com reuniões periódicas com os pais. Isto porque não é possível perceber processos de evolução do paciente em duas sessões semanais de cinquenta minutos cada. Sei que muitos profissionais não mantêm este critério e acabam entrando na dinâmica de atender às necessidades percebidas das famílias. Mas a técnica não pode ser adaptada conforme conveniências clínicas ou familiares. Nesta interação intrínseca com os pais e/ou familiares, a família começa a ter novos posicionamentos na dinâmica da casa, na revisão de hábitos dissociativos, na busca por melhora de vínculos e na entrega de atenção para aquele que está mais precisando. Interessante notar que, em famílias com vários filhos, quando um deles entra em processo psicoterapêutico, o relato dos pais é de que os demais também ganham. Outro aspecto que a psicoterapia psicanalítica contribui é a construção de um futuro melhor elaborado. Sempre digo que, se tivesse tido a oportunidade de ter passado por uma psicoterapia psicanalítica quando criança, hoje seria muito melhor.
Como seria bom se o SUS pudesse oferecer atendimento psicoterápico de forma ampla e para além de tratamentos, com possibilidade das famílias poderem escolher colocar os filhos em uma psicoterapia de caráter preventivo. Muitos pais sobrecarregam os filhos com escolinhas esportivas e atividades cujo resultado muitas vezes gera estresse nas crianças e adolescentes, sendo que a nomeação de um espaço de psicoterapia pode ser uma boa alternativa. Já recebi muitas famílias (geralmente de pais com melhor conhecimento da psicanálise) que procuraram psicoterapia para os filhos por precaução, mas esta não é uma realidade como nem entre famílias com estrutura financeira, pois estas acabam priorizando dar estrutura de suporte e logística, não de raciocínio e compreensão subjetiva para um ser enquanto pessoa.
Entre prevenir e remediar: o desafio das famílias e do SUS
A possibilidade de escolherem colocar filhos numa psicoterapia por demanda preventiva e não curativa ainda é muito distante para a esmagadora realidade das famílias brasileiras. Ainda não conseguimos vislumbrar um SUS que atenda mais para prevenir do que remediar.
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Psicanálise Contextualizada 13/05/2026 21:09:05 67
Participandode um congresso de psiquiatria voltado para crianças e adolescentes, umprofissional da área verbalizou que a psicanálise tem pouco a oferecer no campodo atendimento infantil. Paradoxalmente, em seguida à fala deste médico,aconteceu uma mesa exatamente sobre como a psicanálise trabalha com crianças eadolescentes. Tambémobservo que há uma grande resistência dos pais em entenderem a impor...
Politícia e Sociedade 06/05/2026 20:30:40
Pensar o conceito Mãe não é tão simples como possa parecer, visto que há muitas formas de acessar a realidade da maternidade dependendo da realidade, do tempo, cultura e das relações de laços que se entrelaçam nesta configuração. Se perguntarmos para muitas pessoas o que é ser mãe ou o significado da palavra mãe, vamos nos encontrar com muitas definições, pois estamos diante de uma subjetividade decorrente de uma relação de significantes, na relação de cada um com o outro. E, ao mesmo tempo, no espectro social, vai se estabelecendo um imaginário estético de mãe que, na nossa realidade, está associado ao cuidado do filho. O estereótipo das matronas que dão a vida para o filho e que enxergam esta posição como o bem maior. Neste cenário que projeta culturalmente, esta condição é para sempre.
Porém, sabemos que numa perspectiva de construção de uma Sociedade anti machista - graças ao crescimento das mulheres no mercado de trabalho, na produção científica e esportiva, e na entrada da mulher onde, até então, era reduto de homens - associado a luta dos muitos movimentos de mulheres em busca de igualdade de direitos em relação aos homens, podemos, sim, pensar a mãe como passagem, não simplesmente como condição perpétua.
A transformação do papel feminino na sociedade
Lógico que temos nossas mães, as quais referendamos como mães até a nossa morte. Nesta semana, estive na casa de minha mãe, que me gerou no seu ventre e me criou até eu sair de casa. Dona Aurora, 90 anos, mãe desde pelo menos seus 22 anos, continua sendo para mim e meus irmãos, a mãe da qual fomos gerados e nascemos. O que faz a condição de ser mãe ter uma conotação muito forte, pois todos fomos gerados por uma. Mesmo com aqueles que não puderam ter na mãe biológica a referência de cuidado, ainda há uma mãe neste histórico, conhecida ou não. Por isso que, hoje, mãe também é vista naquela que se coloca na presença materna, adotando legitimamente esta posição. O biológico em si não denota a condição de ser mãe, mas todo o entorno do envolvimento de uma mulher com uma criança.
Mas, diante da ascensão da mulher na Sociedade, o ser mãe é passagem, etapa de vida com validade prescrita. E este tempo de validade vai até onde os filhos precisam de uma mãe. Quando os filhos seguem seus caminhos e tornam-se adultos, a função materna deixa de ser necessária. E aqui mora o vazio para a maioria das mulheres que ainda permanecem na posição de mãe para sempre, pois continuarão criando expectativas e atitudes de mãe em um cenário onde não mais se precisa delas enquanto mãe. Este risco de vazio, que gera sintomas de sensação de abandono, angústia e, muitas vezes, o choque conflitivo na relação com os filhos adultos, faz com que a mulher fique sem um lugar na Sociedade.
A mulher para além da função de mãe
Hoje, o protagonismo das mulheres (que tem gerado ações misóginas e feminicidas nos homens), faz-nos ver o ser mãe como passagem, etapa de vida. Desta forma, para que a maternidade não absorva toda a existência de uma mulher, é necessário cuidar do ser mulher que habita todas as mães. Desde o cuidado de si, até as projeções de buscas pessoais que possa desenvolver. Viver para além dos filhos. Pois, um dia, os filhos passam, e a mulher fica. Se a mulher só se fez neste referencial social de matrona e provedora, estará morrendo em si quando os filhos já não mais tiverem a necessidade dela.
Celebrar o Dia das Mães é memorizar e agradecer o existir de cada ser humano. Mas ser mãe para sempre pode representar o sofrimento no paraíso de mil possibilidades.
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Politícia e Sociedade 06/05/2026 20:30:40 117
Pensaro conceito Mãe não é tão simples como possa parecer, visto que há muitas formasde acessar a realidade da maternidade dependendo da realidade, do tempo,cultura e das relações de laços que se entrelaçam nesta configuração. Se perguntarmos para muitas pessoas o que é ser mãe ou o significadoda palavra mãe, vamos nos encontrarcom muitas definições, pois estamos diante de umasubjetividade decorre...
Psicopedagogia 23/04/2026 19:59:29
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Psicopedagogia 23/04/2026 19:59:29 110
Quando você era criança, seus pais ficavam fazendo tarefa de escola contigo? Não, né? Nem os meus pais faziam isso. Aliás, na minha época, tínhamos poucas tarefas escolares para casa. Uma pedagoga que admiro muito - e que é referência no ensino fundamental da rede pública municipal - tem filhos estudando em escola particular e está esgotada com as tantas tarefas que precisam de fazer todos os dias...
Psicanálise Contextualizada 15/04/2026 15:16:44
O machismo mostra a sua cara na atualidade brasileira pela faceta do feminicídio, com um aumento assustador de casos. Este fato se dá como sintoma pulsante de uma estrutura social machista na qual homens, ao se deparar com a ascensão das mulheres na Sociedade, precisam atacar para impedir que estas cresçam em direitos iguais.
Masculinidades em revisão: o papel dos homens na transformação social
Porém, a luta para mudar este quadro não se dá sem a participação dos homens, daqueles que se colocam com H maiúsculo. Assim, é preciso pensar as masculinidades, revendo a forma de se colocar nesta estrutura machista e, a cada homem, perceber-se nas suas muitas manifestações do machismo estrutural. Esta revisão das masculinidades tem sido proposta por grupos de homens que estão se encontrando e debatendo esta temática, mas, a meu ver, o caminho de formação de nichos de homens para pensarem essas masculinidades acaba por manter o distanciamento destes com as mulheres. Sendo esta pauta de todas e todos, vejo que o melhor caminho é unir forças às vozes das mulheres já nesta jornada.
Os traços do machismo estão explícitos no avanço das tendências políticas de extrema direita, que pauta todo o poder aos homens e os serviços subalternos às mulheres. Está no estímulo às guerras, que a cada dia aumenta a fúria de homens dirigentes para o domínio, levando ao sofrimento de mulheres e crianças em todo o planeta. Está na crescente onda de religiões pautadas no domínio do masculino, deixando as migalhas para as mulheres no papel de submissas a seus maridos. Está nas plataformas digitais, cujos empresários homens usam as tecnologias de informação para semear discursos de ódio, xenofobia, machismo e racismo nas mentes das crianças e adolescentes em plataformas que representam a força do capital e do poder econômico, cuja estratégia continua sendo de todo o poder aos homens.
Origens do machismo: fatores históricos, culturais e psicológicos
Podemos pontuar vários motivos pelo crescimento do machismo, misoginia e feminicídio no Brasil. No entanto, aqui, irei focar em quatro elementos: O fracasso dos homens em diversos campos de desenvolvimento (cognitivo, intelectual, sexual, profissional, entre outros) que leva-os a interpretar a ascensão das mulheres como uma ameaça e, com isto, tendem a deter tal crescimento; A inveja que leva os homens a destruir nas mulheres o que elas possuem e eles não podem possuir - principalmente no potencial de gestar, gerar, cuidar - e a revolta divina masculina em não serem os baluartes da gestação; A colonização europeia que trouxe um traço de família nuclear baseado no poder do homem e a estrutura machista secular que dificulta a percepção histórica e a reconfiguração da mesma; A religião colonialista que dá respaldo à posição de um Deus masculino com a força ao pai e, mais especificamente no Brasil, o apagamento da ancestralidade indígena e afrodescendente cuja força estava na coletividade, no estar juntos, parceiros.
Psicanálise e novas leituras das relações de gênero
Dentro da Psicanálise, teoria e técnica que utilizo no meu dia a dia como Psicólogo, a construção da estrutura psíquica passa pelo viés da colonização, principalmente quando adentra nos laços de vínculo afetivo, em que a estrutura se molda com referência na pessoa do pai. Além disso, em muitos grupos psicanalíticos, há a ideia de que a mulher atua pela falta, restando a ela as manifestações histéricas. Porém, estas posições estão avançando para uma leitura que não perpassa as perspectivas do masculino e do feminino em si. Por este motivo, criei a “Psicanálise Contextualizada”, que você pode conhecer mais no perfil de instagram @psicanalisecontextualizada, onde estamos trilhando caminhos para um reelaborar a Psicanálise a partir da realidade brasileira e, quem sabe, propor novas formas de pensar vínculos afetivos na construção da estrutura psíquica.
Desta forma, é preciso a integração entre mulheres e homens para que a luta pela construção de uma Sociedade anti machista aconteça. Para nós, homens, é necessário adentrarmos os muitos movimentos feministas para o fortalecimento de todas as pautas públicas que remetem à eliminação das estruturas machistas. Aqui, cabe o atual avanço da qualificação da misoginia como crime, fator que mexeu muito com os políticos de direita, com argumentos do tipo “agora qualquer discussão de idéias que um homem tiver com uma mulher será enquadrado em misoginia?” A senadora Damares chegou a verbalizar que, desta forma, não sobrariam políticos fora desta lista de criminosos.
Deixamos de entrar nesta luta quando não entramos no processo de educação dos filhos em parceria com as mulheres, quando nos omitimos diante de cenas misóginas, quando contamos piadas depreciativas sobre mulheres ao estarmos em bandos de homens, quando somos agressores e atuamos com a força física no cenário familiar, no trabalho e nas instituições. Enfim, em muitas cenas do cotidiano nas quais não nos mantemos atentos ao nosso machismo estrutural.
As mulheres têm, sim, um poder enorme em suas mãos de construção educacional nas gerações que chegam, pois detém quase que a exclusividade do cuidado e educação das crianças, tanto no seio familiar quanto no âmbito da educação institucional. E este poder de fazer uma educação anti machista vai desde as distribuições equitativas dos afazeres domésticos na casa até o processo de levar as crianças e adolescentes ao debate desta pauta nas escolas. As mulheres têm maiores possibilidades de resultados ao montarem estratégias para a conquista de direitos e a derrocada da sociedade machista, pois já possuem experiência organizativa no movimento social feminista. A entrada dos homens nesta causa ainda será efêmera, pois são poucos os que estão dispostos a estabelecer esta parceria com as mulheres. Mas, aos poucos que ainda querem esta pauta, cabe estar junto delas nesta luta.
Duas estratégias importantes para as mulheres estão diretamente relacionadas ao potencial de estabelecer vínculo afetivo com crianças e adolescentes, o primeiro sendo a atenção em não cair na armadilha machista de ser só delas a demanda de colocar regras, pois com o tempo ficarão com a imagem de más e os homens que não estiveram no cenário educacional sairão com a imagem de bonzinhos. A segunda consiste em levar crianças e adolescentes à prática da Solidariedade, do fazer em conjunto, e, neste processo, resgatar a ancestralidade indígena e afrodescendente pela força do “aquilombamento”, como já nos lembrava Nego Bispo.
De bandos a redes: reinventando as masculinidades
Como já nos ensinou Rose Maria Muraro (socióloga brasileira que pesquisou o perfil da mulher brasileira ao longo de sua vida acadêmica), mulheres fazem redes enquanto homens fazem bandos. Os bandos se agridem enquanto as redes são solidárias. Rever a nossas masculinidades passa primeiro pelo caminho de deixarmos de ser bandos para tornarmo-nos verdadeiras redes de solidariedade.
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Psicanálise Contextualizada 15/04/2026 15:16:44 95
Omachismo mostra a sua cara na atualidade brasileira pela faceta do feminicídio,com um aumento assustador de casos. Este fato se dá como sintoma pulsante deuma estrutura social machista naqual homens, ao se depararcom a ascensão das mulheresna Sociedade, precisam atacar para impedir que estascresçam em direitos iguais. Masculinidades em revisão: o papel dos homens na transformação social Porém, a ...
Psicologia 08/04/2026 21:04:09
A depressão continua batendo à porta de muita gente e, mais recentemente, adentra a vida de adolescentes, os quais chegam a mais de 40% já com sintomas desta condição. As práticas de tratamento seguem, em maior tendência, pelo controle medicamentoso, tendo o processo de psicoterapia contínua como outra opção na cura da depressão. Porém, esta segunda não é praticada nem por 4% dos que estão com depressão e, como remédio não pensa, esta unilateralidade para o tratamento da depressão não tem trazido muitos resultados.
A expansão da depressão e os limites do tratamento atual
Além disso, o acesso ao processo psicoterápico é muito difícil. O SUS não tem oferecido profissionais de Psicologia em quantitativo suficiente à demanda, e os planos de saúde restringem muito seu acesso, inclusive delimitando o processo de psicoterapia a períodos curtos. As IAs estão se fazendo de terapeutas e os resultados são catastróficos, gerando até a dependência dos usuários. Plataformas que oferecem serviço de Psicologia remuneram mal os profissionais, impossibilitando um processo regido por critérios técnicos.
Se o processo de tratamento encontra seus limites para a depressão, é preciso visualizar outras formas de práticas que podem somar, tanto para quem não está conseguindo o acesso quanto para quem já faz o tratamento com medicação e psicoterapia. As práticas associativas para além deste enquadre Médico/Psicológico, sem dúvida somam de forma vertiginosa na cura da depressão. É o caso da atividade física (principalmente de caráter aeróbico), que pode reduzir em até 40% a medicação psiquiátrica em um tratamento. O processo alimentar, saúde do sono, lazer criativo, convivência em grupos e uma religião sem repressão também podem colaborar no processo de cura. Sendo assim, quero trazer aqui duas práticas que, a meu ver, podem colaborar de forma acentuada na cura da depressão.
O nascer do sol como prática terapêutica
A primeira é a contemplação do nascer do sol, de preferência já nos primeiros raios de luz. Para tanto, é necessário acordar bem cedo (geralmente por volta das cinco) e estar em um local aberto onde possa ser atingido pelos raios do sol nascente. Esta prática traz a potência da claridade e a força do dia que nasce, além de vários benefícios para o metabolismo corporal. O problema é conseguir fazer com que uma pessoa com depressão se levante muito cedo da cama, pois dois sintomas tradicionais da depressão são a imobilidade e o isolamento. Neste sentido, as pessoas que estão na convivência de uma pessoa portadora da depressão precisam ser elemento de ajuda e condução para que esta prática faça parte do processo de tratamento.
O pôr do sol e o enfrentamento da angústia
A segunda prática terapêutica favorável ao tratamento da depressão é o parar em um ambiente aberto no qual o céu possa ser visto para contemplar o pôr do sol. Esta prática carrega em si o benefício das múltiplas cores que surgem no entardecer, como se fosse uma pintura artística no céu. Traz a conotação da alegria e de um dia que se despede, pois faz-se um ciclo de vida. Além, é claro, dos benefícios também para o metabolismo corporal. Mas esta prática vai se deparar com um outro desafio de driblar um forte sintoma da depressão, que é a angústia. E, geralmente, a angústia é um sintoma que vem com força ao entardecer, pela noite escura que se espera, evocando também as vivências traumáticas de vínculos afetivos que, na história de cada um, geralmente são experiências vividas na noite - desde os pais distantes pelo trabalho e que a noite estão exaustos e impossibilitados de oferecerem o afeto tão esperado pelos filhos até pela noite representar separação, desligar para uma situação que não se tem controle do que vem. Aqui, cabe também o apoio de quem estiver por perto para incentivar esta prática.
Estas duas sugestões simples servem muito para processos preventivos de depressão, mas são práticas pouco vivenciadas como hábito no cotidiano da Sociedade, principalmente urbana. Há estudos que comprovam que pessoas que moram em regiões litorâneas com vista para o mar tendem a desenvolver melhor estrutura de humor e há uma lógica aqui, pois do mar se percebe que o nascer e o pôr do sol são verdadeiros espetáculos da natureza que remetem o olhar para o horizonte, fator que colabora na mudança de rumo do olhar depressivo.
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Psicologia 08/04/2026 21:04:09 108
Adepressão continua batendo à porta de muita gente e, mais recentemente, adentraa vida de adolescentes, os quais chegam a mais de 40% já com sintomas desta condição.As práticas de tratamento seguem, em maior tendência, pelo controle medicamentoso, tendo o processo depsicoterapia contínua como outra opção na cura da depressão. Porém, estasegunda não é praticada nem por 4% dos que estão com depressã...
Psicologia 02/04/2026 16:10:21
Estamos vivendo um cenário no qual a instituição casamento está fadada a uma vida curta. Segundo o IBGE, o tempo médio de duração dos casamentos oficializados no Brasil é de 13 anos. Um dado que surpreende muitos, pois temos a noção de que casamento é para sempre ou até que a morte os separe. Há duas décadas, esta média figurava na casa dos 20 anos. Uma queda vertiginosa em poucos anos, e, pelo visto, se tornará menor ainda nos próximos anos.
A expectativa do “para sempre” versus a realidade
Aqui, é levado em conta os casamentos realizados oficialmente em cartório, com ou sem celebração religiosa. Se perguntarmos aos noivos no dia do casamento, qual a perspectiva de viverem juntos, lógico que dirão que é para sempre. Tirando os casos de casamentos forjados ou forçados, as pessoas escolhem casar para a vida toda.
Sendo assim, por que esta queda vertiginosa na duração dos casamentos oficializados? Traço aqui a percepção de alguns elementos básicos, decorrentes da minha experiência com atendimento de psicoterapia para casais e minha pesquisa em torno dos motivos para tal evento.
Autonomia, independência e ruptura de padrões
Aponto em primeiro lugar que, atualmente, com o aumento do nível educacional da população e a busca de autonomia no campo profissional também para as mulheres, as pessoas já não sustentam um casamento apenas por uma exigência institucional (tanto jurídica quanto religiosa), pois se posicionam com mais independência de decisão caso um casamento não esteja se mostrando satisfatório, independente da oposição de terceiros ou complicadores jurídicos (principalmente no campo patrimonial). Antes, seguia-se a orientação dos líderes religiosos de orar para que Deus apontasse um caminho para a não-separação, ou mantinha-se a relação matrimonial por conveniência, principalmente para evitar o desgaste da divisão de bens.
A segunda questão que pontuo aqui, é que as pessoas já não suportam mais um vínculo conjugal no qual o sentimento amoroso não prevalece, e/ou demonstra desavenças resultantes de um relacionamento tóxico. Antes, havia uma tendência de suportar com o pensamento de que “o outro é assim mesmo”. Esta posição foi amplamente sustentada pelas mulheres que acabavam seguindo a normativa de suportar seus parceiros, até por uma dependência econômica. Porém, hoje, 49,1% das casas são sustentadas por mulheres no Brasil (dado do IBGE de 2022). Então, para quê estar casada com um homem que, além de ser agressor, não sustenta a própria casa?
Estamos vivendo um estado mais laico, mesmo com forças conservadoras representadas por grupos neopentecostais que apregoam o casamento como o bem mais sagrado e a própria Igreja Católica insistindo na consagração “...do que Deus uniu, o Homem não separa...”, as pessoas estão seguindo suas próprias orientações. A diferença é que, no espaço religioso, defendem e vendem uma imagem do casal perfeito e da família imaculada, mas, no cotidiano e privacidade destas mesmas famílias, a realidade é outra. Por isso, a temática crítica social da “família de conserva”, onde passam um enlatado perfeito para um produto interno podre. A tal da hipocrisia.
Caminhos para um casamento duradouro na contemporaneidade
Diante deste cenário, como levar um casamento com possibilidade de vida longa e quebrar este atual cenário de vida curta ao casamento?
Em primeiro lugar, escolher casar com quem se conhece na sua essência, ou pelo menos o estrutural da pessoa. Porém, isso requer tempo. E isso se contrapõe ao fruto da modernidade que é o conceito do “namorido”, em que as partes nem bem se conectaram e já partem para habitar um mesmo lar num encontro tocado pela efervescência do sentimento pulsional.
Na segunda perspectiva, uma vez conhecendo, não querer fazer do outro o que você gostaria dentro de um ideal. Muitas vezes, um dos cônjuges acaba querendo moldar o outro conforme sua necessidade e, daí, é como se estivesse querendo uma outra pessoa que não aquela com quem escolheu casar, levando a uma eterna insatisfação.
O terceiro elemento de estruturação conjugal é a ideia de que um não pode viver na dependência emocional do outro. Ressalto a questão emocional porque há casos em que um dos parceiros depende economicamente do outro, mas que não terá impacto na vida conjugal se não houver dependência emocional. A dependência emocional do outro gera uma relação de poder para aquele que está com a força emocional, tornando o casamento uma muleta.
Um quarto aspecto estruturante que pontuo aqui também é a ideia da parceria na vida conjugal, com a partilha de sonhos e um caminho trilhado pelo casal. Fazer a dinâmica das conquistas juntos. Destacaria ainda um último ponto, que é a autonomia do casal enquanto entidade, mantendo a “porteira fechada” para intrometidos variados (seja família, amigos e até lideranças religiosas). Veja que há casais regidos por terceiros até em sua vida sexual. Assim, fica a ausência de um posicionamento firmado nesta parceria conjugal e uma dinâmica mediada por outros alheios ao casal. Lógico que há centenas de outros itens a discorrer aqui. Porém, entendo que estes que aqui apresento podem configurar bases estruturantes para a longevidade conjugal.
O desafio do amor em uma cultura narcisista
O melhor casamento é aquele no qual duas pessoas envolvidas por sentimento, conhecimento um do outro, se escolhem para juntos fazerem um caminho conjugal e, para isso, a relação de não precisar do outro, mas sim ter no outro uma parceria. No entanto, só há troca entre pessoas que têm o que trocar e comunhão entre aqueles que têm o que compartilhar. Do contrário, a perspectiva de vida longa do casamento fica numa órbita fantasiosa de uma Sociedade regida pelo consumo e pela necessidade das satisfações pessoais. E aqui surge uma questão final: Como sustentar um casamento de vida longa em uma estrutura cultural narcisista? Onde o outro precisa ser meu espelho.
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Psicologia 02/04/2026 16:10:21 111
Estamosvivendo um cenário no qual a instituição casamento está fadada a uma vidacurta. Segundo o IBGE, o tempo médio de duração dos casamentos oficializados noBrasil é de 13 anos. Um dado que surpreende muitos, pois temos a noção de quecasamento é para sempre ou até que a morte os separe. Há duas décadas, esta médiafigurava na casa dos 20 anos. Uma queda vertiginosa em poucos anos, e, pelo visto, ...
Psicologia 27/03/2026 15:50:22
O tema da adolescência retorna como destaque, principalmente com o aumento de episódios envolvendo tramas de ataques às meninas adolescentes no ambiente escolar e também nas redes sociais. O conteúdo dos ataques geralmente está associado a ameaças misóginas e/ou apelativos sexuais. Reacende no imaginário dos adolescentes meninos o machismo arcaico e obsessivo de controle e destruição da figura feminina.
Origem e influência: tecnologia, política e ideologia
Mas de onde vem esta produção? Não emerge do nada, mas sim das facilidades que a tecnologia de informação potencializa, permitindo que grupos sabedores da tendência dos adolescentes a atuarem por oposição e do desejo de anteciparem a vida adulta cooptem o público adolescente masculino a partir da imagem da força e do poder. Assim, o elemento opositor colocado por estes grupos se torna a ascensão das mulheres no mercado de trabalho, sua autonomia financeira, participação na política das mesmas e o aumento de ações feministas contra o feminicídio e violência à mulher. Somando este fator, está a crescente onda mundial de avanço de ideologias de extrema direita com perfil neofascista e neonazista, que de alguma forma financia plataformas digitais para influenciar adolescentes. No entanto, sabemos que esta cooptação está sendo engendrada também para as meninas adolescentes, dando ênfase na estética, sensualidade e retorno ao discurso da mulher submissa com uma forte conotação de religião tradicional que enfatiza a família sob o auspício dos homens.
Nos adolescentes, as plataformas digitais conseguem apresentar um leque enorme de possibilidades para fomento de grupos pela tendência de fortalecimento em grupos de iguais, indo desde programadores de ação pública para depredar patrimônios até grupos de extrema descontextualização da realidade. E o apelativo conceito de machos destruidores de mulheres parece ser uma projeção que tem encontrado muitos adeptos.
Ausência de regulação e o papel da família e do Estado
Há uma ausência do Estado Brasileiro sobre o controle das plataformas digitais, por serem elas na sua quase totalidade de grupos corporativos internacionais sem vínculo direto com a legislação brasileira. O atual Governo Federal trouxe o ECA digital - que pode, sim, auxiliar as famílias no controle do acesso às plataformas - mas a regularização deste processo vai levar tempo e precisará de um posicionamento determinante do Governo para valer este mecanismo de proteção. Por sua vez, os pais estão deixando seus adolescentes cada vez mais esquecidos e aficcionados em seus redutos digitais. Hoje, os dispositivos cumprem a função de uma babá eletrônica.
A ascensão das alas conservadoras do cristianismo que ressaltam a mulher como ser submissa ao marido colocam a fé e religião no cenário político - como se o “deus” deles tivesse designado um enviado para governar a nação - e reservam o espaço dos direcionamentos espirituais aos homens. Esta prática não é de agora, e sempre foi usada a tática de aliciar adolescentes para fazer construção de pensamento ideológico e incorporação de hábitos. Adolescentes meninos e meninas sempre foram presas fáceis. E, se ontem o processo se dava pela interação e vivência sem conseguir mobilizar tantos e com tantas opções de grupos por identidade, hoje, na era digital, esta mobilização desmobilizante está na palma das mãos, atingindo de forma generalizada e sem limites de perfil ou classe social.
Porém, o atrativo continua sendo o que dá ibope, que chama a atenção e mobiliza a vocação humana de propagar o mal pela fofoca. Freud já nos ensinou das forças que movem nossa estrutura psíquica, que transitam entre vida e morte e suas derivações de bem e mal. Há um lobo mau e um lobo bom dentro de todo indivíduo. Se alimentarmos o lobo mau, ele se torna forte e, caso contrário, não terá força para agir. Mas o fomento do lobo bom não provoca especulação, não vira notícia. Já viu algum jornal televisivo comercial que dá ênfase apenas às notícias boas? Filme bom é filme que faz sangrar.
Não quero reproduzir aqui os conceitos que a mídia tem definido para as ações machistas dos adolescentes meninos, pois ficamos dependentes dessas padronizações. Prefiro então manter este entendimento de aliciamento adolescente como uma estratégia de manutenção de poder masculino na Sociedade que vem com o viés misógino, feminicida e pornográfico. Quem são os que acionam as guerras no planeta, mulheres ou homens? Qual referencial de identidade é mais atraente? Um homem parceiro e genuinamente bom ou um detentor de força e poder? Deter o crescimento das mulheres no mundo é uma arma poderosa de manutenção do domínio masculino e atingir os adolescentes em massa nas mais diversas formas de alienação é um mecanismo estratégico. Serão os poderosos de amanhã, ensaiando as crueldades no hoje.
Caminhos possíveis: responsabilidade coletiva e ação educativa
Agora, o que fazer?
Aos adultos que ainda apresentam capacidade de ação, é preciso se unir em grupos, reivindicar postura nas instituições educacionais e provocar leis de proteção aos adolescentes, pois sozinhos não conseguem ter segurança para dar proteção aos seus filhos. Estar presente, fazer ações com os adolescentes e debater o machismo estrutural em família. Porém, diante do poderio influenciador das redes sociais e plataformas digitais, o melhor caminho aos pais e adultos que possuem alguma responsabilidade sobre adolescentes é de controlar drasticamente o uso das telas. Utilizar estritamente dentro de processos educacionais e/ou lazer criativo. Estabelecer hora de entrar e sair das telas todos os dias, independente do dia, com número reduzido de tempo.
Mas, e se os adultos responsáveis pelos adolescentes forem mais dependentes de telas do que os próprios adolescentes?
Nesse caso, a solução é assistir e esperar para ver o que vai dar e refletir. Quer ver seu filho adolescente cometendo crime de violência contra mulheres? Vê-lo olhando para as mulheres como objeto de cama, mesa e banho? Não quer nada disso para seu filho, amigo, parente, aluno, adolescente menino? Então o que podemos oferecer por enquanto é a sugestão de monitorar seus adolescentes e estar lado a lado deles potencializando a convivência afetiva.
A propósito, mais um detalhe: Se os adultos mantiverem viva a estrutura machista tanto entre homens e mulheres, aí é que o aliciamento dos adolescentes meninos para odiarem mulheres tomará força vertiginosa. No caso das meninas adolescentes, vale uma outra reflexão, como já destaquei acima, pois são aliciadas pelos mesmos mecanismos, porém, para que sigam alienadas, preocupadas com estética e sonhando com príncipes encantados que chegarão para protegê-las.
Veja artigos meus, neste site, que falo sobre adolescência:
A pré-adolescência – 12 e 13 anos Gerson Abarca Psicólogo
A adolescência normal - 14 a 16 anos Gerson Abarca Psicólogo
Adolescência adulta – 17 aos 22 anos Gerson Abarca Psicólogo
Adolescência e Psicanálise: O tempo de conflitar Gerson Abarca Psicólogo
Adolescência não é um padrão Gerson Abarca Psicólogo
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Psicologia 27/03/2026 15:50:22 108
Otema da adolescência retorna como destaque, principalmente com o aumento de episódiosenvolvendo tramas de ataques às meninas adolescentes no ambiente escolar etambém nas redes sociais. O conteúdo dos ataques geralmente está associado aameaças misóginas e/ou apelativos sexuais. Reacende no imaginário dosadolescentes meninos o machismo arcaico e obsessivo de controle e destruição dafigura feminina....
Psicanálise Contextualizada 20/03/2026 08:00:34
A entrada na fase da “adolescência propriamente dita” é o momento de criar conflitos. Neste tempo, o perfil “normal” é aquele que provoca e confronta. E é aí que o bicho pega, pois os adultos, em sua grande maioria, não conseguem (ou não querem) entender os motivos pelos quais este comportamento aparece com recorrência esmagadora dentre os adolescentes. No caso daqueles que não querem entender, isso se dá principalmente porque já passaram pela adolescência e conheceram muitas das coisas que geram conflitos com os adolescentes em seus meios de convivência (familiar, educacional e social). Interpretam como uma ideia que passou, foi uma fase e já não vale a pena lembrar. No entanto, os adolescentes presentes no aqui e agora vivenciam estas mesmas fases em novos contextos, cenários, condições sociais e realidades culturais, geográficas e territoriais. E é aí que surge a pergunta: Por que então dos conflitos e da necessidade de conflitar?
A construção da identidade e o rompimento com a infância
Exatamente porque chegou o tempo de construir uma identidade que, até então, estava sobre o auspício dos adultos. Lembram de quando levavam os filhos ainda criança para lá ou para cá, e eles apenas iam? Agora, tchau, “vai que eu não vou...”. Como passamos doze anos de nossas vidas na infância e mais dez a doze na adolescência até chegarmos na vida adulta, este processo de transição e busca da própria identidade é mais do que necessário.
Desconfio dos adolescentes que não passam por esta fase sem confrontos, pois podem estar desconectados de sua idade e contexto, ou atuam com medos por repressão familiar, religiosa, etc. Sempre digo aos pais e professores que fiquem atentos aos adolescentes silenciosos, que não dão trabalho e ficam isolados, pois daí sim pode emergir um sujeito destituído de identidade no futuro, quem sabe já revelando um processo depressivo. Este fator atualmente tem se tornado bem recorrente com a imersão dos adolescentes no universo digital e no aumento de tentativas de suicídio nesta faixa etária.
A influência dos grupos e os riscos das escolhas
Mas, para sustentar esta posição do “há governo, sou contra”, é preciso se aliar a grupos que se vinculam por aproximação de desejos e de identidades. Tribos urbanas, amigos de escola, de conexões online, k-pop, até a identificação religiosa, política e de marginalidade. É preciso sustentar uma posição e os grupos passam a ser uma tendência natural conforme os laços estabelecidos na adolescência poderão seguir próximos e conectados para toda a vida adulta.
Na busca por identificação e proteção em um coletivo, a nova família do adolescente passa a ser o grupo que se faz seu. Lembro que, na minha adolescência, vivia em função dos grupos dos quais participava na dimensão religiosa através da Pastoral da Juventude. Minha mãe dizia que minha mochila tinha asas, pois não parava em casa.
Desta forma, a configuração de rebelar-se e associar-se em grupos pode trazer consequências tanto favoráveis quanto catastróficas, pois mesmo um adolescente com boa estrutura de apoio familiar, independentemente das condições sociais - pois o apoio emocional não diz respeito apenas à condição financeira - pode entrar em uma trama na qual nunca imaginaria. Lembro-me de uma mãe que me liga desesperada relatando que o filho tinha dito que estava passando o final de semana na casa de um amigo mas, na verdade, estava envolvido com uma trama de roubo em uma casa da cidade. Na segunda-feira pela manhã, a polícia bateu à porta desta mãe para notificar que seu filho havia se envolvido com um grupo de criminosos. E isto pode acontecer em qualquer família de qualquer realidade social.
Este é o maior dilema, pois com a posição de conflitar, poderá surgir surpresas. Geralmente os adolescentes nesta fase são muito assediados por adultos que, sabedores deste perfil, os atraem para se aproveitarem de seu espírito aventureiro e corajoso. Grupos políticos também acabam cooptando adolescentes. Tanto que muitos políticos de carreira são resultado desta etapa adolescente, principalmente aqueles com demandas políticas mais extremistas, assim como grupos religiosos que apelam para o emocional e exploram culpas, levando os adolescentes a serem lapidados para uma subserviência a uma prática religiosa. Nas comunidades periféricas, os traficantes usam a estratégia de cooptar adolescentes para o esquema do tráfico com a promessa financeira movida pela emoção. Por fim, muitas meninas são aliciadas para a pornografia com promessa de riqueza explorando a força estética das adolescentes.
Atualmente, há um aumento do número de adolescentes que buscam grupos por identificação online, através dos jogos e de identificações por séries, fã clubes, etc. Porém esta tendência tem levado muitos adolescentes ao afastamento social com a ilusão de que estão cheios de amigos pela falta de conexão no mundo real. Como o estar junto, o fazer junto, contactar, o tato, são elementos estruturantes na vida do adolescente, a realidade virtual tem trazido transtornos emocionais diversos aos adolescentes, que acabam entrando num mundo da fantasia e potencializando delírios, com evolução para estado psicótico. Pois este corpo adolescente precisa sentir, pulsar e gastar energias. Online, estas energias ficam contidas, estourando sempre em algum sintoma patológico.
O papel dos adultos na orientação dos adolescentes
Para os adultos que convivem com adolescentes, o primeiro passo é entender esta fase e estar junto. Não criticar, mas potencializar estas energias. Dar abertura para o fazer e o acontecer, respeitando a privacidade, respeitando os amigos sem preconceitos e, principalmente, dando voz aos adolescentes e toda a potencialidade que trazem ao mesmo passo em que mantém os limites conforme as diretrizes que cada família estipula para si. Se houver uma conotação religiosa, que seja um vínculo de menor repressão possível, mas sim por construção de consciência. Se for no campo educacional, dar voz aos adolescentes tendo sempre a perspectiva das regras a serem seguidas, mas construídas também por consciência.
Assim, conflitar, defender-se em grupos e ir se desligando da família, são fatores que, tendo entendimento e acolhimento por parte dos adultos, leva a adolescência a ter enorme chance de evoluir para uma vida adulta potente. Aqui, cabe aos pais saírem de uma posição rígida e se relacionarem com seus filhos numa perspectiva mais amiga. Os professores, de saírem da posição de baluartes do saber para estarem juntos aprendendo, parceiros. À Sociedade, ter a clareza que a força da adolescência está exatamente no seu poder de questionar, executar e seguir sem temer, onde a educação seja encontro e ação em conjunto. Uma Sociedade que não abandone ou expulse, mas que acolha, proteja e projete perspectivas.
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Psicanálise Contextualizada 20/03/2026 08:00:34 122
Aentrada na fase da “adolescência propriamente dita” é o momento de criarconflitos. Neste tempo, o perfil “normal” é aquele que provoca e confronta. E éaí que o bicho pega, pois os adultos, em sua grande maioria, não conseguem (ounão querem) entender os motivos pelos quais este comportamento aparece comrecorrência esmagadora dentre os adolescentes. No caso daqueles que não querementender, isso se ...
Psicologia 11/03/2026 16:57:21
A adolescência parece ser pensada como uma fase fixa, na qual os adolescentes apresentam uma estrutura semelhante e comportamentos iguais. Mas a adolescência carrega em si uma diversidade estrutural de adolescente para adolescente, assim como ocorre com cada indivíduo, cada um com sua individualidade e subjetividade. Cada um vem de uma estrutura familiar, socioeconômica e cultural particular. Mesmo em uma mesma família, cada adolescente vai se comportar a partir das suas características pessoais. Esta reflexão, até aqui, parece muito óbvia. Porém, reforço este argumento para alertar aos adultos, que tendem a enquadrar a adolescência como uma tábua rasa de comportamentos esperados.
O risco da padronização e da patologização
Um olhar diferenciado desde a configuração das diferentes etapas que perpassa a adolescência, até a maneira com que se manifestará para cada um em cada etapa e seus comportamentos. É muito comum vermos definições diagnósticas sobre transtornos emocionais por episódios esporádicos de manias, até crises psicóticas e/ou estados crônicos depressivos. Se a intervenção médica for baseada na patologização do quadro, uma marca poderá ser definida para o resto da vida.
As etapas do desenvolvimento na adolescência
As múltiplas faces da adolescência passam pelo viés de uma pré-adolescência que ainda encontra o ser no estágio criança - com o desejo de já ser adulto e contando as horas para assumir-se adolescente - sendo cobrado por não mais atuar como criança e criticado por já querer sua própria autonomia.
Já na etapa de adolescência propriamente dita (a partir dos 13 anos), a ebulição dos fantasmas infantis dos primeiros anos de vida que configuram processos de construção da estrutura psíquica vem na forma da ação, deflagrando uma gama enorme de possibilidades comportamentais que podem ir desde a passividade total até a sociopatia perversa. De ser um jovem tranquilo e cheio de projetos até se sentir um fracassado.
E, no anúncio de uma vida adulta que está mais próxima (quando já adentra os 18 anos), surgem as muitas expectativas (ou baixas projeções) e/ou a dificuldade de se projetar. Enfim, uma gama de possibilidades que pode levar desde a dependência familiar e a paralisia para avançar nos estudos e/ou numa profissão até o desejo de se fazer o melhor profissional do mundo.
O papel dos adultos diante das singularidades
Enfim, é necessário aos adultos que convivem com adolescentes saberem das diferentes etapas e formas que cada adolescente consegue lidar com seus próprios estágios de desenvolvimento. É preciso ver a pessoa como ela é, no seu histórico e na sua realidade situacional atual. Acolher na diferença e fugir o máximo possível de comparações estereotipadas marcadas por padronizações comportamentais, onde só de se dizer adolescente, já se tem uma pré definição do que virá.
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Psicologia 11/03/2026 16:57:21 110
Aadolescência parece ser pensada como uma fase fixa, na qual os adolescentesapresentam uma estrutura semelhante e comportamentos iguais. Mas a adolescênciacarrega em si uma diversidade estrutural de adolescente para adolescente, assimcomo ocorre com cada indivíduo, cada um com sua individualidade esubjetividade. Cada um vem de uma estrutura familiar, socioeconômica e culturalparticular. Mesmo em u...
Politícia e Sociedade 05/03/2026 12:56:41
Olá, Marcos! De onde estiver, olhai por nós.
Dia 03 de Fevereiro de 2026. Logo pela manhã, vejo notícias da cidade de Ourinhos (SP), anunciando a morte do Professor de Geografia Marcos Correia, o Professor Marcão.
Nossa!
Há mais de 1200 km de distância entre Vitória (ES) e Ribeirão do Sul (SP), onde Marcos vivia em seu sítio com sua esposa, Marilda, e filhos. Como ter contato? Com quem falar? Notícia verdadeira?
Falar e memorar pessoas após a morte parece uma injustiça. Por que não homenagear em vida? Mas Marcos não anunciou sua morte. Chegou de supetão, em uma parada cardíaca. A vida é o existir contínuo para a morte. Marcos estava com vitalidade, altas expectativas, amante da vida e da construção da tão sonhada justiça social. Estávamos planejando algumas viagens. Ele que chegara ao processo de aposentadoria como professor, carreira que escolheu por vocação junto da sua parceira Marilda, compartilhava projetos na pequena propriedade rural em Ribeirão do Sul-SP, tendo filhos já adultos e livres para liberarem-se e provocarem liberações e liberdades. Como homenagear Marcos em vida, sendo que havia longa vida a trilhar?
Marcos, você nos pegou de surpresa. A morte te chamou antes de seu desejo e de nossos combinados. Hoje, minha alma dói por sua perda. E a dor na alma é reservada para os amigos eternos, que amamos profundamente e que estão “guardados a sete chaves no coração”(Milton Nascimento). Agora estou chorando e sangrando, mas colocando sentido em todo este momento. Tenho certeza que a cidade de Ribeirão do Sul-SP parou, pois Marcos sempre esteve envolvido e emaranhado naquela cidade. Um cidadão do bem, mas do bem ao coletivo. Tenho certeza que muitos pararam na região de Ourinhos-SP, onde era sua base de trabalho, tanto na escola estadual de segundo grau como na Escola Técnica Estadual.
Também sei que alguns falsos cristãos de Ribeirão do Sul pararam para soltar fogos de alegria. Não porque amavam o Marcos, mas porque ele, sendo um defensor dos direitos humanos, preconizador da sociedade igualitária e desejoso de uma cidade onde os benefícios fossem estendidos a todas e todos, passou a ser visto como comunista e representante do diabo naquela faixa de planeta. Em nome de um cristo com letra minúscula - esse tal cristianismo de “conserva” - é preconizada até a morte daqueles que não querem o bem só para si. Porém, pelas muitas vezes que já estive em Ribeirão do Sul, posso afirmar que a maioria absoluta daquela cidade o amava e ainda ama indistintamente. O cara é muito gente boa e vocês, que não o conhecem, não fazem ideia. Com ele, a vida sempre era força, pulsão, desejo e utopia a ser conquistada. Marcos conjugou bem o dizer de Che Guevara “É preciso endurecer, mas sem jamais perder a ternura”.
E por que escolher Marcos, como Professor, a espelhar?
Atuo como Psicólogo Educacional há 35 anos, tendo passado cinco anos de graduação muito envolvido em escolas. Foi exatamente em Assis (SP) onde conheci Marcos Correia, pois me graduei pela Universidade Estadual Paulista (UNESP-ASSIS/SP) entre 1986 e 1990. Atuava como coordenador da Comissão dos Cristão Leigos da Diocese de Assis, ligado à Igreja Católica. Tinha um programa de rádio semanal chamado “Questões sociais à luz do Evangelho” e fazíamos visitas em todas as cidades vinculadas a esta Diocese. Na época, o Bispo era Dom Antônio de Souza (já falecido), o qual tinha um apego muito forte aos cristãos mais enriquecidos da região. Porém, nos deixava livres para atuar no social - no que creio que era uma compensação por culpa de viver um episcopado oposto à Verdade do Evangelho de Cristo - e foi nesta realidade que Marcos entrou em minha vida e ganhei um amigo e irmão. Mas, e daí? Onde está o professor? Pois bem, falar de alguém sem base histórica e contexto é correr o risco de falar no vazio e ou em uma ilusão.
Marcos é espelho para a categoria professor porque escolheu ser professor como vocação - e infeliz do professor que está na educação apenas por demanda financeira, sem ter escolhido de fato estar neste lugar. Marcos é espelho porque assumiu a carreira como professor e não como “tio”, não confundindo seu papel de professor em sala de aula e/ou na comunidade escolar que vai além da sala de aula, tentando fazer a lei do mínimo esforço porque ganhava muito mal. Foi para o Sindicato lutar pelo fortalecimento da categoria e, assim, foi um grande associado e liderança pela APOESP (Sindicato dos Professores Estaduais de São Paulo). Enquanto muitos professores atacam sindicatos falando que são comunistas e, em momento de greves, vão passar o tempo em uma praia, Marcos encampava, suava, sofria e até apanhava. Mas, depois, os benefícios conquistados chegavam para todas e todos os professores.
Marcos é espelho porque seus alunos no ensino médio nunca mais esqueceram dele no resto de suas vidas, mesmo aqueles adversários a ele. Pois com sua ternura e amor, revelava aos alunos, como se fossem seus filhos, que com suavidade ou rigidez, havia uma manifestação de amor e cuidado que os projetava para o futuro pela noção de que a educação liberta.
E, só para não me alongar ainda mais, uso Marcos como referência para os professores nas minhas intervenções em Psicologia Educacional, visto que seu método de trabalho elimina os problemas de indisciplina em sala de aula. Imagine um professor de Geografia que consegue levar dezenas de turmas de Ensino Médio a atuarem em sala de aula com produção e o mínimo de disrupção. Ele me ensinou como fazer o contrato participativo com os alunos na sua disciplina.
Marcos, de onde estiver, olhai por nós. Eu preciso de seu olhar para o meu existir. Quem sabe daqui esteja saindo um livro sobre o querido Professor Marcão. Te amo e sempre te amarei. Um dia a gente se encontra por aí.
Marilda, você é uma mulher maravilhosa. Te desejo coragem para continuar a luta que você e o Marcos sempre trilharam. E como vocês formaram uma parceria linda, real, sem enlatamentos, sem rótulos. Estamos juntos, mesmo à distância, nesta etapa da ausência do nosso querido Professor Marcos Correia.
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Comentário de
Anônimo em 06/03/2026 18:44:28
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Politícia e Sociedade 05/03/2026 12:56:41 150
Olá, Marcos! De onde estiver,olhai por nós. Dia 03 de Fevereiro de 2026. Logo pela manhã, vejo notíciasda cidade de Ourinhos (SP), anunciando a morte do Professor de Geografia MarcosCorreia, o Professor Marcão. Nossa! Há mais de 1200 km de distância entre Vitória (ES) e Ribeirãodo Sul (SP), onde Marcos vivia em seu sítio com sua esposa,Marilda, e filhos. Como ter contato? Com quem falar? Notícia v...
Psicologia 25/09/2025 18:51:56
Desde 2013, a campanha do Setembro Amarelo é realizada anualmente com o objetivo de fazer a Sociedade pensar a prevenção do suicídio. Com o passar dos anos, a campanha se aprofundou nas discussões da saúde emocional com maior ênfase na prevenção da depressão. Essa quase mudança de foco ocorreu pela percepção dos estudos dos casos de suicídio, os quais constataram que 80% daqueles que tiraram suas próprias vidas estavam em depressão, mal tratadas ou sem nenhum tratamento. Sendo assim, falar em prevenção ao suicídio passa primeiro pela reflexão sobre as estratégias de prevenção e tratamento da depressão, a qual tem afetado agudamente quase todos os países do planeta e sido caracterizada como uma verdadeira pandemia.
Fatores sociais e econômicos que intensificam a depressão
Múltiplos são os fatores para este fenômeno, mas, dentre os que considero mais relevantes estão: a desigualdade social que impera nos países, criando um abismo entre os 1% mais ricos contra os 99%, que, juntos, possuem o equivalente à riqueza dos 1%, aumentando os índices de depressão de suas populações, como acontece nos EUA e no Brasil. A seguir, a intensa carga produtiva imposta aos trabalhadores, principalmente do meio industrial, levando a intensas discussões sobre reduções da jornada de trabalho (como ocorre no Brasil com o debate sobre a jornada 6x1). Por fim, a noção da depressão enquanto sintoma decorrente de um sistema baseado na cultura de consumo que tem mostrado diversos efeitos sociais nocivos ao longo da História.
Dessa forma, a campanha de prevenção do Setembro Amarelo quase se dissolve diante de um cenário mundial que constantemente convulsiona diante das disfuncionalidades estruturais das sociedades e dos abismos socioeconômicos e ideológicos, fazendo emergir discursos de ódio que elevam a intransigência para o diálogo e o respeito às diferenças, formando um panorama angustiante que promove a depressão.
Entre a conscientização e a mercantilização da saúde mental
Muitos no Brasil já questionam o Setembro Amarelo, principalmente pelo processo cooptativo de mercantilização das campanhas de prevenção, o qual acaba distorcendo seus propósitos originais ao transformar um movimento de conscientização na promoção de clínicas de tratamento psiquiátrico, da indústria farmacêutica e da comercialização dos laudos a partir de diagnósticos precoces. Enquanto o setor público não se estrutura para garantir redes de apoio ao tratamento da depressão com acesso amplo da população aos médicos psiquiatras e ao atendimento psicológico, quem acaba se beneficiando é o setor privado. Diante deste quadro, passamos a enxergar a lógica do “quanto pior a saúde pública, melhor para a saúde privada”, pois, na hora do sufoco, as famílias acabam recorrendo de alguma forma a esta via de atendimento, precisando até de empréstimos para bancar um tratamento particular. Outros fatores, como o aumento dos índices de depressão e suicídio entre adolescentes, também levam ao questionamento da eficácia do Setembro Amarelo enquanto movimento social, numa problemática agravada pelo fato de que apenas uma parcela mínima da população é efetivamente alcançada.
O desafio do SUS e a urgência de uma atuação efetiva do Estado
Em 2019, um estudo do IEPS (Instituto de Estudos para Políticas de Saúde) revelou que 70% dos brasileiros com depressão não recebem tratamento e, em 2023, pesquisas revelaram que apenas 5% dos brasileiros fazem terapia, sendo que 1 a cada 5 usam medicação psiquiátrica. No período entre agosto de 2022 e agosto de 2024, houve um aumento de 18,6% no consumo de medicação psiquiátrica, segundo o Conselho Federal de Farmácia. Esses dados revelam que o foco para o tratamento da saúde mental ainda gira em torno da medicação, com baixo índice de procura por psicoterapia. E eis que surge a questão: há um movimento comunicacional recorrente por meio das campanhas de conscientização, mas não há evolução para a ampliação dos serviços de atendimento no Sistema Único de Saúde (SUS).
Porém, esses desafios, de alguma forma, são evidenciados porque de fato há uma campanha recorrente e cíclica que serve de base referencial para esta discussão e observação deste ponto que se agrava a cada ano que passa. Desta maneira, o Setembro Amarelo acaba também servindo como um alerta de que o Estado brasileiro precisa estar presente no cuidado aos pacientes com depressão para além do discurso. Precisa de uma atuação prática e ostensiva diante deste quadro evolutivo, investindo em estrutura a partir de algo que já sabemos: é melhor prevenir do que remediar.
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Psicologia 25/09/2025 18:51:56 206
Desde 2013, a campanha do Setembro Amarelo é realizada anualmente com o objetivo de fazer a Sociedade pensar aprevenção do suicídio. Com o passar dos anos, a campanha se aprofundou nasdiscussões da saúde emocional com maior ênfase na prevenção da depressão. Essaquase mudança de foco ocorreu pela percepção dos estudos dos casos de suicídio,os quais constataram que 80% daquelesque tiraram suas própr...
Psicologia 19/09/2025 14:22:24
Pensar o Setembro Amarelo na perspectiva da prevenção à depressão é uma forma que ninguém questiona, até já tendo entrado na expectativa do calendário da população brasileira. Se estamos vendo resultados cotidianos na Sociedade, tanto no que tange à prevenção quanto na melhoria da acolhida ao tratamento com pessoas em depressão, vejo que ainda é cedo para medir, visto que foi a partir de 2013 que a Associação Brasileira de Psiquiatria deu notoriedade a essa campanha.
Sendo assim, considerar aqui a possibilidade de que a depressão possa ser abordada à luz de uma estratégia de mercado pode soar muito estranho, pois a pandemia desta condição assusta a todos e afeta quase todas as famílias brasileiras. Sendo assim, como entender que o mercado produz depressão, sendo que, aparentemente, o mercado teria perdas com o aumento de pessoas sofrendo desta mazela?
O mercado como produtor de depressão?
Aqui, entra uma questão que diz respeito à provocação das pessoas ao consumo, pois uma sociedade consumidora é o que interessa ao mercado. Sabemos que o perfil consumista está ligado a vários fatores, dentre eles a própria cultura do consumo no aspecto social e no circunspecto das famílias. Podemos forjar consumidores desde crianças, dependendo de como a família lida com suas despesas cotidianas (roupas, utensílios domésticos, refeições do cotidiano, doces, estética, festas etc).
Somos uma sociedade que copia muito o estilo de vida norte-americano ao ponto em que, hoje em dia, vemos pessoas querendo até a adoção da bandeira dos EUA como símbolo patriótico brasileiro. É neste modelo de consumo que a publicidade, associada à ideia de sucesso pelo poder aquisitivo, torna-se o referencial. Veja como, para a classe média brasileira, há sempre o sonho de um dia passear na Disney.
Consumo, publicidade e a cultura da morte
Porém, há um fator estratégico não dito que necessita de uma lupa para ser percebido no campo da publicidade e do consumo mercadológico: o adoecimento emocional da população a partir da produção de conteúdos diversos, utilizando de programas e das redes sociais para criar conflito emocional e, principalmente, a depressão. Este processo pode ser observado desde telejornais matinais nos quais o “bom dia” é seguido de cenas repletas de sangue até edições noturnas, nos quais o “durma bem” sucede cenas de conflitos, crimes e catástrofes, entre outras tragédias. As programações com seus intervalos comerciais de maior valor são justamente aquelas que mais promovem a cultura da morte.
A perspectiva de morte e vida, já anunciada por Freud na Psicanálise, é uma boa entrada da qual o mercado se usufrui para estimular o consumo: gerar a pulsão da morte, tendo em vista que, ao nos depararmos com esta, teremos o gatilho para a autodefesa em prol da proteção da vida. Dentro de uma perspectiva do consumo, a produção de subjetividade focada na morte conduz ao desejo pela vida, que é convertida mercadologicamente no desejo de consumir. O vazio interno precisa ser gerado para provocar o desejo de se preencher pelo consumo. Parece uma noção óbvia, mas não é! O que ocorre é que, nesta trama, está contido o adoecer emocional e a depressão vem como um sintoma que grita diante deste processo.
O vazio interno e o desejo de consumir
A depressão, quando já se apresenta na forma estruturada de um transtorno emocional, leva o sujeito ao isolamento e ao desestímulo de ação, numa abertura que a indústria do consumo tenta preencher com o ato de consumir. É preciso ver que, nesta lógica, a depressão se estabelece de maneira sutil e, diante da necessidade interna de constantemente preencher um vazio e eliminar a angústia, conduz a pessoa a fazê-lo com produtos. Surge então a atual necessidade de intervenções estéticas, o intenso desejo de mudar peças de roupas do guarda roupa e até o tradicional boteco do fim de semana. Quando estamos diante da pulsão, compramos (na maioria das vezes sem precisar) e, após a gratificação temporária, o sentimento de vazio e angústia retornam, sinalizando que a depressão está pedindo passagem.
Adoecer emocionalmente é, desta forma, um excelente álibi para esta indústria de consumo. Lojistas adoram receber clientes com sintomas emocionais patológicos, pois já entenderam que pessoas com estrutura emocional desorganizada e com sintomas de transtornos tendem a gastar mais.
Depressão como combustível do consumo
Mas então a depressão vai pegar apenas quem pode consumir? Não, senhor. Hoje, a população brasileira tem nas mãos o celular conectado à internet e, mesmo quem está sem recursos financeiros para consumir, estará consumindo o desejo de ter o que os que podem comprar possuem. Neste caso, a depressão se instaura com força pela impossibilidade de ter, pela impotência aquisitiva. E um dos fatores que também ampliam o lastro da depressão é a diferença social que, no Brasil, é uma das mais fortes: um abismo entre a maioria empobrecida e uma minoria enriquecida. O problema é que, em todas as classes sociais, a publicidade e os conteúdos programáticos de adoecimento que pregam um ilusório sucesso econômico estão na palma da mão de todos, causando a pandemia da depressão. E é esta dinâmica que a indústria do consumo se retroalimenta.
Aqui, concluo com uma pergunta: você está com sintoma de querer comprar sempre, mesmo que não esteja precisando? Se sim, cuidado: a sua depressão pode estar na boca do leão para te engolir.
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Psicologia 19/09/2025 14:22:24 321
Pensaro Setembro Amarelo na perspectiva da prevenção à depressão é uma formaque ninguém questiona, até já tendo entrado na expectativa do calendárioda população brasileira. Se estamos vendo resultados cotidianos na Sociedade,tanto no que tange à prevenção quanto na melhoria da acolhida ao tratamento compessoas em depressão, vejo que ainda é cedo para medir, visto que foi a partirde 2013 que a Asso...
Psicologia 12/09/2025 08:22:46
O ambiente familiar, por muitas vezes, pode ser um foco gerador de depressão. Esta é uma lógica que não queremos reconhecer, pois estamos apegados à ideia da família como o maior patrimônio de uma pessoa, especialmente dentro de um espectro religioso-cristão e dos modelos de igrejas que pregam uma ideia de instituição nuclear perfeita a partir do discurso de Deus, Pátria e Família. Porém, este modelo de Cristianismo parece desconhecer o Evangelho de Jesus Cristo, no qual a família é transposta para uma proposta coletiva universal, formando a problemática atual.
Indiferença digital e isolamento
Vivemos em tempos de internet e celulares nas mãos de todos, levando à quase total indiferença um para com o outro no mesmo ambiente familiar. Os estímulos externos e o mundo do outro passam a ser referência, levando a perda de identificações no mesmo núcleo familiar que geram um vazio pelo sentimento de solidão mesmo dentro do coletivo familiar. O processo de nucleação da família, para o circunspecto de uma família fechada em seu núcleo restrito de pais e filhos, sem conexão com o coletivo social na comunidade em que se encontram, levam à perda da rede de apoio e gerando o isolamento e consequente sensação de fragilidade e insegurança. Associado a isso a violência social estimulada pelas informações sempre dos episódios cruéis gerados pelo jornalismo policialesco.
Educação pela perfeição e culpa
A partir desta visão exigente em associação à questão acima, a família pode promover a depressão quando, no processo educacional, insiste em educar pela perfeição. Assim, teremos a repressão que gera culpas por comportamentos que não refletem o ideal desejado. E, aqui, a culpa é o chicote que estala no sintoma da depressão, numa problemática agravada por outro fator que também pode configurar a família como promotora da depressão: Quando a manifestação do amor se dá de maneira utilitária, numa dinâmica em que não há manifestação gratuita do sentimento amoroso e expressões de afeto são vivenciadas a partir dum processo de troca mediante cumprimento de obrigações ou da conversão do sentimento em bens materiais.
Da mesma forma, quando os filhos ainda são crianças e os pais (ou responsáveis) não se conectam com elas na sua forma de ser e não se comunicam pelo brincar, não ocorre a produção da alegria que pode provocar a boa expectativa dos pais estarem em casa. Pelo contrário, a ausência do lúdico gera nas crianças o desejo de estarem fora de casa e/ou não voltarem para ela. Diante destes fatores e das relações agressivas entre seus membros, a depressão vai se instaurando lentamente. Dia após dia, com a rotina tóxica de ataques e ofensas estereotipadas, o terreno estará fértil para a depressão.
A família moldada pelo capitalismo
Este ciclo de um ambiente familiar gerador da depressão é o legado do processo de industrialização, que chegou para trazer benefícios e tranquilidades às famílias, mas as escravizou na necessidade de fazer a engrenagem do capital acontecer. E a evolução tecnológica da indústria e os avanços da comunicação digital, tornaram as pessoas mais escravas da necessidade de produção e do sucesso econômico que, na verdade, chega para pouquíssimos.
Muitos e muitos fatores do cotidiano de uma família são provocadores do desenvolvimento da depressão. No entanto, sabemos que esta demanda não é gerada apenas pela família ou que esta gera a depressão por si só. Este modelo foi moldado para um sistema fechado nuclear, criado para fazer dar vazão à industrialização na perspectiva capitalista de produção, potencializando a família na sua forma existencial hoje, a tornando ambiente prioritário de desenvolvimento da depressão.
Na perspectiva da Psicanálise, em que somos construídos na estrutura emocional por pulsões de vida e de morte, nossa engrenagem social nos faz polarizados na pulsão de morte, o que eleva ainda mais a produção da depressão a ponto de já podermos dizer que a Humanidade atualmente vivencia a pandemia da depressão. Esta estrutura, forjada na perspectiva do produzir, trabalhar e sobreviver, dá vazão a uma pulsão unilateral que é a morte.
Quando as religiões tentam resgatar a família como um território de vivência do amor, posso entender que há um desejo que está polarizado na pulsão de vida neste movimento. Mas este desejo, de alguma forma, foi cooptado pela estrutura capitalista produtiva para enquadrar as famílias neste esquema, transformando a religião em um processo condenatório de repressão. Uma adaptação que fez até do próprio evangelho uma prática individualizada, não coletiva.
Pulsão de vida como resistência
Mas é pela pulsão de vida que podemos visualizar alguma possibilidade de quebra dessa estrutura patológica, principalmente se houver nas famílias a percepção da armadilha nas quais foram colocadas para, a partir daí, se recolocar na contramão do que o sistema insiste em mantê-las. Neste sentido, a Psicanálise é revolucionária, pois permite pessoas inseridas em família a repensarem suas práticas e, assim, reinventarem posicionamentos onde possam prevalecer ambientes de partilhas em um canal espontâneo de comunicação de afetos sentidos, não cobrados, e fortalecidos na perspectiva de um coletivo aberto para o comunitário.
A correnteza contrária à pulsão de vida é muito forte, mas esta é a única brecha para manter viva a esperança de uma outra construção de família. Quem sabe, estamos chegando num cume para começarmos a cair ao retorno tribal, onde cada um não é de ninguém, mas responsabilidade de todos. Onde filhos, esposos e maridos não sejam propriedades de famílias nucleares, mas pertençam a um povo e um coletivo.
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Psicologia 12/09/2025 08:22:46 377
Oambiente familiar, por muitas vezes, pode ser um foco gerador de depressão. Esta é uma lógica quenão queremos reconhecer, pois estamos apegados à ideia da família como o maiorpatrimônio de uma pessoa, especialmente dentro de um espectro religioso-cristãoe dos modelos de igrejas que pregam uma ideia de instituição nuclear perfeita a partir do discurso de Deus, Pátria e Família.Porém, este modelo ...
Psicologia 04/09/2025 10:16:23
O cotidiano das famílias que seguem em busca da sobrevivência, como ocorre na maioria dos lares brasileiros, faz do dia a dia um desencontro entre aqueles que supostamente estariam mais se encontrando. A correria é tanta que não dá nem tempo de se olhar e, assim, a tendência é que em uma mesma casa, seus membros estejam próximos e muito distantes uns dos outros. Estranhos num mesmo ninho. E esta interação familiar tão cheia de ausências de contato com os que estão no circunspecto de uma casa leva a uma dinâmica na qual olhamos, mas não vemos.
Famílias próximas, mas distantes
Mas esta realidade também se dá no mundo do trabalho, movido por metas a cumprir e também nas escolas movidas por conteúdos a despejar, assim como nos templos religiosos movidos por deuses a encontrar, e nas ruas pela pressa de chegar. No fundo, estamos rodeados por muitos, mas isolados em nós mesmos. Imersos num terreno fértil para a depressão.
O olhar como reflexo da Depressão
A depressão faz sintoma, um deles sendo o olhar entristecido. Se não consegue ver a luz existente no dia, olhar para este dia passa a ser obscuro, cinzento. Assim, o olhar refletirá a expressão de uma depressão que está se instaurando ou já entrou num poço profundo. Quando alguém está movido por muitos impulsos e vontades, dizemos que tem brilho no olhar. Este não é o olhar depressivo.
A depressão pode ser identificada por qualquer pessoa a partir do olhar do próximo. A ausência de um brilho no olhar, do olhar fugidio e profundamente triste, pode ser um alerta de que a pessoa observada está em sofrimento, mesmo que seja uma expressão de ressaca alcoólica (que não deixa de ser uma forma de depressão neurovegetativa).
Setembro Amarelo: um chamado à atenção
Desta maneira, o Setembro Amarelo chega para nos alertar sobre nossa própria saúde emocional e fazermos uma autoanálise com propostas de posicionamentos preventivos. Mas também nos convoca a efetivamente vermos e repararmos familiares, amigos, colegas de trabalho, cidadãos que cruzamos no dia a dia. Notar se há sintomas ao nosso redor de pessoas desenvolvendo e vivenciando a depressão.
Aqui, trago um elemento prático para agir no caminho da prevenção ou tratamento da depressão, que é o ato de olhar para as pessoas, olho no olho, e identificar se há sintoma de sofrimento emocional expresso a partir de seus olhares. Porém, este olhar deve começar em si mesmo, como num espelho para, daí, partir para a percepção daqueles que estão próximos.
Pequenos gestos que transformam
Mas como exercer esta ação dentro desta rotina tão corrida?
Começando a criar meios de conversar com os seus mais próximos, perguntando sobre eles. Criar momentos coletivos de estarem juntos e interagindo. Se alguém está trancafiado no quarto, entre. Mas entre e converse com o intuito de interagir. Sem pedras ou ataques, mas com ação afetiva onde a resistência do outro em se abrir seja dissolvida. Por não ser tão simples, acabamos fugindo destes pequenos gestos.
Mais que articular o jeito perfeito de interagir, é necessário sentir a necessidade de olhar, encontrar e se conectar com os que habitam o mesmo teto, espaço de trabalho, escola, praças e calçadas. E, aqui, vale a tomada de consciência da prevenção e tratamento da depressão. Por isso o Setembro Amarelo tem sua importância enquanto sinal de despertar a consciência.
A partir do momento em que surge a vontade de assumir uma posição ativa de prevenção e/ou curativa, os caminhos são encontrados por cada um, visto que a base desta fórmula é muito simples: encontrar-se no olhar do outro.
Tratamentos de depressão apenas na base medicamentosa psiquiátrica não evoluem, pois o remédio não pensa nem forma relacionamentos ou laços afetivos. Em situações nas quais a medicação for necessária, o estar junto, partilhando e incentivando a melhora, pode levar à depressão ser mais dissolvida com o tempo. Por isso, os processos de psicoterapia com profissionais de psicologia tendem a fazer bons efeitos de melhora no tratamento da depressão, pois há um profissional presente para olhar, ouvir e dialogar.
Prevenção e tratamento lado a lado
Sabemos que prevenir é melhor que remediar. Sendo assim, comece agindo nos espaços que ocupa, promovendo interações em casa, ações coletivas no trabalho, e atividades interativas na escola. Transforme ambientes onde há pessoas em ambientes nas quais pessoas se conectem. Afinal, não somos peças de uma engrenagem, mas a estrutura que as move.
Lembrando que o Setembro Amarelo surgiu com foco inicial na prevenção do suicídio. Porém, como 80% dos que chegam ao suicídio estavam em processo de depressão, o alvo principal deste setembro amarelo passa a ser a prevenção e tratamento da depressão.
E sabemos que um olhar pode salvar, despertar, abrir caminhos. Comece!
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Psicologia 04/09/2025 10:16:23 315
Ocotidiano das famílias que seguem em busca da sobrevivência, como ocorre namaioria dos lares brasileiros, faz dodia a dia um desencontro entre aqueles que supostamente estariam mais seencontrando. A correria é tanta que não dá nem tempo de se olhar e, assim, atendência é que em uma mesma casa, seus membrosestejam próximos e muito distantes uns dos outros. Estranhos num mesmo ninho. E esta interaç...
Psicopedagogia 27/08/2025 17:16:20
A adolescência, enquanto estrutura, perpassa por diferentes épocas e culturas, nos permitindo observar que temos elementos que se mantêm estruturantes para entendermos esta etapa dentro do processo do desenvolvimento da psicologia da personalidade. E uma das escolas psicanalíticas que, a meu ver, melhor elaborou as etapas de desenvolvimento psíquico do adolescente foi a argentina a partir dos psicanalistas Arminda Aberastury e Maurício Knobel1.
Etapas do desenvolvimento e os lutos da adolescência
Aberastury e Knobel destrincharam a adolescência em três etapas: pré-adolescência, adolescência propriamente dita e adolescência adulta. A primeira etapa é pautada pelas transformações fisiológicas e movida pela alteração hormonal, com traços de forte transformação sexual. A segunda etapa é pautada pelos conflitos de identidade e pela subjetividade do ser, de ser ou não ser. E a terceira etapa, por final, é pautada nas buscas futuras e na melhor definição de suas escolhas. Neste processo, entre os 11 e 22 anos, há uma transição que também passa por três tipos de luto específicos: do corpo de criança, da identidade de criança e dos pais de criança. Neste terceiro, o luto é vivenciado tanto pelos adolescentes como pelos pais.
O dilema entre o “normal” e o patológico
O grande dilema para quem estuda, educa e trabalha com adolescentes é saber identificar o que é um comportamento “normal” (entre aspas, pois está associado a uma ideia de comportamento não-patológico) e o que é, de fato, um comportamento “patológico” (que sugere um transtorno emocional). Para a escola argentina, desde as décadas de 70 e 80, apresenta-se o conceito de psicopatologia normal da adolescência, no qual os jovens exibem comportamentos ambivalentes que vão desde a agitação total à paralisia de ação, ou da transgressão e violência até o excesso de moralidade e passividade. O que chega à clínica psicológica são as queixas, tanto da escola quanto dos pais, de um sujeito em profundo sofrimento emocional e/ou com alta potencialidade sociopática perversa. Porém, ao analisarmos um adolescente, precisamos estar atentos ao que constitui uma conduta psicopatológica normal e ao que corresponde a uma posição psicopática ou de perversão real.
Diferenças entre adolescência normal e sociopatia
No caso de um comportamento sociopático, há, por parte do adolescente, uma estratégia de manutenção do equilíbrio, utilizando formas de iludir a depressão com posicionamentos de culpa para esconder-se de sua necessidade de criminalidade. Já no adolescente normal, haverá transitoriedade comportamental por períodos que são percebidos na sua espontaneidade. Por exemplo, um quadro depressivo que esteja de fato configurado no traço da sua forma de ser e que não vai se modificar conforme um interesse estrategicamente planejado.
Na linguagem, o adolescente normal tem a sua linguagem como base da comunicação; já no sociopata, a linguagem é abstraída, dando lugar à ação. Na adolescência normal, há uma interação com as alternâncias comportamentais, principalmente de humor. Nela, a espera acontece e a recomposição do ato permite o reencontro com a regra pré-estabelecida. Já no psicopata, não há espera. A ação é imediata pois não se suporta a transitoriedade. Na adolescência normal, há uma ação que vira reflexão, recuo e autopercepção. No sociopata, não há autopercepção de erro, há total negação de regras e/ou quase nenhuma percepção das mesmas. No adolescente, com seus comportamentos de suspeita que atingem até os mais próximos, há a evolução para a aceitação do luto — que passa por acolhida e entendimento desta transitoriedade pelos adultos que estão por perto — permite atravessar os diferentes lutos da adolescência para, enfim, chegar à vida adulta. Já na adolescência que caracteriza um perfil de sociopatia e/ou transtorno real, não há elaboração do luto, pois negam-se as transformações inerentes da adolescência e, com isso, não ocorre a entrada no mundo adulto.
O papel da linguagem, do luto e da autonomia
Aqui, vale observar que, na adolescência normal, o conflito vai se desfazer pela linguagem, que faz emergir uma erupção de emoções e vai se estabelecendo conforme o ambiente acolhe, orienta e impõe regras e limites de forma afetiva. Com a construção da consciência, emerge, já no final da adolescência, um desejo muito forte por conquistas e por uma busca de autonomia futura. Já na adolescência que perpassa pela sociopatia e perversidade comportamental — que cabe na ordem do patológico — o comportamento é de adultização e autonomia simulada, porém sempre associado a alguém e/ou alguma dependência, não conseguindo, de fato, evoluir para uma autonomia real. As alterações da psicopatologia normal da adolescência têm transitoriedade e tempo de manifestação. Já na psicopatologia propriamente dita no adolescente, os processos são contínuos e a dificuldade de alcançar o jovem neste estado é quase insuperável.
Riscos sociais e vulnerabilidades na atualidade
Neste sentido, entendo que a adolescência é uma etapa de muitos riscos, pois uma situação na qual o adolescente busca aventura e identificação em grupos pode levá-lo a um risco sem retorno. A preocupação dos familiares com os adolescentes é um elemento favorável para a sua educação e reforçada à medida em que o Estado também acolhe e protege este grupo.
Por exemplo: quando há controle social sobre a vida noturna, o consumo de bebidas alcoólicas e a frequência a eventos noturnos como shows, boates e bailes, com critérios de interdição a menores de 16 e/ou 18 anos, isso colabora muito no processo de monitoramento educativo do adolescente pela família. E aqui vale ressaltar que o Estatuto da Criança e do Adolescente prevê formas de proteção que, em muitos municípios, não são colocadas em prática.
Na atualidade, em centros urbanos e cidades próximas a capitais ou regiões metropolitanas, o crime organizado, o narcotráfico e as milícias se aproveitam da vulnerabilidade dos adolescentes e seu desejo de vivenciar aventuras para utilizá-los em ações criminosas cheias de adrenalina. E, numa viagem dessas, esses adolescentes podem não conseguir voltar, pois uma psicopatologia normal transitória pode evoluir para uma psicopatologia propriamente dita e transformar-se em sociopatia diante dos estímulos errados.
1 ABERASTURY, Arminda; KNOBEL, Maurício. Adolescência normal. Porto Alegre: Artes Médicas.
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Psicopedagogia 27/08/2025 17:16:20 526
A adolescência, enquanto estrutura, perpassa por diferentes épocas e culturas,nos permitindo observar quetemos elementos que se mantêm estruturantes para entendermos esta etapa dentrodo processo do desenvolvimento da psicologia da personalidade. E uma dasescolas psicanalíticas que, a meu ver, melhor elaborou as etapas de desenvolvimentopsíquico do adolescente foi a argentina a partir dos psicanali...
Psicologia 22/08/2025 08:33:50
A adultização de crianças atualmente figura como o tema da moda, aqui com o conceito de moda se referindo à ideia do evento picante do momento. Convivemos semanalmente com este tipo de notícias bombásticas, que se enquadram dentro de um modelo de noticiário estrategicamente planejado para manter a audiência dos telejornais e das múltiplas redes em suas diferentes plataformas de transmissão. O Felca é a bola da vez, pois apresentou questões sérias que até comprometem a segurança pessoal do mesmo ao denunciar um influenciador digital que se utiliza de imagens de crianças num esquema de expansão da exploração de imagens de crianças cooptadas pelas redes sociais em um processo entre pedófilos e familiares das vítimas.
Mídia, escândalos e o debate social
Esta notícia bombástica está, pelo menos, gerando um amplo debate na Sociedade Civil, chegando ao ponto do Congresso Nacional elaborar uma regulamentação mais criteriosa sobre o uso da internet por crianças e adolescentes e pelo maior controle das empresas responsáveis pelas plataformas digitais no país. No entanto, pensar a transformação da criança em adulto - o que estão denominando adultização - já é um processo que acontece na própria configuração civilizatória. Trazemos este modelo, inclusive, dos países colonizadores europeus, os quais sempre colocaram as crianças na condição de adultos-miniatura, fato que podemos constatar nas telas de grandes artistas daquela estrutura social.
Raízes históricas da adultização
Desde a Revolução Industrial, que se deu entre 1760 e 1840, a nucleação familiar se traduz no eixo “Pai, Mãe e Filhos” em um modelo cultural que, fechado em si e sem suporte de apoio dentro de uma rede comunicativa, se tornou fator decisivo para a transformação de crianças em em pequenos adultos - processo também agravado pelo avanço da pobreza, que forçava a necessidade de colocá-las como força de trabalho. E, se pensarmos historicamente na relação das crianças com o brincar livremente e com a atividade de interagir ludicamente com os pais, veremos que não houve muita diferença na demanda de vínculo com estes últimos, pois segue o foco no trabalho e nas tarefas de casa como necessidades operacionais.
A perda do brincar e a influência da tecnologia
Uma diferença está no conceito de que, até 30 anos atrás, as crianças tinham as ruas como espaço privilegiado: Saíam, encontravam outras crianças e só retornavam para casa quase à noite. Mesmo em cidades grandes, a rua era lugar de brincar, mas, hoje, as crianças já não podem estar garantidamente livres e seguras fora de suas residências, encontrando-se, em vez disso, nas redes sociais e plataformas online.
Com o advento da TV após o período das aulas, as crianças começaram a se apegar à televisão. Em 1995, lancei meu livro O poder da TV no mundo da criança e adolescente, pela Editora Paulus, no qual apontava que as estatísticas do uso da TV pelas crianças chegavam a quase 5 horas e 30 minutos fora do horário da escola, assistindo conteúdos com caráter de adultização. Hoje, a TV está na palma da mão: é o celular, com a diferença das crianças estarem sendo exploradas por pedófilos na cooptação de imagens espalhadas pela internet. Pior: Com a inoperância dos pais e adultos responsáveis pelas crianças dentro das casas, pois, como ocorria antigamente, os adultos da atualidade, em quase sua maioria absoluta, também não brincam com as crianças e empregam os celulares como babás eletrônicas sem nenhum controle de tempo ou acesso no uso.
Redes sociais, monetização e exploração infantil
Com o processo de monetização das plataformas digitais, em que pessoas podem ganhar dinheiro com vídeos que viralizam na rede a partir da cooptação de muitos seguidores, pais começaram a utilizar as crianças de casa para conseguirem uma fonte de renda na internet. As crianças começaram a adentrar canais de influenciadores digitais e desenvolver uma fantasia de que também poderiam ter suas próprias carreiras de influenciadores como um meio de vida. Ficou muito comum ouvirmos crianças dizendo que já estavam se preparando para serem apresentadores de canais no YouTube ou terem um Instagram de finalidade profissional. Já atendi crianças fixadas neste modelo de ganhar dinheiro e adolescentes que estavam abandonando os estudos para seguir o sonho de investir e prosperar em um canal próprio.
Como o número de visualizações é o objetivo primário e a banalização do Outro associada à sexualização libidinosa como forma de atração se tornaram meras ferramentas, crianças e adolescentes passaram a ser vítimas das redes de pedófilos. De forma ingênua, entram nesta armadilha, seduzidas pela ideia de sucesso — e o sucesso aqui é um espelho refletido dos adultos que vivem por conta de, um dia, terem sucesso na vida, ou com o foco em ganhar dinheiro pela força de trabalho. Mas todo adulto foge do trabalho árduo, que dificilmente o colocará na condição de bem-sucedido economicamente.
Daí, vemos uma cultura que fomenta a dependência dos pais conectados, os quais influenciadores de sucesso e, consequentemente, se alienam na forma de educar seus filhos, chegando ao ponto de incentivá-los a criarem conteúdos atrativos com fins monetários. Hoje, podemos encontrar vídeos de crianças dando aula sobre como pais podem educar seus filhos, meninas influenciando produtos de maquiagem e cosméticos, canais de podcast com crianças desenvolvendo temas de autoajuda. Pais que usam seus filhos, até bebês, para venderem produtos, ou monetizar a partir de marcas de vestuário infantil.
Consequências psicológicas e o papel da família e do Estado
A adultização é a morte da criança em sua essência. É a epítome da infância roubada. Quando as crianças são impedidas de viverem a infância enquanto infância, sendo negado a elas o potencial de fantasiar, estarão sendo conduzidas à morte da sua psique. Pois as crianças vivem imersas mais no mundo da fantasia do que na realidade, e, já na vida adulta, esta realidade é o fator de maior vivência. Quando uma criança vive plenamente o seu potencial fantasioso - que se dá pela capacidade de brincar livremente - conseguirá passar para a vida adulta com uma utilidade transformadora, onde o que era fantasioso se multiplica em sonhos, desejos e projetos.
Um adulto, ao chegar na vida adulta tendo sido negada a potencialidade fantasiosa de criança, terá sua estrutura emocional predisposta a doenças como depressão, ansiedade e a morte do existir. Como a criança é imersa na fantasia, sua predisposição para ser vítima da sedução é enorme, pois não possui a estrutura de um adulto para saber discernir o que é certo ou errado e não possui autonomia de ação, o que a torna uma presa fácil para adultos predadores. A exposição das crianças às redes midiáticas na internet é um campo aberto para a morte da infância e exposição das mesmas a possíveis abusadores.
A decisão de como conduzir o processo educacional das crianças deverá ser dos pais e familiares. Porém, seria um grande benefício para os familiares adultos se tivéssemos leis mais definidas sobre o uso da internet e de maior controle das empresas responsáveis pelas plataformas digitais no Brasil. Assim, o Estado presente estaria fortalecendo a educação de suas crianças dando mais respaldo e proteção às mesmas, mais suporte aos familiares. Basta notar como a lei que proíbe o uso de celulares nas escolas já ajudou (e muito) as instituições no desenvolvimento educacional.
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Psicologia 22/08/2025 08:33:50 532
A adultização de crianças atualmentefigura como o tema da moda, aqui com o conceitode moda se referindo à ideia do evento picante do momento. Convivemossemanalmente com este tipo de notíciasbombásticas, que se enquadram dentrode um modelo de noticiárioestrategicamente planejado para manter a audiência dos telejornais e das múltiplasredes em suas diferentes plataformas de transmissão. O Felca é a b...
Psicologia 15/08/2025 14:23:43
O Transtorno de Déficit de Atenção não é uma doença e, por isso, não pode ser tratado como se fosse. Coloca-se no quadro de transtorno, porém, não pode ser caracterizado como uma estrutura patológica, devendo ser visto como uma forma de ser. O índice de pessoas com TDAH atinge em torno de 4% da população. No entanto, se descrevêssemos nossos sintomas diários de perda de atenção, seríamos enquadrados no TDAH. É incrível o número de laudos que atualmente aparecem caracterizando este transtorno.
A mais recente moda proveniente de imagens e postagens, principalmente no TikTok, é a de usar chupeta para conseguir “segurar” a TDAH. Porém, o uso de medicações para melhorar a concentração é altíssimo e, inclusive, sem prescrição médica. Concurseiros e estudantes do ensino médio estão apelando para as medicações de controle e foco.
O verdadeiro foco do processo terapêutico
O processo terapêutico para o tratamento de TDAH não visa eliminar o quadro em si, mas potencializar o sujeito diagnosticado com este quadro a aprender a lidar com seu comportamento, que tem como base a hiperatividade e a consequente desatenção. Isso porque os portadores de TDAH possuem geralmente muitas habilidades e potencial de ação que, por conta dessa “sobra” de energia e habilidades, acabam se “atropelando” ao fazer, concentrar-se e desenvolver essas potencialidades.
Após um diagnóstico bem estruturado que, na sua maioria, perpassa uma intervenção interdisciplinar — psicólogo, neurologista, psiquiatra — dar-se-á o processo terapêutico. Geralmente, em um primeiro momento, há a necessidade de um auxílio medicamentoso com ênfase no processo de concentração que precisa ser monitorado por um médico neurologista ou psiquiatra. Isso decorre do fato de que, geralmente, há dificuldade de adaptação a uma ou outra fórmula e/ou princípio medicamentoso, inclusive, com efeitos colaterais comportamentais, como processo obsessivo ou ansiedade generalizada.
A importância da criatividade e da família no tratamento
No campo clínico psicológico, o objetivo é colaborar para que o portador de TDAH evolua na sua potencialidade múltipla, procurando ver e conduzir sua energia psíquica e habilidades cognitivas para o processo de focar em atividades que possam dar sentido e que tenham começo, meio e fim.
Aqui, neste processo psicoterapêutico, cabem, sim, intervenções dirigidas dentro da psicopedagogia, a qual os psicólogos podem exercer com muita clareza. Porém, não basta o estímulo psicopedagógico, sendo necessário também haver uma escuta deste paciente para que ele possa ser entendido na sua estrutura e possa, a partir de sua autopercepção, direcionar escolhas e ações. O despertar criativo nestes quadros é um elemento essencial para a reinterpretação do TDAH a favor do seu portador. Por isso, nestes casos, o profissional psicólogo precisa ter uma potencialidade criativa e recursos disponíveis no consultório para tal empreendimento.
A contínua intervenção junto à família do portador de TDAH é fator preponderante no resultado favorável da intervenção, pois geralmente as famílias estão usando o recurso das telas para amenizar o perfil de “muita energia” do TDAH. Porém, este tipo de ação na família colabora para que o portador torne-se mais confuso e sem estimular suas múltiplas habilidades e potencial cognitivo. Com a intervenção adequada, que se dá com um diagnóstico real, uma intervenção interdisciplinar e um processo terapêutico contínuo em parceria com a família, vemos casos em que o TDAH não necessita, inclusive, de uso medicamentoso, por já conseguir utilizar o TDAH como recurso, ou melhor, utilizando o comportamento hiperativo a seu favor.
O perigo dos diagnósticos apressados
O problema atual no processo de avaliação está em confundir a perda de foco, o hiperfoco ou o hipofoco, sem identificar o fator preponderante que desencadeia estes sintomas. A depressão, a ansiedade e qualquer outro transtorno emocional levam a sintomas de perda de concentração. Confundir uma ansiedade com hiperatividade é um caminho tênue, um olhar quase que de “golpe de vista” ou, como precisaríamos usar no futebol, o “VAR”: é quase uma linha de impedimento por um braço.
Cotidianamente passamos por situações adversas que podem nos colocar em uma perda de concentração. Contudo, não podemos, a partir de um sintoma isolado, caracterizar que existe um sujeito com o perfil de TDAH. Como o diagnóstico detalhado não é feito a toque de caixa ou em uma consulta apenas — e, pior ainda, em consultas relâmpago nas quais o sujeito sai “laudado” —, requerendo um processo diagnóstico que precisa ser construído, muitas vezes, a várias mãos, seguimos vendo diagnósticos relâmpago de TDAH e consequente prejuízo ao paciente, pois será vítima de intervenções medicamentosas equivocadas, receberá uma tarja para seu processo de aprendizado e, pior ainda, poderá bloquear, pela prescrição indevida, todo o potencial criativo e de desenvolvimento cognitivo.
A partir do que trouxe, a pergunta que deixo é: Quer ser mais um nessa massa? Repetir o mesmo de todos na busca por respostas e se autodenominando mais um doente emocional?
Se sim, continue escravo de respostas, medicações e laudos superficiais. Caso contrário, procure uma melhor investigação dos sintomas pelos quais esteja passando — ou que alguém de sua família esteja passando — para fazer um procedimento transparente e sem criar dependências, tanto de medicações quanto de hábitos que lhe tirem a autonomia.
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Psicologia 15/08/2025 14:23:43 390
O Transtorno de Déficit de Atenção não é uma doença e, porisso, não pode ser tratado como se fosse. Coloca-se no quadro de transtorno, porém, não pode ser caracterizado como uma estrutura patológica, devendo ser visto como uma formade ser. O índice de pessoas com TDAH atinge em torno de 4% da população. Noentanto, se descrevêssemos nossossintomas diários de perda de atenção, seríamosenquadrados no...
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